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25/05/2001 - 04h46

Plágio? "Águas de Março" teria sido inspirada em folclore

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LÚCIO RIBEIRO
PEDRO ALEXANDRE SANCHES

da Folha de S.Paulo

A eleição de "Águas de Março" (1972) como melhor canção da música popular brasileira em enquete concluída pela Folha há uma semana desperta protestos no coro de descontentes. Segundo pesquisadores que atuam na linha mais combativa da análise de música popular, a canção de Tom Jobim (1927-94) não poderia sair vencedora porque não seria obra original, e sim motivo "roubado" de uma canção folclórica anterior.

A fonte de "inspiração" de Tom estaria num disco obscuro de 1956, selo Copacabana, número 11.056, chamado "Cinco Estrelas Apresentam Inara".
Musicista, compositora e pesquisadora, Inara recolheu do folclore "Água do Céu", que na faixa 5 do lado B do LP é interpretada pela hoje obscurecida Leny Eversong (1920-84).

Letra e melodia se assemelham às de "Águas de Março", nos versos religiosos que cantam "é chuva de Deus, é chuva abençoada/ é água divina, é alma lavada".

Segundo o pesquisador José Ramos Tinhorão, notório opositor da bossa nova desde sua eclosão, essa versão já era adaptação de um ponto de macumba recolhido em 1933 por J.B. de Carvalho, que diz "é pau, é pedra, é seixo miúdo/ roda baiana por cima de tudo".

Embora admirador de Jobim, o crítico musical Luís Antônio Giron vai na mesma linha: ""Águas de Março" não merece estar como a maior porque é macaqueada do folclore. Não é só inspirada, ela é calcada mesmo. Villa-Lobos se apropriava de temas folclóricos, mas citava a fonte. Tom não citou a fonte. Assinou e pronto. Não foi uma iluminação da natureza, do compositor que estava com os bichinhos, aí veio a anta...".

Giron critica a elite cultural que colocou a canção de Tom no trono na enquete feita entre 214 pessoas, entre personalidades culturais, musicais e jornalistas.

"A elite cultural brasileira não está preparada para emitir muitas opiniões de cátedra. Precisa se informar mais, as fontes estão aí. Nossa falta de educação endêmica cria uma elite que se acha todo-poderosa, mas não tem preparo algum. Reinventam a roda, acham que ela surgiu ontem", diz.

Tinhorão vocifera: "Vocês promovem essas enquetes entre pessoas da classe média, que funcionam em circuito fechado e pensam que estão na TV aberta. Acho isso safado. Digam então que é o gosto dessa classe, que é dentro desses critérios. Não venham com essa chantagem. "Águas de Março" é folclore. Fico sempre como vilão, mas eu tenho as provas".

Outro ícone da bossa entra na polêmica. Em 1999, o pianista João Donato afirmou em entrevista a Giron, na "Gazeta Mercantil", que Jobim lhe dizia que "artista imaturo imita, mas artista que é artista copia mesmo".

Donato relativiza a afirmação, sem negá-la: "Tom me dizia: "Ah, estou aqui roubando as partes mais bonitas das músicas dos outros". Era em tom de brincadeira, mas pode ser aplicado à prática. Não quero entrar em discussões sobre certo e errado, a história não deve se prender a detalhezinhos. Isso é assim mesmo, eu faço isso também. Era de propósito".

Donato conclui: "Tom está longe desses julgamentos, é o nosso melhor compositor. "Águas de Março" pode não ser uma obra-prima, mas é agradável de ouvir. Acho que merecia ganhar".

A Folha tentou, sem sucesso, ouvir a família de Jobim, mas estudiosos próximos à bossa refutam as teses de Tinhorão e Giron. É o caso do professor e músico Luiz Tatit, ex-integrante do grupo Rumo. "Pode-se falar que toda música é plágio a princípio, já que se trabalham sempre as mesmas sete notas musicais. Não conheço a música nem tenho conhecimento sobre essa acusação. Cheira a invenção. Acho muito difícil ter ocorrido isso, principalmente se é Tinhorão quem diz", ataca.

Não se trata de invenção -a Folha ouviu a canção de Leny Eversong no acervo de Tinhorão, ela existe. Mas outro respeitado pesquisador, Zuza Homem de Mello, pactua com Tatit o desconhecimento de "Água do Céu":
"É delírio puro. Nunca ouvi falar nessa música. Há várias canções de Tom Jobim às quais são atribuídas a palavra plágio. Isso é discutível. É homenagem, não é plágio".

"É possível provar por A mais B que a música é uma obra-prima. Achar que pode ser plágio é uma maneira miúda de quem não tem a percepção do alcance da música. É o mesmo que falar que a estátua da Vênus de Milo é uma merda porque não tem um braço".

Ele defende sua Vênus: "Águas de Março" vencer é resultado para ser comemorado. Sua eleição mostra um amadurecimento de opinião dos que votaram. Não conheço a outra música, mas por experiência dá para afirmar que quem falou que é plágio não entende de música, nunca compôs nada, não sabe de harmonia".

Sem haver ouvido tais argumentos, Tinhorão tem resposta no gatilho: "As pessoas simplesmente desconhecem a fonte. É ignorância acadêmica, auto-suficiente. Só os limitados se baseiam no que não conhecem para afirmar algo com convicção".

Leia também:

  • Veja quem foi Leny Eversong, intérprete de música que inspirou Tom
  • "Águas de Março" vence em pesquisa on-line
  • Outros casos de plágio envolvem Tom Jobim"
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