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20/08/2000 - 10h52

Como Eduardo Jorge virou mandarim da corte de FHC

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ANDRÉ SINGER
da Folha de São Paulo

Vocacionado para ser um mandarim da burocracia brasileira, o ex-secretário da Presidência da República Eduardo Jorge Caldas Pereira alcançou o objetivo de uma vida de trabalho e acabou traído por três sentimentos: a vontade de ter luz própria, a ambição material e a amizade com o ex-senador Luiz Estevão (PMDB).

Membro de uma estirpe de funcionários sérios e competentes, EJ foi o que mais longe chegou numa carreira tradicional na família. Na década de 30, o patriarca do que viria a ser o clã Caldas Pereira decide largar o curso de engenharia em Recife e ingressar no serviço público como auditor da Receita Federal, órgão do qual se aposentaria em 1968 como diretor.

A carreira, de início modesta, do fiscal de rendas de Riachuelo (SE), mas criado em Recife, obrigava-o a mudar constantemente de cidade. Nessas andanças, Eduardo Jorge Pereira conheceu, no Maranhão, a futura mulher, Lygia Caldas. Nascida no Piauí, a mamainha, como agora é chamada com reverência pelos 12 filhos vivos e três dezenas de netos, cresceu em São Luís do Maranhão.

De classe média, como o marido, a família de Lygia também fez carreira pública. Um irmão, Líster Caldas, exerceu por muitos anos o mandato de deputado federal pelo PSD (saiu da política ao final do governo Castelo Branco, em 1967), e outro, Leônidas, chegou a coronel do Exército e serviu no SNI (Serviço Nacional de Informações) durante o regime militar.

Eduardo, que morreu em 1984, era um homem sisudo e preocupado em ensinar padrões de correção moral aos 13 filhos. Lygia sempre foi enérgica e dotada de liderança. Com 82 anos, ainda reúne a família, todos os domingos, em sua chácara do Lago Sul, em Brasília, em um almoço regado a discussões políticas. Quando o quórum está alto chegam a 50 convivas. Ela própria cozinha.

"É uma comida caseira, mas de excelente qualidade. Ela é uma cozinheira de mão cheia", comenta Rui Jorge, 56, o quinto irmão e um dos mais próximos de EJ. Além de preparar pratos brasileiros típicos como sarapatel e feijoada, a matriarca opina com autoridade nos acesos debates dominicais.

Escola de elite

Apesar da escassez de recursos para tantos filhos, Eduardo e Lygia investiram em conhecimento. Ao desembarcarem no Rio de Janeiro, em 1945, colocam a prole no Santo Inácio, a escola que educou a elite carioca dos anos 50.

"Meu pai gastava dinheiro em educação e comida para nós", conta Marcos Jorge, 53, o oitavo irmão. Com a ajuda de bolsas de estudo, cinco Caldas Pereira estudaram no rigoroso colégio jesuíta. Lá EJ, o quarto filho, irá se formar em 1961.

EJ nasceu em Baturité (CE), a 3 de outubro de 1942, mas cresceu no Rio, onde chegou pequeno e morou até completar 22 anos. Ao mesmo tempo em que o garoto se misturava à elite carioca _foi colega de turma do ministro Pedro Malan (Fazenda) e do empresário Olavo Monteiro de Carvalho_, o pai dava um passo importante: deixava de ser fiscal para se tornar assessor da diretoria da Receita na capital. Saía da rua para entrar no gabinete.

Quando o governo se transfere do Rio para Brasília em 1960, o antigo fiscal é convocado para uma missão de relevo, cuidar da implantação do Ministério da Fazenda na nova capital. "Ele se encantou com Brasília e decidiu ficar", conta Rui.

A partir de 1962, o clã se estabelece na nova cidade, quase deserta. EJ, o filho que leva o nome do pai, decide ficar no Rio, onde estuda engenharia. Dois anos depois, numa repetição da história paterna, desiste de cursar engenharia na PUC e ingressa no funcionalismo por intermédio de um concurso para auxiliar legislativo de nível médio no Senado.

Na Brasília do regime militar, EJ matricula-se em economia na UnB ao mesmo tempo em que trabalha no Senado _instituição que abrigou outros cinco Caldas Pereira (Maria Delith, Rui, Paulo, Maria Lúcia e Rodrigo).

Na visão dos colegas daquela época, EJ era, sobretudo, um jovem sério e ambicioso, alguém que queria "chegar lá". Envolvente quando procurava se aproximar de um personagem poderoso, EJ, porém, não é tido como um sujeito naturalmente simpático. Ao contrário. "Mesmo sem conhecê-lo, logo de cara ele transmite algo que afasta", diz um funcionário que conviveu com ele.

