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13/02/2007 - 11h13

Grupo descobre "Idade da Pedra" dos chimpanzés

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CLAUDIO ANGELO
Editor de Ciência da Folha de S.Paulo

Um grupo internacional de pesquisadores descobriu em uma floresta da Costa do Marfim um conjunto de ferramentas rudimentares de pedra com 4.300 anos de idade. Até aí, nada de excepcional. A novidade é que os fabricantes dos instrumentos não foram caçadores-coletores humanos, mas, sim, um bando de chimpanzés.

O achado, publicado hoje na revista "PNAS", muda o sentido da expressão "Idade da Pedra" e faz os olhos dos interessados nas origens do homem se voltarem às florestas tropicais do oeste africano, até então preteridas em favor das savanas.

Embora ferramentas de pedra antigas usadas por esses macacos para quebrar frutos secos já fossem conhecidas, esta é a primeira vez que se descobrem sítios arqueológicos com vestígios milenares de uma "cultura" símia. O que traz à tona uma questão com a qual os antropólogos têm se debatido: o que é mesmo "cultura"?

A definição tem sido cada vez mais bagunçada pelos estudos de comportamento animal.

Considerada num passado não muito distante uma característica humana por excelência, a transmissão cultural --que inclui o uso de ferramentas para modificar intencionalmente o ambiente-- já está bem comprovada em grandes macacos como chimpanzés.

Há bons indícios de que ela aconteça entre golfinhos e até entre os modestos macacos-pregos, separados da linhagem humana por 30 milhões de anos de evolução. Há quem diga que até aves, como os corvos, a possuam em algum grau.

O novo estudo, liderado pelo espanhol Júlio Mercader, da Universidade de Calgary (Canadá), leva essas evidências ao extremo. Afinal, ele mostra que não só os chimpanzés são capazes de transmitir conhecimento tecnológico dentro da sociedade como também de manter esse conhecimento.

As ferramentas toscas desenterradas por Mercader e seus colegas no Parque Nacional Taï são muito semelhantes às que os chimpanzés que habitam a área utilizam hoje em dia.

"A Idade da Pedra dos chimpanzés começou há milhares de anos. Portanto, a transmissão de tecnologia persistiu ao longo de muitas gerações", disse o pesquisador à Folha.

Tecnologia de ponta

Os antigos instrumentos líticos dos macacos consistem praticamente em "martelos" usados para quebrar cinco tipos de castanha existentes na floresta. Os bichos gostam tanto dos frutos que dedicam uma média de sete anos de "estudo" para aprender a rachar os coquinhos sem destruir a noz, usando pedras de até nove quilos.

O tamanho e o peso dos artefatos, aliás, foram duas das pistas que os pesquisadores seguiram para estabelecer que os artefatos eram mesmo coisa de macaco. Os chimpanzés, apesar da baixa estatura, são muito mais fortes que os humanos. Ferramentas humanas típicas da Idade da Pedra costumam ter no máximo meio quilo.

A outra maneira de determinar a autoria das peças foi a análise de microscópicos grãos de amido ainda grudados nas pedras. Eles pertencem exatamente às cinco espécies de castanha que integram o cardápio atual dos macacos de Taï.

Os sítios arqueológicos descobertos por Mercader e colegas dos EUA, do Reino Unido e da Alemanha precedem a invenção da agricultura por humanos naquela região. "Não havia agricultores vivendo ali há 4.300 anos, portanto é improvável que os chimpanzés tenham aprendido [o hábito] por imitação de humanos, como alguns cientistas costumavam alegar", afirma Mercader.

Para o espanhol, o achado sugere que a técnica da percussão de pedras para quebrar castanhas já era adotada pelo último ancestral comum entre humanos e chimpanzés, há cerca de 7 milhões de anos.

Arqueologia de mico

O etólogo Eduardo Ottoni, da USP, especialista em cultura de macacos-pregos, está se unindo a arqueólogos para tentar estabelecer sítios antigos também para esses animais.

Ele diz que o estudo na "PNAS" é interessante, mas que não altera a hipótese original para a origem dessas ferramentas --a do ancestral comum. "Mais ou menos 4.000 anos não muda muito em relação a 7 milhões."

Especial
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