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15/12/2003 - 10h15

Escuta aqui: Punk é de butique, só os skinheads não sabem

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ÁLVARO PEREIRA JÚNIOR
Colunista da Folha de S.Paulo

Os punks brasileiros são mais punks do que os ingleses. Os indies brasileiros são mais indies que os gringos. Os manos do hip hop do Brasil são muito mais radicais do que os americanos, inventores da coisa. Os fãs de música eletrônica daqui são muito mais devotados do que os europeus, que são os pioneiros do gênero.

E, é claro, os skinheads brasileiros, punks carecas de inspiração nazista, são ainda mais trogloditas do que seus congêneres britânicos, que criaram o movimento como uma espécie de punk "de direita".

No Brasil, várias instâncias do comportamento jovem, importadas, se reproduzem na forma de caricatura. O que, na maioria das vezes, pode ser meio ridículo --como os chamados "cabelinhos", que andam com aquela juba lambida, imitando os Strokes e o Rapture--, mas não passa disso.

O perigo é quando esse comportamento caricato põe em risco a vida humana, concretizando-se em forma de violência. Foi o que aconteceu na semana passada com os dois jovens roqueiros agredidos no trem em Mogi das Cruzes (SP) por um bando de skinheads. Um dos rapazes teve o braço decepado, e o outro, enquanto escrevo esta coluna, encontra-se em coma no hospital. Ao que parece, os carecas não gostaram das camisetas de bandas que os fãs de rock usavam.

De longe, é impossível avaliar a extensão da confusão mental, associada a frustrações sociais, que leva os carecas da periferia paulistana a essas atitudes violentas. Mas não deve ser nada muito diferente, por exemplo, daquilo que aglutina as torcidas organizadas de futebol, em sua maioria agremiações fascistas em que manés inseguros unem-se em grupos em busca de um ideal para suas vidas --no caso, detonar os "inimigos" do time oposto.

Lembro-me de uma entrevista, se não me engano da brasileira Isabel Monteiro, da banda londrina Drugstore, sobre o espanto dos ingleses ao saberem que, no Brasil, jovens pobres matavam e morriam por causa de preferências musicais.

É que os londrinos sabem que o punk foi uma invenção de uma rapaziada mais preocupada com estilo e com discurso do que com quebra-paus. Ao contrário do que pode parecer quando a gente olha aqui do Brasil, o punk não teve origem proletária, não tem nada a ver com gritos de revolta da população mais pobre. O punk, pelo menos o de Londres, é "de butique" desde o nascimento.

No interior da Inglaterra, no entanto, o punk foi abraçado por trabalhadores de baixa renda, brancos, revoltados contra estrangeiros que podiam tomar seus empregos. É desse tipo de sentimento que se originaram os skinheads. A idéia deles era bem direta: a situação está feia, esses estrangeiros aceitam ganhar qualquer merreca e vão deixar todos nós, ingleses pobres brancos, desempregados. Daí a derrapar para o nazismo foi só um passo.

Se o interior da Inglaterra se apropriou, de um modo torcido, do punk original, os nazi-punks brasileiros diluíram ainda mais a "ideologia" dos caipiras britânicos.

Triste, revoltante mesmo, é que, tantos anos depois, numa periferia perdida em um país no fim do mundo, jovens se agridam e se matem por algo que, se já não fazia sentido quando surgiu, hoje nem existe mais.

BRASAS

WS autografado 1

Adiado o resultado da promoção sensacional que vai dar o CD "White Blood Cells", dos White Stripes. Leva quem enviar a resposta mais engraçada/original para a pergunta: "O que Michael Jackson vai pedir neste ano ao Papai Noel?". Centenas de e-mails chegaram, mas... quase tudo bem fraquinho.

WS autografado 2

Basicamente, as respostas giram em torno de três temas: Michael Jackson pede para ser preso e ir para a Febem ou pede chocolates da marca Garoto ou pede, de presente, o menino Jesus. Os músculos da face deste velho colunista não se moveram mais do que 0,003 mm com nenhuma das respostas. O prêmio é bom demais, tem de ir para uma resposta nota dez.

WS autografado 3

Você tem até o dia 17/12 para competir. A resposta tem de ser original, engraçada, criativa e em uma só frase. Não adianta mandar um tratado porque meus olhos cansados não aguentam ler. O e-mail é cby2k@uol.com.br. Aproveite o fim das aulas e gaste seus neurônios com "Escuta Aqui"!

Melhores do ano

E, por falar em White Stripes, não perca, na semana que vem, nossa já tradicional lista de melhores/piores do ano! Será que o show dos WS no Rio vai ser citado? E o do Coldplay em São Paulo? O CD novo dos Strokes entra nessa? Os Tribalistas serão lembrados? Caê cantando Nirvana vai estar entre os destaques? Não perca as respostas.

CD PLAYER

"Cowboy Bebop"

Grande filme japonês de animação que une as técnicas de desenho mais toscas a recursos de altíssima tecnologia de computação gráfica. Vi no fim de semana de estréia e, injustamente, o público era pequeno. Não perca.

Radiohead na BBC

Você não pode bobear! Durante uma semana, a partir de 22 de dezembro, na rádio BBC 6, o pessoal do Radiohead dá entrevistas e escolhe a programação! Confira todas as informações: www.bbc.co.uk/6music/artists/radiohead.shtml.

Trio misterioso

Estive na África do Sul na semana passada e vi, na TV, o clipe de um trio de meninas negras, som meio Missy Elliott, sen-sa-cio-nal! Acho que o refrão dizia "happy faces everywhere". Não apareceu o nome no vídeo. Alguém conhece?

Álvaro Pereira Júnior, 40, é editor-chefe do "Fantástico" em São Paulo. E-mail: cby2k@uol.com.br
 

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