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29/09/2001 - 04h42

História apaga rosto de primeira presa política do Brasil

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XICO SÁ
da Folha de S.Paulo

Harmonia nos traços, boca ampla, lábios firmes, porte alto e forte, quase masculino, braços longos, passada larga e decidida.

É tudo que a história do Brasil deixou da primeira presa política do país, Bárbara de Alencar, nascida em Exu, Pernambuco, a única mulher a participar ativamente, no vale do Cariri cearense, da ação revolucionária de 1817 no Nordeste, que tentou varrer as forças do Império e antecipar fachos de iluminismo nos arredores da Chapada do Araripe.

Noves fora a descrição guardada na memória fisionômica de parentes, lembrança cinzenta que ajudou na construção da estátua possível, em Fortaleza, não há sequer uma única imagem da mulher que enfrentou a Coroa Portuguesa e decretou, no Crato (CE), uma república independente.

Daí a importância de "Bárbara de Alencar", da jornalista cearense Ariadne Araújo, modesto nas suas cinco dúzias de páginas, mas um livro que vale pelo ajuntamento de fatos desse capítulo da história marginal brasileira.

Ao contrário da escritora Patrícia Galvão, Pagu, condenada pelo governo Getúlio Vargas, em 1940, sabe-se pouco, ou quase nada, sobre a presa política do Crato. A utopia caririense começara no agito do Recife de março de 1817, que havia dado "morras ao rei" e "vivas à República". A insurreição de Pernambuco, com a independência decretada, conseguiu perdurar por 75 dias.

O grito de Bárbara de Alencar sustentou-se por apenas uma semana, mas o suficiente para provocar o ódio da realeza, que passou a castigá-la sem piedade. Ora, uma revolucionária de saias naqueles tempos era uma assombração histórica e tanto.

No dizer do etnólogo potiguar Luís da Câmara Cascudo, a revolução de 1817 foi a mais linda, inesquecível, arrebatadora e inútil das revoluções brasileiras.

Para a agitadora do Cariri, representou sacrifício. Ela teve os bens da família confiscados e foi presa, aos 57, viúva, juntamente com os três filhos, José Martiniano (pai do escritor cearense José de Alencar), Carlos José e Tristão Gonçalves, em porões de Fortaleza, Recife e Salvador.

Contaram-se quatro anos de cárcere brabo. A alimentação era servida em cochos de madeira, não havia colher nem garfo. No cardápio, tripas escaldadas ou iguarias do gênero.

Somente no começo da década de 20 do século 19, a família Alencar é posta em liberdade. As idéias revolucionárias, no entanto, ficaram ainda mais assanhadas depois da prisão.

Os filhos Tristão e Carlos, com a bênção da mãe, engajam-se, em 1824, nas agitações da Confederação do Equador, liderada, a partir do Recife, pelo Frei do Amor Divino Caneca -os pernambucanos não aceitaram a Constituição outorgada por d. Pedro 1º e irradiaram uma revolta que
tomou conta do Norte e Nordeste.

A idéia de Caneca era instaurar, para valer, um regime federalista e republicano, com autonomia das províncias. Mais uma vez os Alencar, homens de boa vontade, estavam na linha de frente.

A reação de d. Pedro, que contratou até mercenários ingleses para a tarefa, derrubou os confederados. Haja sangue, pois o reinado não esperava homens tão destemidos naquela empreita.

Nessa luta dos diabos, Bárbara de Alencar, refugiada na fazenda Touro, na divisa do Ceará com o Piauí, perdeu os filhos Tristão e Carlos, crivados de bala pela reação das tropas imperiais.

A heroína sem rosto morreu aos 72 anos, lá mesmo no refúgio, em 1832. Nos seus shows na região, ao mandar ver em baiões e loas sobre o Cariri, Luiz Gonzaga sempre saudava "dona Bárbara de Alencar", tratamento respeitoso ainda vivo na prosódia dos mais velhos daquele vale.
 

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