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01/02/2005 - 09h47

Albert Einstein previu "doutrina Bush", diz físico

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SALVADOR NOGUEIRA
da Folha de S.Paulo

Ele criticou o crescente militarismo norte-americano e a política de "guerras preventivas". Temia pela política de Israel em relação a vizinhos árabes. E morreu em 1955. Este é o sempre atual Albert Einstein, realçado por um de seus maiores conhecedores, o físico norte-americano John Stachel.

Em visita ao Brasil para participar de uma conferência em celebração do Ano Internacional da Física --uma homenagem ao centenário dos trabalhos conduzidos por Einstein em 1905, quando concebeu a teoria da relatividade especial e decifrou o efeito fotoelétrico, entre outros feitos--, Stachel conversou com a Folha sobre os rumos da física atual, a relevância histórica de Einstein e as opiniões políticas do cientista alemão. "Ele estava bem adiante de seu tempo", diz o americano.

Inspirado nos anos 1950, antes mesmo de entrar na faculdade, pela atitude do pai da relatividade contra o macarthismo --a "caça" aos comunistas promovida nos EUA--, Stachel se tornou físico relativista e hoje é o principal organizador na publicação dos escritos do alemão. Leia abaixo trechos da entrevista.

Folha - O centenário dos estudos de Albert Einstein de 1905 foi o marco escolhido para celebrar o Ano Internacional da Física. O sr. considera este o marco mais importante na história dessa ciência?
John Stachel - Eu acho que é um ano importante --se é o ano mais importante, o futuro irá decidir. Eu mesmo acho que seria 1915, quando Einstein desenvolveu a relatividade geral. Ele considerava aquele o seu feito mais importante, e eu também acho.

Folha - Por quê?
Stachel - Até 1915, todas as teorias físicas eram baseadas em uma dada estrutura do espaço-tempo preexistente, fixa, o espaço-tempo de fundo. A coisa nova que a relatividade geral fez foi tornar as estruturas do espaço-tempo dinâmicas, mutáveis. Vou usar uma analogia. O teatro é sempre o mesmo, mas você pode encenar uma tragédia, uma comédia, um balé, é tudo a mesma coisa, certo? É assim que as estruturas do espaço-tempo anteriores eram. Mas, na relatividade geral, o palco em si faz parte do drama. É como um palco de plástico que muda conforme os atores se movem. Isso era uma coisa completamente nova. E agora o grande problema da física teórica é unir a relatividade geral com a teoria quântica. A teoria quântica é baseada num espaço-tempo fixo. Então uma delas precisa ceder.

Folha - Einstein nunca esteve à vontade com a teoria quântica...
Stachel - Ele pensava que a mecânica quântica era a melhor coisa que você podia ter, dadas as bases conceituais que a física estava usando até aquela época. Mas ele achava que deveria haver uma teoria mais completa. É o que estamos procurando agora com a teoria da gravidade quântica. Ele não achava que houvesse algo errado com a mecânica quântica, que ela não desse respostas certas ou coisa assim. Ele originalmente tentou mostrar isso, mas logo percebeu que a mecânica quântica era consistente, logicamente coerente. Pensou então que ela não fosse completa, que estivesse imersa numa teoria mais profunda que a explicasse noutras bases.

Folha - Mas ele não aceitava o lado probabilístico da teoria.
Stachel - Você se refere à frase famosa dele, "Deus não joga dados"? Eu não acho que essa tenha sido sua crítica mais profunda da mecânica quântica. Eu acho que ele poderia ter aceitado isso. Era a não-separabilidade, o fato de que dois sistemas, uma vez que interagissem, estariam entrelaçados para sempre, essa era uma coisa que era muito difícil para ele aceitar. Mas, por outro lado, experimentos mostram que essa é uma característica da natureza. Então, nesse ponto eu acho que Einstein terá de ceder ao novo material experimental.

Folha - Além de sua importância na física, Einstein também conseguiu se manter atual em suas visões políticas. Por quê?
Stachel - Ele estava bem adiante de seu tempo. Tome, por exemplo, suas visões do militarismo americano. Desde 1947 ele escrevia sobre a mentalidade militar que os EUA estavam desenvolvendo após a Segunda Guerra Mundial, e ele estava muito preocupado. Ele se opôs aos dois lados na Guerra Fria e adotou um ponto de vista supranacional. Ele viu a forma como a América estava se desenvolvendo após a Segunda Guerra Mundial e a forma como o império alemão havia se desenvolvido, uns 80 anos atrás. E ele viu a Alemanha passar pela Primeira Guerra Mundial, a ascensão do fascismo, sua derrota e a destruição da Alemanha após a Segunda Guerra Mundial. Ele viu os EUA embarcando num caminho similar, contando com a força militar acima de tudo. E ele já havia previsto a possibilidade de "guerras preventivas" em 1947. E muitas coisas com que ele se preocupava nós estamos confrontando agora. As relações de Israel com o mundo árabe. Ele apoiou o desenvolvimento do Estado de Israel, mas disse que a forma como se dará a relação com seus vizinhos árabes será o teste para ver se o novo Estado israelense é mesmo democrático ou não. E vemos essas coisas todas nos confrontando hoje.

