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24/03/2004 - 04h39

Fringe saúda Bertolt Brecht em três peças

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VALMIR SANTOS
Enviado especial da Folha de S.Paulo a Curitiba

O escritor de peças Bertolt Brecht, como tratava a si, viveu 58 anos e sublimou tempos sombrios em teatro e poesia. Tempos de guerra, de intolerância, atualizados pelos eventos históricos deste nascente século 21 e espelhados no Festival de Teatro de Curitiba.

A obra do alemão Brecht (1898-1956) recorta parte da programação do Fringe e da Mostra Oficial. Ora com seus textos dramáticos, ora com seu pensamento político, humanista. Em verdade, um e outro não se descolam.

"Encenar Brecht é interferir no modo de pensar maniqueísta de nossa época e propor a dialética", diz o diretor Marcelo Lazzaratto, 37, que trouxe para o Fringe, mostra paralela do festival, duas montagens do autor: "O Círculo de Giz Caucasiano", com a cia. Turma Zero Zero, e "Terror e Miséria no 3º Reich", com a cia. Lês Commediens Tropicales, ambos com alunos de Artes Cênicas da Unicamp. Os dois elencos somam 57 atores.

Essa percepção dialética da realidade, para além do bem e do mal, fica evidente em "Terror e Miséria no 3º Reich" (1938). Brecht mostra como a ascensão de Adolf Hitler obteve adesão de todas as classes sociais. Relações humanas foram rompidas ou estabelecidas diante do medo.

"A peça foca as pessoas comuns, a família, o empregado, o patrão. Não há heróis", diz Lazzaratto. O microcosmo é contaminado pelo persuasão de Hitler (1889-1945), que promete "soerguimento do povo alemão".

A ação se passa em meados dos anos 30, eminência da Segunda Guerra (1939-45). São encenados 16 dos 24 quadros de "Terror e Miséria". Os atores do Commediens Tropicales ocupam o Moinho Rebouças, engenho de moagem de trigo no século passado.

Térreo, primeiro e segundo andares, salas contíguas e o pátio do edifício transformam-se no cenário para a matança de judeus no campo de concentração, o alojamento da Juventude Hitlerista, a marcha da polícia nazista metida em seus uniformes azul-marinho escuro e símbolo da suástica atado ao braço esquerdo, por aí vai.

O público é deslocado de um ponto a outro, entre gritos, barulhos de portas de aço cerradas e de aviões que passam na rota para o aeroporto de São José dos Pinhais, o que corrobora o realismo, apesar da narrativa épica. "Falta muito para os bons tempos", diz um dos personagens.

Em "O Círculo de Giz Caucasiano", Lazzaratto e a Turma Zero Zero colocam em xeque a posse da terra. "Quem tem direito sobre ela? Quem nela nasceu e a toma como propriedade ou quem dela melhor cuida?" são as questões lançadas e abordadas por meio da metáfora de uma criança esquecida pela mãe, mulher do governador, e adotada por uma criada em meio a uma revolta no palácio.

Inspirada na parábola do rei Salomão, o ápice é um julgamento para ver com quem ficará a criança. O juiz, um cidadão vindo de classe baixa, recorre à prova do círculo de giz: as mulheres têm que puxar o bebê ao centro.

Outra montagem, desta vez local, faz releitura de duas peças radiofônicas de Brecht, "O Vôo sobre o Oceano" e "Baden-Baden". O resultado é o espetáculo "A Longa Viagem do Comandante Fulano de Tal através do Grande Oceano", com adaptação e direção de Enéas Lour.

Narra a história do Comandante Aviador, que, pela primeira vez na história, tenta cruzar o oceano com sua máquina voadora. A peça traça metáforas dessa longa e solitária viagem com a própria trajetória do homem comum pela vida, a transpor obstáculos como tempestade, nevoeiro, sono e, principalmente, a si mesmo.

"Fazer uma peça do Brecht, como diz o jargão dos artistas, não é fácil. E a principal dificuldade é o esforço de aproximação com o tal Bertolt Brecht. Fácil seria assumir a 'forma do teatro de Brecht' em oposição ao 'seu conteúdo político', considerando atual apenas uma dessas partes. Porém a forma do teatro de Brecht é a expressão de sua política. Assim, torna-se impossível dissociar forma e conteúdo, pois toda a ação é política em Brecht", escreve Lour.

A fotógrafa Lenise Pinheiro e o repórter Valmir Santos viajam a convite da organização do FTC

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