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01/09/2003 - 04h27

Estudo flagra cratera de asteróide em Santa Catarina

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REINALDO JOSÉ LOPES
free-lance para a Folha de S.Paulo

Pesquisadores do Instituto de Geociências da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) acabam de confirmar que uma cratera de 12 km de diâmetro no oeste de Santa Catarina foi causada pela queda de um grande corpo celeste, entre 110 milhões e 60 milhões de anos atrás.

Divulgação/Nasa
A cratera do município de Vargeão, aberta pelo impacto de um objeto com cerca de 600 m de diâmetro, deve se tornar a quarta do país a ter sua origem atribuída a esse tipo de evento. "Graças ao trabalho mais detalhado que fizemos, desta vez foi possível encontrar traços que são exclusivos desse tipo de impacto", afirma o geólogo Alvaro Penteado Crósta, 49, coordenador do estudo.

O pesquisador já desconfiava da origem extraplanetária do buraco desde os anos 70, quando trabalhou na identificação da cratera de Araguainha, em Mato Grosso. Na época, a característica mais esquisita da cratera de Vargeão era a presença, bem no meio dela e praticamente aparecendo na superfície, de rochas do arenito Botucatu -formação geológica que deveria estar a 700 m de profundidade.

"Como é que você vai explicar isso? Poderia ser uma intrusão vulcânica, mas os levantamentos da Petrobras nunca encontraram linhas sísmicas que mostrassem isso por ali", diz o geólogo. Além desse afloramento inusitado, o próprio relevo da depressão, marcado por uma série de círculos concêntricos, parecia dar forte apoio à hipótese do impacto.

Para definir de vez a origem da cratera, Crósta e o aluno de geologia César Kazzuo Vieira, cujo trabalho de conclusão de curso é justamente sobre o objeto, partiram para Vargeão no final de julho deste ano, recolhendo material rochoso que foi analisado detalhadamente a olho nu e no microscópio, em busca dos sinais da queda de um corpo celeste.

Ondas de choque

Não demorou muito para que as análises revelassem a presença dos chamados "shatter cones" (em inglês, "cones de estilhaçamento"), uma das marcas mais típicas da queda de um impacto extraplanetário, segundo Crósta. "São cones estriados que aparecem nas rochas, formados pela onda de choque do impacto", explica o geólogo da Unicamp.

Outra pista do impacto, um pouco mais ambígua, são as brechas -um tipo de estrutura que poderia aparecer tanto pelo choque de um corpo celeste quanto pela atividade vulcânica.

"As brechas aparecem quando o mineral liquefeito se solidifica e forma um mosaico com pedaços sólidos no meio. Fica aquela massa disforme. As pessoas às vezes confundem [as brechas de origem vulcânica com as causadas por impactos], mas nesse caso a espessura da camada de mosaico é muito maior", afirma Crósta.

Com essas evidências, os pesquisadores já consideram a origem da cratera caso praticamente encerrado. Paradoxalmente, afirma Crósta, o buraco deve ter sido um pouco menos largo quando foi aberto: "O diâmetro final é de 12 km, mas isso deve ter sido causado pelo colapso de parte da parede da cratera original. É como quando você cava um buraco na areia da praia: parte da parede dele cai e você fica com um buraco mais raso e maior do que antes".

Um dos enigmas que ainda precisam ser resolvidos é o da idade da cratera. "Nós sabemos que ela é mais nova que a serra Geral onde ela se encontra, o que quer dizer menos de 110 milhões de anos. Mas ao mesmo tempo ela também não é muito recente, no máximo 60 ou 50 milhões de anos."

O veredicto final só deve vir do uso de rochas da região que possam ser datadas por decaimento radioativo (no qual a transformação de elementos químicos radioativos nas rochas, que acontece a uma taxa conhecida, permite estimar a idade delas).

Segundo Crósta, ainda não é possível determinar que tipo de corpo celeste (asteróide ou mesmo cometa) teria aberto a cratera de Vargeão.

Contudo, identificar a cratera e outras do tipo no Brasil pode ajudar a entender um dos fatores das extinções em massa de espécies que afetaram a Terra.

Embora a ligação mais famosa entre as grandes extinções e o impacto de asteróides seja o evento que acabou com os dinossauros há 65 milhões de anos, a própria cratera de Araguainha é contemporânea da extinção do Permiano, a pior de todas -que aconteceu há cerca de 245 milhões de anos e acabou com 75% dos vertebrados terrestres.
 

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