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03/02/2003 - 11h40

Pioneiro do samba-soul, Dom Salvador volta ao país para homenagem

CARLOS CALADO
especial para a Folha

Uma lendária figura da música brasileira vai se apresentar pela primeira vez no país após 30 anos de afastamento. Propagador da bossa nova e do jazz na década de 60, pioneiro das fusões do soul e do funk com o samba nos anos 70, o pianista e compositor Dom Salvador, 64, será homenageado em noite especial no 4º Chivas Jazz, de 28 a 31 de maio, em SP e no Rio.

"Eu estava esperando algo assim há muito tempo. Estive no Rio recentemente e senti que as pessoas estão com saudade da minha música", disse Salvador à Folha, por telefone, de Nova York, onde vive desde 1973 com sua mulher e dois filhos.

A homenagem ainda está em fase de preparo. Toy Lima, produtor do festival, planeja ter no palco músicos como o trompetista Barrosinho e o guitarrista Zé Carlos, que acompanharam Salvador na precursora banda black Abolição. Outro convidado será Ed Motta, que dedicou a ele a composição "Um Dom pra Salvador". "Fiquei emocionado ao ouvi-la. Eu nem conhecia o Ed, que só tinha dois anos quando deixei o Brasil."

Salvador recorda que seu último show no país foi com a cantora Nara Leão, no verão carioca de 1973. "Não vim para os EUA com a intenção de ficar. Sempre gostei muito de jazz e queria me aprofundar mais", esclarece.

Nessas três décadas, além de gravações e colaborações longas com o saxofonista Charlie Rouse (ex-Thelonious Monk) e com o cantor Harry Belafonte, Salvador fez muitas aparições em clubes de jazz e estúdios, ao lado de feras como Herbie Mann, Ron Carter, Eddie Gómez, Richard Davis e Paul Horn.

Paulista de Rio Claro, Salvador da Silva Filho já era conhecido em boates badaladas do centro de São Paulo, como a Lancaster, a Baiúca e a Cave, no início dos anos 60.

"Tocávamos nos inferninhos até 3h ou 4h. Depois íamos para algum lugar fazer jam sessions até as 8h", relembra. Entre suas primeiras influências ao piano, ele cita os jazzistas Erroll Garner, Dave Brubeck, Bobby Thimmons e Red Garland, além dos brasileiros Dick Farney e Moacyr Peixoto.

Ao se mudar para o Rio, em 1964, logo chamou atenção no Beco das Garrafas, reduto da bossa nova. Integrando o Copa Trio, acompanhou e gravou com futuros astros da MPB, como Jorge Ben e Elis Regina. Já à frente do Salvador Trio, em 1966, fez uma turnê pela Europa com Edu Lobo e Sylvinha Telles. No ano seguinte acompanhou Elza Soares aos EUA e ao México.

Salvador não esconde a emoção ao falar de Elis Regina. "Quando conheci a filha dela, Maria Rita, comecei a chorar. Sinto muita falta da Elis. Ela foi madrinha de meu casamento. Eu era bem acanhado quando cheguei ao Rio, e ela me gozava muito por causa de meu sotaque do interior", conta.

O fato de hoje ser pouco conhecido no Brasil ou de os seus discos estarem ausentes das lojas não deixaram mágoas, afirma o pianista. "Acho que foi culpa minha, porque nunca me interessei muito por promover minha obra. Não sou uma pessoa muito agressiva. Eu sempre quis apenas tocar."

Salvador pretende que sua apresentação no Chivas Jazz Festival seja o início da reaproximação com o Brasil. "O repertório do meu show terá 90% de composições minhas, muitas inéditas. Quero mostrar o que tenho feito aqui", avisa, confirmando que vai liderar um quarteto formado por Dick Oatts (sax), Duduka da Fonseca (bateria) e Rogério Botter Maio (baixo).

Carlos Calado é crítico de música e autor de "O Jazz como Espetáculo", entre outros livros.
 

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