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15/09/2003 - 07h37

Dieta adotada por Lula faz mal à saúde, afirma médica

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ELIANE CANTANHÊDE
diretora da Sucursal da Folha em Brasília

A presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabolismo, Valéria Guimarães, critica duramente a dieta para emagrecer que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva adotou e vem divulgando para os brasileiros em entrevistas a televisões, revistas e jornais. Segundo ela, a dieta faz mal à saúde e causa "efeito sanfona" (emagrece-engorda), além de ser importada e não ter respaldo da comunidade científica.

"O que nos preocupa é a responsabilidade social do presidente", afirma ela, que já enviou carta de alerta a Lula e a sua mulher, Marisa. Dura com o criador, dr. Robert Atkins, e com a criatura, a dieta, a médica diz que Atkins, que morreu aos 72 anos em abril passado, é "um marqueteiro" e que o regime dele sobrecarrega o coração e deixa a pessoa zonza, porque é baseado em proteínas (carnes e gorduras) e restringe carboidratos (como massas e tubérculos).

Os ministros Antonio Palocci Filho (Fazenda), José Dirceu (Casa Civil) e Dilma Roussef (Minas e Energia) aderiram à dieta, mas o que mais preocupa Guimarães é que a prática já começa a se estender do governo à população.

A maioria das pessoas que não tem informação suficiente segue "o exemplo que vem de cima" e que se multiplica pela imprensa. Segundo Valéria Guimarães, "até crianças estão fazendo a dieta do presidente, o que é um absurdo".

A melhor dieta para o brasileiro, segundo a endocrinologista, é a velha e boa combinação de arroz, feijão, carne, leite, frutas e legumes, "só que em pouca quantidade". "Não precisa importar fórmulas mágicas que não são aprovadas pela comunidade científica internacional. Fica mais barato e mais saudável fazer a dieta e a propaganda da nossa própria alimentação", disse ela à Folha.

Apesar da indignação com o presidente, Valéria Guimarães diz que a entidade que dirige, a SBEM, já fez um projeto piloto em Pernambuco (Estado natal de Lula) e está para entregar uma proposta de prevenção da obesidade semelhante à campanha muito bem-sucedida de combate ao fumo. A idéia é ensinar desde cedo as crianças a valorizar o básico.

"A melhor comida para os brasileiros é a comida brasileira, respeitadas suas características regionais", disse a médica.

Mineira, 39 anos, três filhos, Guimarães tem 1,69 m e 61 kg.

A seguir, trechos da entrevista:

Folha - O que há de errado com a "dieta da proteína" que o presidente Lula faz?

Valéria Guimarães
- É uma dieta baseada em excluir carboidratos e aumentar a ingestão de proteína, aliada a uma grande quantidade de gordura saturada. É uma dieta desbalanceada, não tem equilíbrio. Um grande problema é a restrição aos carboidratos, fonte importante de energia do organismo. Seu cérebro não come proteína, nem frutinha nem verdurinha; come carboidrato. O segundo problema é a grande dose de proteína. Para muitos grupos de pacientes -como, por exemplo, diabéticos ou com problemas renais e não sabem, com problemas cardiovasculares e não sabem, com disfunção de metabolismo a exemplo da gota e não sabem-, essa é uma dieta que pode gerar efeitos graves. E, enfim, o problema da gordura saturada é que aumenta o grau de gordura no sangue e há vários estudos mostrando que isso leva ao aumento de placas e, consequentemente, de enfarte e de doenças cardiovasculares.

Folha - Mas essa dieta não é uma novidade, nem mesmo é uma invenção brasileira. Milhões de pessoas no mundo não aderiram a ela?

