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15/02/2005 - 10h30

Batata alterada protege contra hepatite

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MARCELO LEITE
da Folha de S.Paulo

Esqueça as bananas que imunizam. Charles Arntzen, o americano cuja idéia de usar alimentos baratos para vacinar pobres do Terceiro Mundo colheu carradas de manchetes pró-transgênicos em 1998, agora só trabalha com tomates e batatas. E conseguiu, com o tubérculo, incentivar a produção de anticorpos contra o vírus da hepatite B em pessoas.

O novo trabalho está na revista da Academia Nacional de Ciências dos EUA, a "PNAS" (www.pnas.org). Arntzen e seus colaboradores do Instituto de Pesquisa Vegetal Boyce Thompson e do Instituto de Câncer Roswell Park introduziram seqüências de DNA numa variedade de batata para que o vegetal começasse a produzir pedaços de substâncias da capa do vírus da hepatite B (HBV). Deram então porções de 100 g de batata crua para 33 voluntários, e 19 deles passaram a produzir mais anticorpos contra o vírus.

Em 1998, Arntzen e outros pesquisadores já haviam obtido resultados similares com batatas capazes de induzir reação imunológica contra um tipo de diarréia causada pela bactéria Escherichia coli e contra o cólera. Agora ele mostrou que pode atacar um vírus carregado por 400 milhões de pessoas no mundo, muitas das quais nem chegam a desenvolver os sintomas da hepatite B. Estima-se que ela mate 1 milhão de pessoas por ano, apesar da existência de uma vacina.

Tumor colateral

O problema é que as pessoas infectadas continuam a espalhar o vírus por aí. E parte dos que sofrem a hepatite B podem desenvolver mais tarde tumores malignos de fígado (hepatocarcinomas). No Brasil, há cerca de 6.000 novos casos de hepatite B diagnosticados por ano.

De 1998 para cá, Arntzen se mudou para a Universidade Estadual do Arizona. Abandonou as bananas como paradigma dos transgênicos do bem, porque a planta leva muito tempo para passar da engenharia genética à produção de frutos. As batatas cruas também têm seus dias contados. Daqui para a frente, o americano só vai empregar batata liofilizada (desidratada a frio). Um progresso e tanto para os voluntários de seus experimentos.

É apenas de experimentos que se trata, note bem. Em 1998, Arntzen já alertava que demoraria pelo menos mais dez anos até chegar a produtos acabados. Passaram-se seis, e no caso da hepatite B ele ainda está na fase 1 dos testes clínicos, como o que acaba de ser anunciado na "PNAS". São ensaios feitos com pequeno número de pessoas e só para testar a segurança do remédio ou vacina.

A racionalidade por trás das experiências de Arntzen é facilitar a logística da vacinação em países pobres. Tomates e batatas vacinantes poderiam ser cultivados na própria região. E dispensariam refrigeração e injeções.

Arntzen queria demonstrar que a batata era capaz de despertar a reação específica do sistema imune dos voluntários contra o vírus. Conseguiu: "Concluímos que uma vacina derivada de planta e administrada oralmente para a prevenção contra o vírus da hepatite B deve ser considerada como componente viável de um programa de imunização global", escreveram ele e seus colegas.

Imunização prévia

Nesse estudo, o grupo empregou somente voluntários que já tinham sido vacinados contra o HBV, ou seja, que já produziam normalmente anticorpos contra o vírus. Os resultados não trazem informação quanto à capacidade de o vegetal imunizar de fato as pessoas que nunca foram vacinadas. Nem sobre a porção necessária de batata para obter proteção.

"Realmente não saberemos [isso], até que seja testado", afirmou Arntzen por e-mail. "Mas não trabalharemos mais com batatas cruas. Todo o trabalho futuro será com doses uniformes de material vegetal desidratado a frio, de modo que possamos medir com acuidade a dose de vacina ministrada e armazenar facilmente as amostras por longos períodos."

Segurança

Por fim, como todo artigo estritamente científico, o de Arntzen e companhia silencia sobre a questão da biossegurança: por serem alimentos de larga utilização, não haveria risco de esses transgenes vacinantes invadirem a cadeia alimentar humana?

"É um risco para a percepção, e a percepção é importante. Assim, estamos desenvolvendo sistemas nos quais toda a produção possa ser feita em estufas com biocontenção e sistemas para plantas com "machos estéreis", que não produzem pólen e só se propagam vegetativamente."

Especial
  • Leia o que já foi publicado sobre a hepatite
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