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10/03/2005 - 10h00

"Memória" da água é curta, afirma estudo

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SALVADOR NOGUEIRA
da Folha de S.Paulo

Uma boa e uma má notícia para os entusiastas da homeopatia. Cientistas acabam de demonstrar que a água de fato tem memória --a capacidade de armazenar de algum modo propriedades de substâncias que já estiveram diluídas nela, mas não estão mais lá. Os pesquisadores também constataram que a "lembrança" dura no máximo 50 femtosegundos.

Um femtosegundo é o equivalente a um bilionésimo de milionésimo de segundo (em miúdos, um intervalo de tempo ridículo). "Depois de uns 30 a 50 femtosegundos, a água perde a sua memória", diz R.J. Dwayne Miller, da Universidade de Toronto, no Canadá, autor principal do estudo que sai hoje na revista científica "Nature".

A idéia da memória da água tem sido proposta como explicação para o funcionamento da homeopatia, terapia na qual uma substância ativa é diluída em água a ponto de não restar mais nada dela no remédio final.
Essa "memória" foi aventada pelo imunologista francês Jacques Benveniste. Ele fez a proposição num artigo na mesma "Nature" em 1988, mas nunca foi levado a sério --seus resultados laboratoriais nunca foram reproduzidos, o que colocou a hipótese numa posição muito suspeita. A nova pesquisa de Miller, em cooperação com cientistas do Instituto Max Born, na Alemanha, joga ainda mais água fria na idéia.

"Nós não estudamos homeopatia, então não posso comentar especificamente sobre sua validade", esquiva-se Miller, "mas sobre a sua proposta de funcionamento, ou seja, que a água retenha de algum modo "memória" de substâncias com que tenha tido contato, isso claramente está errado."

As moléculas de água são compostas por dois átomos de hidrogênio e um de oxigênio, no formato aproximado de um "V" (o oxigênio fica no vértice, e os hidrogênios nas pontas). Essa forma faz com que ela seja uma molécula com polaridade (o lado de cima do "V" é positivo, por conta da carga elétrica do hidrogênio, e o lado de baixo é negativo, pelo oxigênio). É essa polaridade que faz com que a água interaja tão bem com outras substâncias, quebrando-as (diluindo-as), como ocorre com o sal de cozinha.

Um copo d'água tem uma infinidade de moléculas. "Nós sabemos como se comporta uma delas, duas ou três, mas não sabemos o que acontece quando há uma infinidade delas", diz Miller. Daí a idéia de que talvez ela pudesse "guardar", em sua distribuição dentro do copo, uma "memória" de como foi ter "vivido" com moléculas de outras substâncias.

O teste foi feito estimulando as moléculas de água com partículas de luz e observando a "resposta" que ela dava (enviando algumas dessas partículas de volta). Segundo Miller, levou uns três anos só para bolar um esquema experimental que conseguisse obter esses resultados. Mas deu certo. Uma vez colocadas numa posição específica pela luz, as moléculas retêm a memória dessa alteração. "Toda a estrutura, no entanto, é perdida em 30 a 50 femtosegundos", diz o pesquisador.

O objetivo dos cientistas com o estudo não foi atacar a homeopatia. Eles buscam entender como a água funciona. Suas propriedades são extremamente importantes, especialmente no contexto biológico --ela é essencial para o surgimento da vida. "Queremos ver se com isso criamos modelos melhores da água e conseguimos entender o que ela tem de tão especial", diz Miller.

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