Graças à sua competência e senso de oportunidade, EJ consegue dois feitos importantes. O primeiro é ser indicado pelo presidente do Senado, Petrônio Portella, para coordenar, em 1970, os estudos de implantação do Centro de Informática e Processamento de Dados do Senado Federal (Prodasen).

O segundo é ajudar a estabelecer um convênio entre o Senado e a Universidadade Estadual de Nova York em Albany (Suny at Albany, em inglês), na qual ele próprio faz mestrado em administração pública entre 1972 e 1974.

Trampolim

O Prodasen será a partir de 1975, quando assume a diretoria-executiva, o trampolim de EJ. Dotado de autonomia para contratar e demitir, além de orçamento próprio e prédio em separado, o diretor do Prodasen é dono de um feudo com centenas de funcionários. Se não bastasse, o Prodasen controla toda a informação relevante para a atividade legislativa.

Da época do Prodasen, que dirigiu até 82, quando foi demitido por pressão do então senador Itamar Franco, que desejava diminuir a autonomia do centro, EJ carrega até hoje duas paixões: colecionar informação e utilizar equipamentos eletrônicos avançados para armazená-la e organizá-la.

Há quem diga que Eduardo Jorge ainda manda no Prodasen, onde criou uma teia de colaboradores que continuariam em sua área de influência. No entanto, ninguém nega que a precoce informatização do Senado brasileiro foi obra sua.

No Prodasen, EJ conheceu Sérgio de Otero Ribeiro, talvez hoje o seu mais próximo amigo. Otero teve um papel importante no passo seguinte de sua carreira. Foi o padrinho da aproximação entre Fernando Henrique Cardoso e dois membros do clã Caldas Pereira.

Irmão de um militante de esquerda conhecido de FHC _ Ivan Otero, que viria a morrer em setembro de 1987, no acidente aéreo que matou o senador Marcos Freire, a quem acompanhava como assessor_, Sérgio Otero sugeriu dois colaboradores brasilienses ao novo senador por São Paulo, a psicóloga Maria Delith e o ex-diretor do Prodasen Eduardo Jorge.

A dupla de irmãos Caldas Pereira serviu FHC de 1983, quando EJ voltou de uma curta segunda passagem por Albany, a 1992, ocasião em que Delith, até então chefe de gabinete de FHC, deixou de trabalhar diretamente com o atual presidente. Eficientes, sérios e trabalhadores, ambos foram um esteio do mandato parlamentar do ex-professor da USP.

Na Assembléia Constituinte de 1987-88, EJ, excelente conhecedor da técnica legislativa, teve um papel de destaque como redator das emendas apresentadas por Fernando Henrique.

A intimidade entre FHC e EJ cresceu aos poucos. Com o tempo, EJ deixou de ser somente um assessor parlamentar para assumir os papéis de secretário particular e, até certo ponto, de operador político, ou seja, do sujeito que resolve problemas. Embora nunca tenha deixado de chamar Fernando Henrique de senhor, entre os dois se estabeleceu certa proximidade. Viagens para a fazenda de FHC em Minas Gerais passaram a ocorrer com alguma frequência.

EJ não é homem de muita vida social. Parece ter poucos amigos íntimos e os momentos de descontração, nos quais "conta piadas e se diverte como qualquer outro", segundo o irmão Rui, ocorrem só em família, em geral nos almoços de domingo.

Previsão

Casado, pela segunda vez, com a psicóloga Lídice Coelho, com quem tem um filho adolescente, reagia às reclamações da mulher sobre sua ausência e excesso de tarefas com a seguinte frase: "Eu não estou trabalhando para um senador. Eu trabalho para o futuro presidente da República".

Em 1992, o vaticínio do presciente secretário começa a se confirmar. Com a queda de Collor, Itamar Franco constitui um novo governo e chama FHC para o Ministério das Relações Exteriores. O novo chanceler apresenta-se no Itamaraty munido de apenas dois assessores, Ana Tavares (imprensa) e EJ (todo o resto).

Visto no palácio da diplomacia e depois na Fazenda como um sujeito pragmático, mas sempre fechado e até ríspido, os antigos colegas de Senado começam a observar uma lenta mudança nas atitudes de EJ.

Às vésperas de chegar, por meio de brilhante carreira burocrática, a um lugar reservado, em tese, apenas aos políticos, EJ começa a ceder aos sentimentos que o levariam, anos mais tarde, a ser o suspeito número um da República.

  • Leia mais sobre os casos TRT-SP e EJ no especial
    Poder Público

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