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22/02/2003 - 04h18

Editoras criam "sociedade dos poetas vivos"

CASSIANO ELEK MACHADO
da Folha de S.Paulo

Pequeninas, quase clandestinas, um grupo de editoras vem consolidando discretamente por todo o país uma espécie de teia invisível feita apenas de versos.

Um dos nichos com menos resposta no mercado editorial, a poesia contemporânea brasileira já tem pelo menos 20 casas para morar ou passar temporadas.

O surgimento recente de duas coleções de livros, a Alguidar, da editora Landy, de São Paulo, e a Istmos, da Azougue Editorial, do Rio, dão impulso a esse movimento, que rima com o fortalecimento do cenário das revistas poéticas, que a partir do próximo dia 13 conta também com a paranaense "Et Cetera".

Essa involuntária "Sociedade dos Poetas Vivos" tem alguns traços em comum. Equipes diminutas, orçamentos liliputianos, tiragens que raramente passam dos mil exemplares e paciência.

É nesta, numa paciência quase chinesa, que um trio de amigos e entusiastas de poesia se inspirou para batizar uma das editoras mais atuantes hoje na área.

A Nankin surgiu em 1996 e, apesar de estrear com uma figurona do verso nacional, Hilda Hilst, e de ter publicado outros reconhecidos, como Roberto Piva e Glauco Mattoso, se dedica basicamente a poetas mais iniciantes.

O lançamento recente de um deles ajuda a ilustrar os laços que existem entre os pequenos publicadores poéticos brasileiros.

A editora lançou em sua coleção "Janela do Caos", que já conta com 22 títulos, o livro "Carbono", de Tarso de Melo. Jovem poeta de Santo André (SP), ele edita a revista paulistana "Cacto" e coordena a coleção de poesia da editora Alpharrabio, de sua cidade natal.

A orelha é assinada por Carlito Azevedo que, com Augusto Massi, edita a revista mais estabelecida no cenário, a "Inimigo Rumor", e coordena a recém-lançada coleção "Ás de Colete", co-editada pela carioca 7 Letras e pela paulistana Cosac & Naify.

"Vivemos um momento feliz em termos de circulação de poesia. Publicar ficou mais fácil, mais barato, e há uma série de pequenas editoras interessadas na produção contemporânea, trabalhando de modo continuado, editando não apenas livros de poesia, mas também revistas e antologias", opina Fabio Weintraub, um dos criadores da Nankin.

Seu otimismo reflete o reconhecimento que um livro dele mesmo (e da editora) teve recentemente. "Novo Endereço" arrebatou o prêmio latino-americano Casa de Las Americas, depois de ter abocanhado o concurso Juiz de Fora (MG), de significativos R$ 8.000.

Dalila Teles Veras, da Alpharrabio, faz coro com Weintraub. "O cenário editorial de poesia no Brasil é vigoroso, mas sempre esbarramos numa tragédia, que é a distribuição", opina a editora, que em dez anos de atividade lançou cerca de 60 títulos, com tiragens de 40 até 3.000 exemplares.

Outra pedra no meio do caminho dos selos poéticos, na visão de alguns editores, é uma certa "autofagia". Os livros e revistas seriam consumidos apenas por autores dos livros e revistas.

Cabeça de uma das editoras de poesia mais ousadas do mercado -junto com a paulistana Ciência do Acidente, de Joca Reiners Terron-, Sérgio Cohn, da Azougue, diz que os poetas "se fecharam numa corte".

"Os próprios autores pagam a edição dos seus livros, ficando com parte da tiragem. Essa parcela é distribuída pelo autor para conhecidos. O autor não compra livro dos outros porque espera a recíproca do que fez com o seu."

Com sede no Rio, a editora vem tentando quebrar esse círculo ao publicar sem aporte financeiro do autor. Com menos de três anos, a Azougue (prolongamento da revista de mesmo nome, criada em 94) publica só poesia nacional, em coleções como a nova Istmos e a Flor Azul, que reúne autores mais estabelecidos, casos de Afonso Henriques Neto e de Cláudio Daniel, e estreantes, como Pedro Rocha e Pedro Cesarino.

"Surpresa é descobrir que autores já mais consagrados pela crítica e conhecidos do público algumas vezes vendem menos do que estreantes", diz Cohn.

Não é o que acontece na editora 7 Letras, do mesmo Rio de Janeiro. O best seller do selo é o livro "Beijo na Boca", do poeta cult mineiro Cacaso (1944-1987), que teve também recentemente edição luxuosa do volume "Lero-Lero" (parceria com a Cosac).

Talvez a recordista em títulos na seara poética, com mais de cem obras lançadas, a casa dirigida por Jorge Viveiros de Castro abocanhou os últimos dois prêmios da Biblioteca Nacional, com "Sublunar", de Carlito Azevedo, em 2001, e "Desassombro", de Eucanaã Ferraz, no final de 2002. Mas apesar da identidade forte com o verso, a 7 Letras tem investido pesado em outros gêneros.

"Acho difícil, talvez impossível, obter lucro financeiro apenas com a publicação de poesia. É um gênero de circulação comercial muito restrita", sustenta Castro.

Por outro lado, o editor aponta uma "efervescência poética" nos últimos anos. "As novas tecnologias digitais facilitam a publicação de livros ou a veiculação de poemas pela internet."


 

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