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07/02/2002 - 21h37

"Indicação ao Nobel é "estratosférica", diz poeta Ferreira Gullar

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ADRIANA RESENDE
da Folha Online

Indicado ao prêmio Nobel de Literatura de 2002, o poeta e crítico de arte Ferreira Gullar, 71, diz que a possibilidade de ser escolhido é "estratosférica". "Isso é coisa pra Sartre, pra Camus", afirmou, referindo-se aos franceses Jean-Paul Sartre (1905-1980), que ganhou e recusou o prêmio em 1964, e Albert Camus (1913-1960), Nobel de 1957.

O último ganhador do Nobel foi V.S. Naipaul, britânico nascido em Trinidad e Tobago. O português José Saramago, único autor de língua portuguesa a ser premiado, venceu a disputa em 1998.


Z.Guimarães/Folha Imagem
O poeta Ferreira Gullar
Em entrevista à Folha Online, Gullar explicou que a iniciativa foi "de alguns amigos, professores, catedráticos". Mas Gullar diz que tentou fazer com que esses professores - entre eles Antonio Carlos Secchin, professor de literatura brasileira da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Secchin foi à Suécia no fim de janeiro para oficializar a candidatura de Gullar e voltou ao Brasil no sábado passado (dia 2).

"No começo eu tentei dissuadi-los porque nunca sonhei com isso. Mas eles disseram 'vamos indicar, você querendo ou não', e depois a candidatura foi aceita por catedráticos de Coimbra [Portugal], Stanford [EUA]. Eu fico contente, é evidente, mas nunca almejei isso."

Ferreira Gullar diz que não sabe quem são os outros indicados, mas citou como prováveis concorrentes o mexicano Carlos Fuentes e o peruano Mario Vargas Llosa.

Segundo Gullar, há uma certa "periodicidade" para que poetas sejam eleitos ao Nobel. "Eu acho isso muito justo, afinal há um número muito maior de romancistas do que de poetas."

Sobre o Nobel, Gullar "modestamente" diz que não sabe muito. "Não sei como funciona, por que fui indicado. Na verdade, quando saem os indicados ou os premiados, eu procuro mesmo é ler as obras deles. Nunca sonhei com isso."

Biografia e criação

Autor de nove livros de poemas, e mais um que depois excluiu de sua bibliografia, escrito durante a adolescência, Ferreira Gullar escreveu também uma obra de contos, outra de crônicas e peças teatrais, além de artigos e críticas literárias.

Batizado José Ribamar Ferreira, ele nasceu em São Luís (MA) em 10 de setembro de 1930. Seu primeiro livro, "Um Pouco Acima do Chão", foi publicado em 1949, de forma independente, e tinha influências de suas leituras de adolescente.

Cinco anos depois, publicou "A Luta Corporal", pela gráfica da revista "O Cruzeiro".

Gullar revela que nunca teve projetos literários e nunca decidiu exatamente sobre o que ia escrever. Suas obras, segundo ele, são fruto de reflexões sobre os acontecimentos, a vida, as pessoas.

"Mas é claro que tem uma coerência no que eu escrevo, porque em cada poema vou refletindo, e as várias reflexões de repente terminam por virar um livro."

"Poema Sujo" (1975-76), por exemplo, seu livro mais conhecido internacionalmente, já foi traduzido na Alemanha, Espanha, Colômbia e EUA.

O livro foi escrito em 1975 e editado no ano seguinte, durante o período em que passou no exílio, na época do regime militar. A obra reflete um momento de grande angústia na vida do poeta.

"Eu estava ameaçado de ser morto, via meus amigos serem mortos. Escrevi aquele livro como se fosse a última coisa da minha vida." Gullar conta que, no começo, não sabia que escreveria um poema tão grande _tem cerca de 70 páginas_, mas logo na quinta página percebeu a dimensão do trabalho.

Mas não repetiria a experiência. "Aquele foi um momento único, não volta mais. Uma emoção daquela, toda a saudade daquele momento, você não consegue expressar duas vezes. Eu demorei meses para escrever aquele poema. Por isso, esse e todos os meus outros livros têm vários poemas: são pequenas descobertas."

Com carinho, Ferreira Gullar se emociona ao falar de "Poema Sujo". E "sujo" não caracteriza um trabalho menor, segundo ele. "É sujo porque não tem estilo definido, porque o período em que foi escrito representa uma época suja da história e porque fala de sexo, que para muitas pessoas é sujo, obsceno", afirma.

"Com cinco páginas eu já sabia o tamanho que ia ter e o nome que eu ia dar a ele. Coisa rara, porque em 99% dos casos eu não me ligo em nomes e deixo por último."

Influências

Gullar se diz influenciado por diferentes formas de poesia, mas destaca os parnasianos, como Olavo Bilac, e modernistas, como Manuel Bandeira, Murilo Mendes e o crítico literário e amigo Mário Pedrosa, com quem começou a trabalhar no Rio, para onde se mudou em 1951.

Na poesia internacional, destaca o poeta alemão Rainer-Maria Rilke (1877-1926) e o francês Stéphane Mallarmé (1842-1890).

A Semana de Arte Moderna, realizada em 1922, teve, segundo Gullar, uma influência não apenas em sua poesia, mas de todos os poetas brasileiros contemporâneos.

"Se eles não tivessem existido, minha poesia seria outra. Sou herdeiro deles _Bandeira, Drummond e principalmente João Cabral [de Mello Neto]. A poesia é isso mesmo, você aprende com o que lê. Só um maluco diria que é 'original'. Eu prefiro ter família na poesia do que ser um marciano que chega num disco voador, sem nenhuma referência."
 

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