Folha - Embora tivesse todas essas opiniões pacifistas, Einstein escreveu uma carta ao presidente dos EUA apoiando o esforço americano para desenvolver a bomba atômica.
Stachel - Não exatamente. Ele escreveu uma carta em 1939 avisando que os alemães podiam estar desenvolvendo a bomba. Ele sugeriu contramedidas, mas ele não estava envolvido no projeto da bomba. A única coisa que ele fez foi alertar para o perigo alemão, que era bem real na época. Porque, até a época de Hitler, a Alemanha era o Estado líder em física. Para a sorte do mundo, Hitler fez tudo que pôde para destruir aquela comunidade, ao perseguir judeus, liberais democráticos etc. Então, muitas dessas pessoas que desenvolveram a bomba migraram da Europa para os EUA fugindo do fascismo.

Folha - E como ele se sentiu após o uso da bomba pelos EUA?
Stachel - Ele ficou muito chateado, claro. Suas primeiras palavras quando ele ouviu a notícia supostamente foram "Oh-oh!" E ele devotou todas as suas energias para promover a criação de uma autoridade supranacional.

Folha - Como as Nações Unidas?
Stachel - Bem, ele apoiou as Nações Unidas, mas gostaria de ver uma autoridade supranacional mais forte. Mais como um governo mundial, em que a soberania fosse vista mais ou menos como é nos diferentes Estados dos EUA.

Folha - Ainda estamos longe...
Stachel - Estamos longe, mas temo que precisemos disso, como já precisávamos naquela época.

Folha - Considerando que os pensamentos de Einstein ainda são tão atuais, isso torna difícil avaliar seu papel na história?
Stachel - Sim, vai levar um longo tempo até que possamos colocá-lo numa perspectiva histórica. Ainda é muito cedo para dizer.

Folha - Falando especificamente de 1905, houve cinco estudos de Einstein, mas a maioria das pessoas só ouve falar de dois ou três. A contribuição dele foi tão grande naquele ano que estudos importantes acabaram ofuscados por outros trabalhos dele mesmo?
Stachel - Com certeza não. Os dois outros estudos, um que fala do tamanho das moléculas, o de viscosidade e dispersão e o do o movimento browniano, esses estudos são mais citados do que os de relatividade e física quântica. Porque são importantes para muitas aplicações práticas.

Folha - Por que ele recebeu o Prêmio Nobel pelo efeito fotoelétrico, e não pela relatividade?
Stachel - Sabemos isso. Foi porque um dos membros do comitê do Prêmio Nobel pensou que entendia física relativística e achou que tinha achado um erro na relatividade geral, o que era bobagem, mas, para dar seu voto para o prêmio, ele teria de ser dado a outro trabalho que não a relatividade.

Folha - Há muita gente que diz ter achado erro na relatividade geral...
Stachel - Se eu ganhasse um dólar por cada pessoa dessas, eu seria um homem rico (risos).

Folha - Por que tanta gente se esforça para derrubar a teoria?
Stachel - Bem, alguns eu acho que fazem por hostilidade a Einstein. Eu um dia topei com uma discussão sobre se sua mulher tinha tido um papel em seus primeiros trabalhos ou não. E alguns vieram para mim, físicos, e disseram, "eu sempre soube que os judeus estavam fazendo muito de Einstein". Então há o anti-semitismo. E há pessoas que não podem aceitar novas idéias, estão empacadas no nível newtoniano e não conseguem fazer um salto conceitual. Então tentam mostrar que Einstein cometeu um erro.

Folha - Por que o sr. acha que Einstein tem tanta popularidade, além das fronteiras da ciência?
Stachel - Bem, algo em sua personalidade capturava a imaginação das pessoas. Elas diziam que ele se parecia mais com um músico do que com o estereótipo de um cientista. Ele tinha um jeito divertido quando dava entrevistas, ele sempre tinha coisas inteligentes para dizer. Bem, por que Buda, por que Jesus, por que Lao-Tsé se tornaram figuras míticas tão grandes? É difícil dizer. Acho que é uma coisa interessante para os psicólogos sociais estudarem. Conhecemos as figuras míticas do passado apenas pelas lendas e é difícil separar a verdade da lenda. No caso de Einstein, o mito está crescendo em nosso próprio tempo, então é interessante que os psicólogos sociais estudem como uma imagem mítica se forma.

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