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09/11/2001 - 03h37

"Lavoura Arcaica", filme de Luiz Fernando Carvalho, estréia hoje

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MARIO SERGIO CONTI
da Folha de S.Paulo, no Rio

Luiz Fernando Carvalho, 41, guarda no escritório de seu apartamento, na Gávea, no Rio de Janeiro, os cadernos nos quais anotou os filmes a que assistiu, há mais de 20 anos, na cinemateca do Museu de Arte Moderna. São anotações minuciosas sobre iluminação, roteiro e movimentos de câmera.

"Eu não era um cinéfilo", lembra Carvalho, segurando um pequeno caderno com a página aberta no que escreveu sobre "Aurora", dirigido por F.W. Murnau em 1927. "Não pensava em ser cineasta: ia ver os clássicos como quem vai assistir a uma boa aula."

Carvalho não sabia o que queria. Tinha talento para desenho e ilustrava jornais de psicanálise. Gostava de arquitetura, mas acabou reduzindo o currículo às aulas de história da arte.

Fez vestibular para letras e logo trancou a matrícula. Lia Camus, Kafka e Dostoiévski. Fascinado por teorias estéticas, seu escritório está atulhado de livros de Kantor, Meyerhold, Nietszche e Artaud.

No início dos anos 80, deslumbrou-se com Roland Barthes. Um intelectual teria escrito uma tese sobre semiótica. Carvalho fez um filme. Inspirado em "Fragmentos de um Discurso Amoroso", de Barthes, seu curta-metragem "A Espera" ganhou prêmios em festivais no Brasil, no Canadá e na Espanha.

O passo seguinte, fosse Carvalho um cineasta, seria filmar um longa-metragem. O passo não foi dado. Sem planejar, o barthiano começou a trabalhar na Globo. "Entrei na emissora junto com a boiada", conta, referindo-se ao grupo de jovens publicitários e autores de curta-metragem que integrou o grupo responsável pelo programa "Quarta Nobre".

Carvalho foi assistente de direção de Walter Avancini em "Grande Sertão: Veredas" e dirigiu duas adaptações de Ariano Suassuna, "Uma Mulher Vestida de Sol" e "A Farsa da Boa Preguiça". Fez fama de diretor dado a rompantes, lento e perfeccionista.

Ousadia
No seu segundo encontro com José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, pegou uma revista qualquer sobre a mesa do então vice-presidente executivo da rede e sentenciou: "Boni, essa revista, só com fotografias paradas, tem mais apuro imagético que a Globo inteira". Não era pouco, em matéria de ousadia. Boni dirigia a emissora com mão de ferro. Sua frase mais conhecida, infalível quando lhe mostravam um programa novo, era: "Está uma merda, faz de novo".

Os olhos de Boni brilharam, lembra Carvalho. "Concordo. O que você precisa para melhorar o nosso padrão visual?", perguntou-lhe o executivo.

Carvalho respondeu que precisava de uma maquiadora. Não uma qualquer: uma que tivesse ganho o Oscar, para ensinar como fazer maquiagem de época verossímil e sutil. A Globo contratou uma que trabalhara com Steven Spielberg.

Carvalho firmou-se na Globo com as novelas "Renascer", de 1993, e "O Rei do Gado", de 1996, e a minissérie "Os Maias", de 2001. Os três programas tiveram produção conturbada. "Renascer" estreou bem e perdeu o pique.
De "O Rei do Gado", Carvalho conseguiu dirigir os sete primeiros capítulos.

Entrou em crise criativa e se afastou da novela. "Os Maias", concebido para durar 20 capítulos, foi espichado por motivos industriais para mais de 40. Sua trilha sonora não ficou pronta para a estréia.

Com a crise de "O Rei do Gado", Carvalho mergulhou na leitura de livros de ficção. Queria uma que renovasse a sua vontade de criar.
Achou "Lavoura Arcaica" e o leu em uma noite. Encontrou no livro de Raduan Nassar o que queria: "Um romance em que os personagens são fruto de vários tempos, um universo mítico denso e poético", afirma.

Fantasmas
O diretor admite que o livro tocou em fantasmas de sua psique. Sua mãe morreu quando tinha quatro anos. "Só tenho na memória cinco imagens dela", diz, especulando em seguida que talvez tenha insistido em ter Juliana Carneiro da Cunha no filme porque a atriz lhe lembra de sua mãe.
Seu pai, engenheiro e pintor, também já morreu. "Sinto muita falta dele, de podermos conversar", diz.

Antes das filmagens, Carvalho se enfurnou durante três meses com o elenco numa fazenda no interior paulista.

Fez com que todos aprendessem a arar a terra, a preparar pratos libaneses e tivessem aulas de religião com Leonardo Boff. O roteiro é uma edição de "Lavoura Arcaica" com anotações em todas as páginas.

Carvalho não decidiu ainda o que fará em seguida. Não tem nenhum projeto fechado para a televisão ou para o cinema.

Considera impossível uma produção contínua de alto nível na televisão. "Mas acho que dá para abrir espaços de comunicação na TV, de levar verdade e dignidade a milhões de espectadores que não têm acesso a quase nenhum tipo de arte", diz.

Quanto ao cinema, não está disposto a fazer concessões. Já recusou vários convites para filmar, inclusive de atores famosos. "Se o filme não nasce de uma necessidade de expressão, não há por que fazê-lo", diz.

Leia a nossa opinião sobre o filme na Crítica Online
 

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