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12/03/2001 - 10h41

Cinema dos anos 90 deixa legado de dúvidas

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CRISTIAN KLEIN
da Folha de S.Paulo, no Rio

Enfim o cinema brasileiro dos anos 90 ganhará uma retrospectiva. O Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio, exibirá a partir da próxima sexta 54 longas-metragens produzidos no período. De "São Jerônimo", do sempre radical Julio Bressane, ao comercial "Xuxa Requebra", é um apanhado eclético. Sem preconceito.

"Ninguém faz retrospectiva de filme ruim. Mas fugimos de uma mostra que tivesse a pretensão de apontar os melhores da década. O objetivo é refletir sobre a proposta que está por trás desses filmes", afirma João Luiz Vieira, um dos três curadores de "Cinema Brasileiro: Anos 90, 9 Questões".

Sintoma desse viés da curadoria, o filme "Cinderela Baiana" é considerado um dos grandes desfalques da mostra. Estrelado pela rebolativa Carla Perez, foi fiasco de crítica e bilheteria e hoje sua exibição está proibida por causa de uma pendenga judicial.

"Em sã consciência, é claro que ele não estaria numa retrospectiva tradicional. Mas muita gente defende que o cinema deve se aproveitar da TV assim como a chanchada se aproveitou do rádio. "Cinderela Baiana" é um exemplo que não deu certo. Por outro lado, "O Auto da Compadecida", também vinculado à TV, foi um dos grandes sucessos da década", diz Vieira, professor da Universidade Federal Fluminense.

Essa discussão vai estar no centro do debate "O Cinema Popular Acabou?". Ele é um dos nove temas do seminário da retrospectiva, que inclui debates como "Hollywood, TV, Publicidade: Referência ou Interferência?", sobre a influência de outras mídias.

O seminário contará com críticos e teóricos como Ismail Xavier, José Carlos Avellar e Inácio Araujo, crítico da Folha. No seminário não haverá discussões sobre leis de incentivo, captação, produção, distribuição e exibição, temas já exaustivamente debatidos.

Para o crítico José Carlos Avellar, ex-presidente da distribuidora Riofilme, o economês predominou na avaliação dos filmes. "Nos anos 50 e 60, a bilheteria de um filme era importante, mas não dava o tom da discussão", diz.

Avellar aponta como o dado mais significativo dos anos 90 a explosão de uma nova geração de cineastas, como Tata Amaral, Beto Brant, José Araújo, Paulo Caldas, Lírio Ferreira e Andrucha Waddington, surgida após o fim da Embrafilme e o colapso do cinema brasileiro, no início dos 90.

"Desde o cinema novo, nos anos 60, não tínhamos essa renovação. Isso é a prova de que existe uma cultura cinematográfica que se solidificou nos anos 70 e 80. Essa geração, mesmo quando a produção nacional de longas quase chegou à estaca zero, estava fazendo clipes, comerciais, documentários", diz Avellar.

O crítico tem uma tese de que a geração cinemanovista está para a geração dos anos 90 como a fala está para a escrita. "O impulso, a improvisação, a invenção da linguagem são características dos anos 60. É a fala. Hoje, a nova geração burila essa linguagem já inventada, como uma escrita."

Avellar destaca o refino da escrita cinematográfica de filmes como "A Ostra e o Vento", de Walter Lima Jr., que veio do cinema novo, mas produz em sintonia com a nova geração.

Para Eduardo Valente, um dos curadores da retrospectiva, após a retomada da produção em 1995, marcada emblematicamente pelo filme "Carlota Joaquina", o cinema nacional ficou viciado no mecanismo que propiciou o seu renascimento: a Lei do Audiovisual.

"Embora a lei tenha permitido que empresas passassem a investir em cinema por meio de renúncia fiscal, os departamentos de marketing dessas companhias começaram a ditar o perfil dos filmes produzidos", afirma Valente.

"Essa influência daninha acabou gerando uma série de filmes históricos e adaptações literárias. São projetos mais fáceis de um diretor de marketing aprovar", diz.

O curador Ruy Gardnier, porém, ressalta que mesmo filmes históricos têm facetas múltiplas, tema do debate "Que História é Essa?". "Nos anos 90, temos filmes que abordam fatos de forma institucional, como "Guerra de Canudos", irônica, como "Carlota Joaquina", ou existencial, como "Alma Corsária", incorporando história pessoal à nacional", diz.
 

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