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21/08/2003 - 10h10

Millôr Fernandes tem sua obra "ocasional" devassada

ROGÉRIO EDUARDO ALVES
DA Folha de S.Paulo

A carreira de Millôr Fernandes, 80, sempre foi gerida pelo "ocasional". Esta é a palavra com que o jornalista explica suas andanças por inúmeras redações de jornais e revistas nacionais e sua atuação em diversificadas áreas artísticas, que abrangem tanto a charge quanto a tradução literária.

"As coincidências em minha vida estão acima da compreensão humana, fora da possibilidade estatística, entrando pela magia e pela metafísica. Com esses acontecimentos não tento nem a ridícula possibilidade de entender. E, por favor, não venham me explicar", escreveu Fernandes por e-mail, de seu ateliê no Rio.

Da variedade, uma obra foi se consolidando ao longo de mais de 60 anos, desde a criação do pseudônimo Vão Gôgo com o qual assinava a coluna "Poste-Escrito", sucesso da revista "A Cigarra" de 1939. De lá para cá, essa produção "ocasional" reunida é suficiente para preencher as páginas de um alentado volume do "Cadernos de Literatura Brasileira", editado pelo Instituto Moreira Salles, que será lançado hoje no Rio.

"Me sinto -e não estou brincando- como Mestre Vitalino ou o Bispo do Rosário sendo examinados pelos que entendem", diz o autor de seu refúgio em Ipanema, bairro onde mora desde de 1954, no Rio.

Cidade que é, aliás, o mundo de Fernandes, que não hesita em afirmar na longa entrevista publicada no "Cadernos': "Eu não vivo no Brasil, eu vivo no Rio de Janeiro". Por isso, as fotos da seção "Geografia Pessoal" mostram o seu universo das praias, dos teatros e do Méier natal (na zona norte do Rio), as paisagens que alimentam ainda hoje a criatividade do chargista e escritor.

"O "Cadernos" ajuda a dourar mais um mito. O que vai me fazer ridicularizado no Méier, cuja maior glória até ontem era a grande Fada Santoro."

E é da faceta teatral do mito Millôr, que já conheceu o sucesso com "O Homem do Princípio ao Fim" (1967), "É..." (1977) e "Os Órfãos de Jânio" (1980), que o livro traz o primeiro e último quadros da inédita "Kaos", escrita em 1995, além das anotações do autor para "Duas Tábuas e uma Paixão" (1982), nunca montada, e trechos de "Últimos Diálogos", um roteiro pedido pelo cineasta e colunista da Folha Walter Salles.

"Nunca vou a médico, mas duas vezes por ano vou a um oculista. Mandei imediatamente o "Cadernos" para ele, o dr. Ghiarone, para que me diga como devo enxergar minha obra, depois deste trauma oftalmológico", diz.
Esse processo de devassamento de sua vida e obra, Fernandes já vinha experimentando desde o advento da internet. "Eu me sinto, claro, devassado. Mas isso já era um sentimento que vinha crescendo com o impudor da internet. Todo mundo lê coisas da gente -e até coisas que não são da gente- e colocam na internet. Perdi meu recato, a minha privacidade. Havia coisas minhas que eu não queria ver publicadas, pelo menos não queria ver repetidas."

Mas o que parece tocá-lo mais é a parte teórica do "Cadernos", que traz ensaios sobre o patrimônio humorístico do autor (por Elias Thomé Saliba), seu teatro (por Mariangela Alves de Lima), suas traduções teatrais (por Maria Sílvia Betti) e seu trabalho como artista plástico (por Sheila Leirner), além de um estudo complementar sobre o riso e o humor na filosofia (por Márcio Suzuki).

"Não, não, não me mete nisso. Deixa eu ir à minha praia em passo curto, caminhando na direção contrária", desconversa.

Cadernos de Literatura Brasileira - Millôr Fernandes
Onde: Instituto Moreira Salles (rua Marquês de São Vicente, 476, Rio; tel. 0/xx/21/3284-7400).
Quando: hoje (21), das 19h às 22h.
Quanto: R$ 40 (184 págs.).
 

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