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27/09/2006 - 11h09

Teoria de cordas sairá logo da "lona", diz Nobel de Física

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RAFAEL GARCIA
da Folha de S.Paulo, em Águas de Lindóia

A controversa teoria de cordas, que tenta explicar os componentes fundamentais de tudo o que existe no Universo, mas que até agora não foi comprovada experimentalmente, está para sair do papel. Quem diz é David Gross, Prêmio Nobel de Física de 2004. Ele é um dos cientistas que adotam essa abordagem para resolver o grande enigma da física atual: encontrar uma teoria que englobe tanto o mundo microscópico explicado pela física quântica quanto o Universo descrito pela relatividade de Einstein.

Divulgação
David Gross, Nobel de Física 2004
David Gross, Nobel de Física 2004
Para Gross, as cordas não são mais um "castelo de cartas" de especulações, como adversários costumavam defini-la. A teoria já pode produzir hipóteses passíveis de teste em experimentos ou observações, algo que qualquer teoria que se preze precisa fazer cedo ou tarde.

A ajuda às cordas, segundo Gross, cairá literalmente do céu, na forma de observações do Cosmo. Elas poderiam detectar as chamadas cordas cósmicas, "fósseis" da origem do Universo previstos matematicamente pela teoria.

Em entrevista à Folha em Águas de Lindóia, onde participa do 27º Encontro Nacional de Física de Partículas, ele resume o que espera da ciência nos próximos anos.

Folha - A física está ficando cada vez mais especulativa e carente de evidências experimentais. Essa ciência vai entrar numa idade de trevas?

David Gross - Acredito que não, mas não sei a resposta. Os tipos de experimento que fazemos hoje eram inimagináveis 30 anos atrás, mas houve desenvolvimentos formidáveis em tecnologia, com novas idéias e novos métodos para experimentadores. Ninguém achava que teríamos o poder de computação que temos hoje, por exemplo. Sem ele, nenhum desses experimentos poderia ser realizado, assim como boa parte da ciência moderna. É muito difícil prever a tecnologia. Na verdade, é mais difícil do que prever avanços em física fundamental.

Folha - Alguns físicos têm manifestado impaciência com a demora da teoria de cordas em fazer previsões "testáveis". Como o sr. acha que ela poderá trazer uma revolução?

Gross - Bom, apareceram mesmo alguns livros que não são particularmente bons para nós. Mas, na verdade, o ceticismo e a oposição às cordas era muito maior 20 anos atrás. E é preciso mesmo ter ceticismo com qualquer tipo de especulação. Porém, não é totalmente verdade que a teoria de cordas não faça previsões que possam ser testadas. O que tentamos explicar é que ela ainda não é uma teoria completa, e não a entendemos muito bem para fazer o tipo de previsão que tem papel mais importante em ciência: aquela que você faz e, se ela não se demonstrar, significa que a teoria está incorreta e a única saída é mudar suas premissas ou jogar sua teoria fora. Por outro lado, a teoria de cordas rendeu vários fenômenos e cenários que levaram a observações e experimentos que podem ser feitos --e estão sendo. Há novos efeitos que podem ser descobertos e podem ser muito sugestivos para a teoria, mas eles não são previsões quantitativas.

Folha - Quais são essas previsões?

Gross - Um exemplo é o de dimensões extras do espaço, que prevêem fenômenos espetaculares. Pode ser que nunca sejam vistos, mas vale a pena procurar por eles. Outro cenário previsto por teóricos de cordas são as cordas cósmicas [leia o glossário abaixo].

Folha - Como se pode detectá-las?

Gross - Há dois modos. Um deles se baseia no fato de que elas são muito finas, mas muito maciças: quando a luz passa perto delas ela é defletida, como no fenômeno de lente gravitacional previsto por Einstein. A outra forma seria por meio de radiação gravitacional. As cordas se movem livremente e, quando elas se movimentam para um lado e para o outro, podem produzir estalos como um chicote, mas que geram ondas gravitacionais em vez de som. Mas pode ser que não existam muitas cordas cósmicas, por isso não podemos dizer que elas têm necessariamente de ser detectadas.

Folha - Na Wikipédia, o sr. é definido como físico "e" teórico de cordas. As pessoas já não acreditam que uma categoria engloba a outra?

Gross - Isso é uma bobagem. A primeira parte da minha carreira eu passei fazendo física de partículas e física nuclear. Depois, como muitos outros, comecei a trabalhar em cordas. É tudo a mesma coisa.

Folha - O sr. tem se mostrado muito entusiasmado com a possibilidade de o LHC, o novo acelerador de partículas europeu que será inaugurado no ano que vem, detectar a supersimetria, um dos componentes atuais da teoria das cordas. Isso seria uma prova?

Gross - A detecção da supersimetria seria uma excelente notícia para a teoria das cordas, porque ela foi descoberta dentro da teoria de cordas. Mas, também nesse caso, não conhecemos muito bem a teoria a ponto de saber se a supersimetria tem de ser detectada nos níveis de energia alcançados pelo LHC. Encontrá-la certamente nos daria novas pistas.

Folha - Há algo mais que o LHC possa fazer pelas cordas?

Gross - Há muitas possibilidades especulativas. As cordas deixariam efeitos drásticos no LHC, como a produção de pequenos buracos negros. Pode ser que se produzam excitações "cordais" observáveis, e aí de fato começaríamos a ver as cordas. Mas, de novo, como a teoria não tem poder de dizer que isso precisa necessariamente ocorrer nesse nível de energia, há toda uma gama de parâmetros e possibilidades. Acredito que a chance de acharmos a supersimetria é muito boa, maior do que 50%. Já a chance de achar esses buracos negros ou estados "cordais" talvez seja de um em milhão, mas não significa que não devemos procurar.

Folha - Teorias novas envolvem matemática cada vez mais sofisticada. O sr. acredita que a resposta final sobre o que são matéria, energia, tempo e espaço será mais fácil de entender no futuro?

Gross - As pessoas não entendem as teorias hoje porque nós, físicos, não as explicamos bem. E não o fazemos bem porque é tudo muito novo. Hoje nós entendemos a mecânica clássica muito melhor do que Newton. Ele tinha acabado de inventar aquilo, afinal. E nós entendemos hoje a relatividade geral de maneira muito mais fácil do que Einstein. Em teoria de cordas a matemática é mesmo muito difícil. Eu tive de aprendê-la muito tarde, mas meus colegas mais jovens já a consideram mais fácil. Daqui a cem anos, se ela estiver no ensino médio, também vai parecer fácil. Se as novas idéias sobrevivem, elas se tornam mais fáceis de entender para as gerações futuras.

Confira o glossário:

Teoria de cordas
Teoria que tenta unir a relatividade geral (que explica a gravidade) com a mecânica quântica (que explica forças nucleares e o eletromagnetismo); nela, entidades fundamentais não são partículas, mas "fios" num espaço de muitas dimensões.

Acelerador de partículas
Máquina que move partículas a grandes velocidades e depois as faz colidir, a fim de estudá-las.

Supersimetria
Hipótese de que cada tipo de partícula conhecida teria uma "irmã", com apenas uma propriedade quântica diferente.

Cordas cósmicas
São uma espécie de "dobra" no espaço; apareceriam como fios maciços esticados entre galáxias.

Leia mais no site www.superstringtheory.com.

O repórter ficou hospedado em Águas de Lindóia a convite do Instituto de Física Teórica da Unesp

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