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21/01/2003 - 09h04

Espanhol propõe criar "Internacional Social"

LIA HAMA
da Folha de S.Paulo

A pluralidade de movimentos do Fórum Social Mundial e sua atuação como "nuvens de mosquitos" -que incomodam de forma pontual o poder econômico e político mundial sem mudar a sua estrutura- exigem a formação de um grupo que articule as demandas e prepare um programa concreto de alternativas ao atual modelo de globalização.

A análise é do sociólogo espanhol Rafael Díaz-Salazar, professor da Universidade Complutense de Madri, que defende a criação de uma espécie de Internacional dos movimentos sociais.

Díaz-Salazar é autor do livro "Justicia Global - Las Alternativas de Los Movimientos del Foro de Porto Alegre" (Barcelona, Icaria, 2002), lançado em dezembro na Espanha. O livro será vendido durante a terceira edição do fórum, que ocorre na capital gaúcha entre os dias 23 e 28 deste mês.

Em entrevista à Folha, ele comenta a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva e critica o Pacto de Moncloa, modelo do pacto social de Lula. Em 12 de agosto, o petista disse: "Vou fazer uma coisa que o Fernando Henrique Cardoso falava muito em 1982, o famoso Pacto de Moncloa. Queremos construir uma espécie de um novo contrato social". Segundo Díaz-Salazar, "não se deve idealizar o pacto."

Folha - O que querem os protagonistas do Fórum Social Mundial? O que existe em comum entre grupos de interesses tão diversos, que incluem desde o movimento sem terra até feministas e ambientalistas, passando por sindicalistas e ativistas de direitos humanos?
Rafael Díaz-Salazar
- Creio que o que há em comum é o desejo por justiça global. Por justiça global entendo, por um lado, que se universalize o modelo de bem-estar social que se construiu na Europa.
O segundo objetivo é uma justiça global multidimensional, que leve em conta dimensões ecológicas, econômicas, de gênero, de direitos humanos. Por fim, querem aproveitar o processo de globalização para promover uma maior distribuição da riqueza mundial.

Folha - Ao citar em seu livro a escritora canadense Naomi Klein, que caracteriza essas redes internacionais de movimentos sociais como "nuvens de mosquitos", o sr. afirma que é necessário uma concentração mais organizada e sistemática desses esforços. Como?
Díaz-Salazar
- Necessitamos criar um contrapoder social popular em escala mundial. E, para isso, o que proponho é a criação de uma espécie de Internacional [Comunista, central coordenadora dos partidos comunistas em todo o mundo] de movimentos sociais pela justiça global.

Por que creio que isso é necessário? Porque o poder se caracteriza por concentração de energias e o contrapoder também tem de se articular assim. Para constituir essa Internacional de movimentos, em primeiro lugar, teria que se criar uma coordenação. Pessoas dos cinco continentes que se dedicariam exclusivamente a isso.

Em segundo lugar, creio que há que se organizar grupos de debate para discutir as estratégias.

Folha - Haveria uma coordenação com instituições políticas?
Díaz-Salazar
- Não. O Fórum tem que permanecer tal como está, um espaço de encontro de gente diversa, que não é obrigada a chegar a consensos. O que eu proponho é algo complementar.

Outra missão seria oferecer um programa concreto de justiça internacional. No Fórum de Porto Alegre, se apresentam muitos documentos. Mas não há um programa em que os movimentos digam: "Estamos de acordo".

Folha - O sr. argumenta que o movimento por justiça global não apenas protesta, mas oferece propostas. O sr. poderia dar um exemplo?
Díaz-Salazar
- Se você entrar nas páginas de internet dos 20 movimentos mais importantes de Porto Alegre vai ver que existem não só protestos, mas alternativas. Não é necessário inventar as alternativas, elas já existem. Há que organizá-las. Criar um consenso sobre quais são as mais importantes, as mais prioritárias e oferecê-las à comunidade internacional.

Folha - O sr. poderia dar um exemplo de uma proposta viável?
Díaz-Salazar
- Sim, há uma proposta muito concreta: a taxa Tobin [imposto sobre as transações financeiras internacionais para custear gastos sociais]. Um exemplo: segundo as Nações Unidas, o programa de erradicação da pobreza em todo o mundo custaria US$ 250 bilhões. Se conseguirmos implantar a taxa Tobin, se arrecadaria US$ 1,5 trilhão ao ano.

Outro exemplo muito concreto é o alívio da dívida externa.

Folha - Quais seriam os critérios para o alívio da dívida externa?
Díaz-Salazar
- [O programa] Começaria pelos países mais pobres. Além disso, não se pediria simplesmente a anulação das dívidas externas, mas a reinversão da dívida. Por exemplo, o que o Brasil tem a pagar aos EUA. Essas quantias se transformariam em projetos sociais no próprio país.

Folha - Em matéria publicada pelo "El País", o sr. afirma que há "programa, orçamento e energia militante" para efetuar as mudanças, mas faltam "políticos à altura das circunstâncias". Um político como Luiz Inácio Lula da Silva estaria à altura das circunstâncias?
Díaz-Salazar
- Creio que sim, agora ele tem que demonstrar. A grande responsabilidade que Lula e o PT têm é conseguir se tornar uma referência internacional de políticas sociais. Necessitamos de um novo modelo que não seja comunista nem neoliberal. Cremos que este modelo possa ser o que de alguma forma simboliza Lula. Na Europa, estávamos sem esperança. Não víamos modelos para o Terceiro Mundo. Parecia que aos países da América Latina e da África só restava neoliberalismo ou Fidel Castro. Duas coisas horrorosas. Por fim se vê uma saída.

Folha - Há quem compare Lula a Felipe González, um homem de um partido de esquerda, que assumiu o país em condições difíceis e promoveu a construção da Espanha moderna. Até que ponto essa comparação faz sentido?
Díaz-Salazar
- Creio que Lula e González são políticos muito distintos. O que González tinha era um projeto de modernização da Espanha, não de mudança social profunda. O que fez foi um programa de reformas políticas importantes, mas a sua política trabalhista foi a que mais acelerou o emprego precário. Creio que Lula é um político mais à esquerda e tem um projeto de mudança social mais profundo.

Folha - Outra citação frequente é ao Pacto de Moncloa, que seria uma referência ao Pacto Social.
Díaz-Salazar
- Não se deve idealizar o Pacto de Moncloa [realizado na Espanha em 1977, com líderes trabalhistas e empresariais, que permitiu a estabilização da economia e a retomada do crescimento]. O pacto teve um componente positivo, que foi gerar um acordo entre os setores. Mas teve um aspecto negativo que o PT deveria evitar: a partir do pacto, a Espanha começa uma precarização do emprego, que é a maior da Europa. O pacto serviu para debilitar o movimento sindical porque cedia muito aos empresários.
 

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