Guimarães
- É verdade. É uma dieta muito popular que vem sendo divulgada desde 1973, e a comunidade médica reconhece que há, de fato, uma queda aguda de peso. Uma revista de grande impacto no meio científico, a "New England Journal of Medicine", publicou artigo reconhecendo a perda de peso, mas, depois, uma série de artigos recriminando o método e mostrando que, depois do emagrecimento, vem o rebote. Sabemos que isso acontece. Há um rebote quando ela é feita cronicamente, com um ganho de peso novamente e o indivíduo entrando no famoso efeito sanfona, do engorda-emagrece-engorda. Cria um ambiente no corpo chamado de "cetose", que significa que, sem carboidrato para ser consumido, a gordura sai da célula e cria um cheiro, um hálito cetótico. E, sem carboidrato, a pessoa fica fraca, meio tonta. Um efeito de longo prazo que não é nada saudável.

Folha - Mas é fácil de fazer?

Guimarães
- É uma dieta extremamente monótona. A pessoa não consegue ficar comendo ovo, bacon e presunto o tempo inteiro. Em algum momento, ela vai furar. E, nesse momento, ela vai ter o rebote e engordar de novo.

Folha - Então, por que o sucesso dessa dieta?

Guimarães
- O autor dela, doutor Roberto Atkins, tem uma trajetória muito interessante. Ele nunca conseguiu se estabelecer no mundo científico, nunca conseguiu provar que a dieta dele realmente consegue provocar efeitos positivos a longo prazo. Isso é exatamente o que a comunidade espera, não consegue, e quem encontrar vai ganhar o Prêmio Nobel. É um programa alimentar ou um medicamento que consiga sustentar o peso baixo para sempre. E ele nunca enfrentou a comunidade científica porque sabe que há o efeito rebote na dieta dele. Preferiu, em vez de lançar estudos, lançar seus trabalhos para leigos. Com argumentação e muita propaganda, ele de fato consegue encantar muita gente e vender os livros dele.

Folha - É assim tão simples?

Guimarães
- Ele é um homem inteligente e visou gente que forma opinião, ficou amigo de estrelas de cinema, astros de Hollywood. Agora, viaja pelo mundo, tem kits e livros e toda uma parafernália em torno do nome dele. Se você procurar na internet, vai achar centenas de referências e sites com estrelinhas piscando. É assim que ele faz.

Folha - Ou seja, ele é um marqueteiro?

Guimarães
-É isso. Ele é um marqueteiro.

Folha - Então, o presidente da República do Brasil é vítima de um marqueteiro internacional?

Guimarães
- Acho que o nosso presidente da República ainda não entendeu que não são os genes dele que são sanfona, como ele disse no "Fantástico" [programa da Rede Globo], mas sim essa dieta do espicha-encolhe.

Folha - Como a senhora soube que ele fazia essa dieta?

Guimarães
- Pela mídia. Na verdade, havia uma grande curiosidade para saber o que ele andava fazendo para emagrecer, já que ele mesmo havia dito que queria mudar o estilo de vida. A SBEM havia até aplaudido esse exemplo dele: um homem com mais de 50 anos, um enorme carisma, o maior cargo da República, declarando que queria viver melhor, buscava maior qualidade de vida, começou a fazer exercício, jogar futebol. O que a gente não contava é que ele não fosse seguir a própria recomendação do Ministério da Saúde e da nossa entidade, que é fazer um programa de reeducação alimentar, comendo de tudo um pouco, de forma equilibrada. Infelizmente, soubemos que ele estava fazendo essa dieta da proteína, que nem a comunidade científica brasileira nem a internacional respaldam.

Folha - A sra. tentou fazer algum tipo de alerta para o presidente?

Guimarães
- Nós, da SBEM, mandamos uma carta para o presidente e para a primeira-dama, Marisa, alertando para os riscos dessa dieta, informando que o problema não era dos genes dele. Nós mandamos por e-mail para o Palácio do Planalto e recebemos a resposta prontamente, assinada pelo chefe do gabinete pessoal do presidente, Gilberto Carvalho. Ele dizia que o presidente agradecia a preocupação com a saúde dele e os esclarecimentos, mas nada aconteceu. Ao contrário. Depois da carta, lemos nas revistas que ele [Lula] já estava formando opinião no próprio governo. Os ministros já estavam seguindo o exemplo, como José Dirceu, Palocci e Dilma Roussef.

