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08/12/2002 - 02h40

Saiba quem são os membros da última claque ativa da TV brasileira

FERNANDA DANNEMANN
Enviada especial da Folha ao Rio

Há 20 anos, a dona-de-casa Diva Cavalcanti, então com 57, encontrou na TV Globo o remédio para a tristeza de ter perdido um filho. "Estava com a vida difícil e uma vizinha disse que os Trapalhões precisavam de gente pra rir. Fui lá distrair a cabeça e estou até hoje. Foi o que me salvou. Eu estava infeliz, mas ria. Quer que eu dê uma risada aqui?", diz ela, que achou na claque da emissora o único trabalho remunerado que já teve.

Último vestígio de uma época romântica da TV, a claque -que antes de chegar a ela passou pelo teatro e pelo rádio- é o acesso que gente como Diva tem para o mundo mágico da televisão: morando em Bonsucesso (zona norte do Rio), ela pega dois ônibus para chegar ao Projac (complexo de estúdios da Globo em Jacarepaguá, zona oeste), num trajeto que dura quase três horas.

Para os 20 claqueiros da equipe, que não querem perder seus lugares nas gravações de "Zorra Total" e "Programa do Didi", o trabalho representa mais que os R$ 20,00 ganhos por dia de labuta.

"Achei interessante demais aquele ambiente de televisão. Nunca tinha visto uma gravação e acabei desenvolvendo meu lado das artes", diz Natanael Batista, 42, cobrador domiciliar, que tomou gosto pelo desenho a partir do dia-a-dia na Globo. Para Diva Cavalcanti, o melhor é a convivência com os famosos. "Adoro tirar retrato com os artistas", diz ela.

Na regência do riso, Selma Regina Duarte, 51, ex-auxiliar de escritório e maestrina há duas décadas, defende sua equipe das más línguas. "A claque é formada por gente humilde e, muitas vezes, é zombada por figurantes que se acham os bons por estarem na frente das câmeras. No entanto, muitos ficam lá implorando pra gravar uma cena. Digo a eles: "amanhã é você quem pode estar sentado aqui". Além do mais, meu pessoal ganha um salariozinho maravilhoso, que muito vendedor de shopping não ganha'".

Para ela, que conduz o grupo com sinais de "rir", "diminuir" e "parar", o mais difícil é não deixar a turma extrapolar. "Antigamente eu me prendia mais à estética; hoje dou sinal com a mão, com o dedo, com a cabeça. Eles se divertem com meu jeito muito doido", diz ela.

Selma Duarte é severa e tem controle de qualidade. Na hora do teste, fica de olho para pegar os mímicos. "Tem gente que abre 180º de boca, se requebra toda na cadeira e não solta um rá-rá-rá."

A profissão também foi terapêutica para Natanael Batista. Levado pela mãe, que já era "claqueira", foi lá que ele curou, sem medicina, uma crônica dificuldade de socialização. "Eu era muito tímido, deprimido, caladão. Ficava pelos cantos me queixando de tudo. No começo meu riso ficou preso, mas, com o incentivo da risada dos amigos, soltei minha gargalhada: Rá, Rá, Rá! Gostou? Aprendi na claque", diz satisfeito.

Afora benefícios psicológicos, há também os mais práticos. "A comida lá é ótima", afirma Ruth da Silva Batista, 77, mãe de Natanael, que estreou na profissão no "Balança Mas Não Cai", há mais de 15 anos. Ao fim de um programa do Chacrinha, ela acabou entrando numa fila de senhoras, e, quando se deu conta, estava em pleno teste de risadas.

"Disseram que meu riso era bom. Cheguei em casa e falei: "gente, vou trabalhar na Globo!", e quando contei qual era o trabalho, meus filhos caíram na risada", lembra, às gargalhadas.

Outra que saiu da platéia do Chacrinha foi Josepha Soares da Silva, 67, a mais antiga da equipe. "Eu era "macaca de auditório'", diz ela, que também é figurante.

"Fui gravar [a novela] "Roque Santeiro" [85-86] e um fiscal da figuração me chamou pra ganhar um extra no Teatro Fênix. Não sabia que existia esse negócio de riso, mas gostei. É só sentar na cadeira e rir. Se não escuto a piada, rio do mesmo jeito", afirma, dizendo que o marido, epilético, foi dispensado. "Às vezes tinha convulsão, podia quebrar alguma coisa."

Assim como Josepha, Sebastiana Duarte, 77, saiu da figuração. Seu papel mais importante foi como tia do saudoso Zeca Diabo, interpretado por Lima Duarte, em "O Bem Amado" (1973).

Fora da claque há oito anos, ela só pensa em voltar. "Morro de saudades, mas minha filha [a maestrina Selma] diz que não vou aguentar", lamenta.

Definida por todos os integrantes como "verdadeira terapia", a claque, dependendo da situação, também pode ser um trabalho árduo. Ruth Batista dá a explicação: "Se fico triste? Ah, de todo jeito tenho que rir. Às vezes, morre um parente, eu choro no enterro e de lá vou trabalhar, dar risada na claque. E se rio no mercado e me pedem pra repetir, aviso logo que essa minha gargalhada custa dinheiro".

Em meio a todo o aparato tecnológico dos estúdios da Globo, a claque, que assiste às cenas através de um monitor (ilustração na página ao lado), não entende sua longevidade. Selma tem uma teoria: "Há dois anos os humorísticos saíram de férias e a gente não ia voltar. Todo mundo reclamou, técnicos, artistas, continuistas, maquinistas... todos acharam que o programa, com risada gravada, ficou igual a um cemitério."
 

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