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05/08/2004 - 08h16

"Crime da rua Tonelero" ainda gera dúvida

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LUIZ FERNANDO VIANNA
da Folha de S.Paulo, em Brasília

Nos primeiros minutos de 5 de agosto de 1954, uma quinta-feira como hoje, foi assassinado o major-aviador Rubens Vaz em frente ao prédio onde morava o jornalista Carlos Lacerda, em Copacabana, no Rio. Após 19 dias de crise política, o presidente Getúlio Vargas se matou. Exatos 50 anos depois do assassinato, o "crime da rua Tonelero" continua despertando paixões, versões e dúvidas.

De acordo com o Inquérito Policial Militar realizado entre agosto e setembro de 1954, Gregório Fortunato, chefe da Guarda Pessoal de Vargas, foi o mandante de um atentado que tinha Lacerda como alvo. O jornalista, que fazia em seu jornal, a "Tribuna da Imprensa", campanha contra Vargas, foi ferido no pé. O oficial da Aeronáutica que o acompanhava levou dois tiros enquanto brigava com o pistoleiro Alcino João do Nascimento.

Essa é a versão oficial, confirmada em júri popular em 1956. Mas ela ainda é contestada por pessoas --em especial admiradores de Vargas-- que apontam buracos no inquérito e procuram respostas para antigas perguntas.
Dois livros vêm agora renovar a lenha dessa fogueira histórica. "Vitória na Derrota" (Casa da Palavra), do sociólogo Ronaldo Conde Aguiar, e "Getúlio" (Record), do jornalista e escritor Juremir Machado da Silva, têm muitas diferenças entre si, mas a convicção de que os enviados de Gregório Fortunato não tinham o objetivo de matar Lacerda.

Machado da Silva, cuja obra chega às livrarias em duas semanas, fez um romance histórico, repetindo a opção de Rubem Fonseca em "Agosto". Apesar dessa liberdade, passou três anos lendo tudo sobre o caso e entrevistando pessoas, incluindo o assassino de Vaz. O livro se inclina por ver Lutero Vargas, filho de Getúlio, por trás do que seria um "susto" ou uma "surra" em Lacerda, não um homicídio.

Para o escritor, o pistoleiro Alcino e Climério Euribes de Almeida, membro da Guarda Pessoal que também estava na Tonelero, não tinham condições de realizar o atentado. "Eles eram incompetentes, e a história montada era muito amadora", afirma.

O amadorismo a que se refere é o mesmo que leva Conde Aguiar a contestar a idéia de atentado: Alcino usou uma arma das Forças Armadas; Nélson Raimundo de Souza, o motorista de táxi que foi chamado por Climério para o serviço e retirou Alcino do local, fazia ponto em frente ao Palácio do Catete; e não havia plano de fuga para Climério e Alcino, que foram presos dias depois.

Ou seja, para um atentado contra aquele que era o mais ruidoso adversário de Vargas, havia pistas demais apontando para o Catete. Isso contribuiu para que Conde Aguiar acrescentasse em seu livro mais uma hipótese para o "crime da rua Tonelero".

"Havia um grupo seguindo Alcino e Climério. Um grupo que não queria matar Lacerda, mas o militar que estivesse com ele, para precipitar a crise política. Os reais mandante e pistoleiro não foram descobertos", diz ele.

Paixão

Versões como essa têm origem no tom passional que sempre cercou o crime. Getulista assumido, Conde Aguiar escreve em seu livro que, depois de morto, Getúlio "passou a viver na memória e no coração do povo brasileiro".

Por outro lado, o IPM da Aeronáutica tem várias expressões como "mentiroso depoimento", num tom anti-Vargas acalorado demais para um relatório.

Durante o inquérito, não foi feita reconstituição do crime ou acareação entre Lacerda e Alcino. O resultado é que até hoje não se sabe exatamente o que aconteceu na Tonelero.

Rubens Vaz Júnior, 55, um dos quatro filhos do major assassinado e estudioso do caso, confia no resultado do IPM e afirma que a justiça foi feita.

Para ele, Alcino já atravessou a rua atirando em Lacerda, acertando-o no pé. Quando Lacerda fugiu para a garagem com seu filho Sérgio, então com 15 anos, Vaz partiu, desarmado, em direção ao pistoleiro, dando uma chave-de-braço nele e aí tomando o primeiro tiro. Ao cair, tomou o segundo. Não teria havido outro, como dizem os que acreditam em pelo menos mais um homem na cena.

"Meu pai era um homem de vida simples, mas determinado. Ao decidir, juntamente com outros oficiais, acompanhar Lacerda, ele sabia que corria perigo, mas era consciente de que estava fazendo o melhor pelo país", afirma Vaz Júnior, lembrando que seu pai estava com Lacerda substituindo outro oficial, Gustavo Borges, que lhe pedira para trocar o turno.

Especial
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