Folha - A sra. tem certeza de que o presidente realmente recebeu a carta, de que a resposta do assessor não foi apenas o cumprimento de uma burocracia palaciana?

Guimarães
- Nós temos certeza, sim, porque um amigo também entregou nas mãos do presidente e da dona Marisa. O que nos preocupa é a responsabilidade social do presidente, é a importância da figura dele como formador de opinião. Quando ele faz, muita gente segue. Ele está formando a opinião da população e de gente do próprio governo. Então, a gente está muito preocupado. Há 53 anos que a SBEM bate na tecla de que as pessoas não devem acreditar em dietas milagrosas, em fórmulas mirabolantes e não reconhecidas para emagrecer. Nada dessas invencionices, da dieta da proteína, da dieta do abacaxi, da dieta da fruta é saudável. A melhor coisa é a prevenção com uma dieta equilibrada, e a dieta equilibrada é balanceada com todos os nutrientes. Todos os ministérios da Saúde do mundo, inclusive o do Brasil, seguem essa orientação.

Folha - A sra. falou nos riscos para grupos de pacientes, como os que têm problemas cardiovasculares e não sabem. Quais são esses riscos?

Guimarães
- Naqueles indivíduos que já têm alguma placa bacteriana, mas ainda não sabem, a dieta da proteína pode aumentar o risco de enfarte. A sobrecarga da dieta pode ser a gota d'água, pode ajudar o sujeito a enfartar. É claro que num indivíduo jovem, que não tem placa, não tem problema de saúde, o efeito agudo dessa dieta não vai fazer grandes diferenças, mas um efeito crônico pode favorecer o desenvolvimento de placas não só no sistema coronariano, mas em todo o sistema cardiovascular, inclusive o cerebral.

Folha - E o efeito nos indicadores, como colesterol e triglicerídeos?

Guimarães
- Exatamente. Há um aumento da gordura saturada, um aumento do colesterol ruim e uma diminuição do bom. Isso é o inverso do que o consenso prega.

Folha - O seu temor é que a população adote a dieta para imitar o Lula?

Guimarães
- Já estamos recebendo exemplos aqui mesmo, até de diabético fazendo essa dieta, o que é um grande risco, porque eles têm grande propensão a problemas renais e não podem ter sobrecarga protéica. Têm chegado casos até de crianças. Aliás, até de jornalistas. A idéia é essa: "Já que o presidente faz, vamos fazer também".

Folha - Qual seria uma boa dieta equilibrada para quem quer emagrecer?

Guimarães
- A alimentação tradicional do brasileiro é muito boa e nós devemos voltar a ela: arroz, feijão, um pedaço de carne e verdes. É um pratinho muito bem equilibrado na nossa mesa. É uma dieta nossa e muito boa, quando em quantidades e proporções ideais. Além disso, leite, ovos, massas, farinhas, tubérculos e frutas. O brasileiro não precisa importar dietas. Virou moda comer comida japonesa, fast food, essas coisas. Daqui a pouco, o brasileiro não come mais arroz e feijão, e a obesidade infantil no Brasil tem crescido a passos preocupantes.

Folha - E no caso do Lula, um homem com mais de 50 anos, comilão, que só agora faz exercícios regulares, que café da manhã, almoço e jantar a sra. sugeriria para ele?

Guimarães
- Eu não me atreveria a fazer uma prescrição para o Lula. Não conheço seus exames, seu metabolismo, se ele tem ou não alguma disfunção hormonal. Eu aplaudo nosso presidente por já estar fazendo exercícios diários e por estar preocupado com sua saúde. Entretanto, como endocrinologista, é nosso dever alertar que ele deve optar por uma dieta mais saudável do que essa. A SBEM tem recebido constantes e-mails e mensagens de endocrinologistas preocupados com a repercussão dessa dieta sobre a saúde do presidente e sobre a dos brasileiros que estão seguindo o exemplo.
 

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