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22/02/2004 - 02h32

Versão de Mel Gibson para "Paixão de Cristo" revolta religiosos

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PAOULA ABOU-JAOUDE
da Folha de S.Paulo, em Los Angeles

Nos últimos meses, ao lado de editoriais sobre a situação caótica no Iraque e a instabilidade da economia de George W. Bush, o nome de Mel Gibson, 48, foi uma constante nos grandes jornais americanos. O "New York Times" publicou pelo menos 30 artigos sobre a polêmica nova produção do astro de "Máquina Mortífera".

Após uma crise espiritual, Gibson decidiu rodar um filme que reaviva, num crescendo de violência e imagens chocantes, as 12 horas finais da vida de Jesus Cristo. "A Paixão de Cristo", que estréia dia 25 nos EUA, plena Quarta-Feira de Cinzas (no Brasil será lançado em 26 de março), e é falado em aramaico e latim, foi duramente criticado por diversas correntes religiosas americanas.

A mais severa acusação foi de o diretor de "Coração Valente" ter criado um filme anti-semita. Ele refuta. Gibson, que é católico "tradicionalista" (ele não acredita nas reformas do Concílio Vaticano 2º, não come carne às sextas e tem uma interpretação rígida das Escrituras), disse à Folha que fez um filme de fé, uma "leitura profundamente pesquisada, e não um ato inconseqüente". "O filme não é o Evangelho Segundo Mel."

Folha - O sr. disse que começou a maturar a idéia de um filme sobre Cristo há 12 anos, quando enfrentou uma crise espiritual, não?
Mel Gibson
- Acredito que todos nós chegamos a um ponto em nossas vidas em que damos de cara contra a parede. Isso é doloroso. A dor é a precursora da mudança. Foi o que ocorreu em meu caso. Alcancei um estágio de tristeza pessoal e então era tempo de parar e voltar atrás. Foi focando na Paixão, que é o tema central da fé cristã, que pude fazer essa volta. Se você abraça essa busca como forma de tratamento, é claro que ela irá se tornar uma parte integral de você. No meu caso, não tinha como um trabalho não emergir disso. Estava tudo arraigado em mim. Michelangelo e Da Vinci --e não estou me comparando com esses artistas-- produziram trabalhos que emanaram da dor.

Folha - Por que o sr. decidiu revisitar uma história contada tantas vezes e por um prisma que vem gerando controvérsia?
Gibson
- As Escrituras sempre foram controversas. Elas foram separadas, depois juntadas e reinterpretadas por 2.000 anos, atravessando o teste do tempo. Devo dizer que meu filme adere muito bem às Escrituras. Não fiz nada no vácuo. Não se trata do "Evangelho Segundo Mel". Durante um período de 12 anos li volumes e mais volumes das Escrituras, falei com historiadores bíblicos... Em alguns pontos é minha interpretação, claro. Mas não acredito que tenha traído o Evangelho. Aderi-me a ele com muita veracidade e não com uma agenda por trás, como algumas pessoas disseram.

Folha - O sr. recentemente cortou uma passagem de seu filme criticada por ser anti-semita, na qual o sumo-sacerdote Caifás invoca um tipo de maldição sobre o povo judeu declarando sobre a Crucificação: "Que seu sangue esteja em nós e em nossas crianças". O que tem a dizer sobre isso?
Gibson
- Meus detratores acham que eu estava tentando dizer que existe uma maldição milenar em cima dos judeus. A igreja nunca ensinou aquilo, e eu entendo que exista um medo a respeito, e queria acalmar qualquer temor. Acredito em todas as linhas do Evangelho. As nuances teológicas dele são vastas e você não pode explicar tudo em um segundo e meio, que era o tempo em que essa frase aparecia no filme. Não queria que falassem que fiz um jogo de culpa.

Folha - Na sua opinião, quem realmente matou Jesus?
Gibson
- Todos nós matamos Jesus. Ele morreu pelos pecados de todos os homens de todos os tempos, e se você quiser, eu serei o primeiro da fila a aceitar essa culpabilidade. O papado condenou o racismo e o anti-semitismo de todas as formas. Isso ficou bem claro na encíclica do papa Pio 5º. Ser anti-semita, então, é pecar, é ser anti-cristão. E isso eu não sou.

Folha - Por que a figura de uma mulher para representar Satã?
Gibson
- Queria que a maldade não tivesse uma forma execrável. Procurei uma imagem saudável, como a de uma figura materna. Era importante apresentar a maldade como alguém bom.

Folha - O sr. disse que esse filme prejudicará sua carreira...
Gibson
- Estava brincando quando disse aquilo. É claro que teve gente que se distanciou de mim. Alguns eu até esperava, outros não. Ei, a vida é assim mesmo.

Especial
  • Veja fotos do filme "A Paixão de Cristo", de Mel Gibson
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