Saltar para o conteúdo principal

Publicidade

Publicidade

 
 
  Siga a Folha de S.Paulo no Twitter
15/11/2005 - 11h24

"Phono 73" registra história da MPB

Publicidade

LUIZ FERNANDO VIANNA
da Folha de S.Paulo, no Rio

Não importam os problemas técnicos, as poucas imagens, os altos e baixos de qualidade. "Phono 73", caixa que está sendo lançada com dois CDs e um DVD, é um documento histórico --ainda que, infelizmente, incompleto.

Phono 73 foi um festival realizado no Palácio de Convenções do Anhembi, entre 11 e 13 de maio de 1973, com todo o elenco da Phonogram, hoje Universal. A multinacional tinha quase todos os grandes nomes da dita MPB e resolveu reuni-los em um grande evento de marketing --embora a palavra não fosse usual na época-- que também tinha um inevitável viés político, já que se vivia o período mais repressivo da ditadura militar.

"Os militares achavam que a gravadora estava cheia de comunistas, e os artistas nos viam como direitistas. Na verdade, o que nós queríamos era gravar boa música brasileira", diz Armando Pittigliani, então diretor do departamento de serviços criativos (marketing no jargão de hoje) da Phonogram e diretor-geral do Phono 73.

O lado promocional era nítido, tanto que a gravadora, pouco antes do festival, reuniu os artistas para uma foto que usou em um anúncio com a frase "Só nos falta o Roberto". Mas o Rei nunca foi.

O que importa hoje, no entanto, é outro lado: o da contestação, política e estética, o do registro de artistas em momentos tão criativos quanto tensos. O exemplo mais claro é o de Gil e Chico Buarque, que tinham acabado de compor --e ter censurada-- "Cálice".

Resolveram levar a música para o palco e tiveram os sons de seus microfones cortados por ordem de policiais. Como o som da mesa de áudio permaneceu ligado, ficou guardado o que Chico disse após o corte: "Estão me aporrinhando muito. Esse negócio de desligar o som não estava no programa. Claro, estava no programa que eu não posso cantar a música ["Cálice'] nem "Anna de Amsterdam". Não vou cantar nenhuma das duas. Mas desligar o som não precisava não".

Só é possível ouvir essa fala nos extras do DVD --que é a grande novidade, já que as músicas tinham saído em três CDs. No disco também há algumas imagens de Chico, irritado, cantando "Cotidiano" e "Baioque". No fim desta, ele grita, fora do microfone mas de modo bem reconhecível: "Censura filha da puta!". A seu lado, os cantores do MPB-4 gritam sons desconexos para protestar.

O que vão pensar

O DVD dura apenas 35 minutos. Foi o que sobrou das imagens feitas na época por Guga de Oliveira. Como ele e a Phonogram não se acertaram, o filme planejado nunca saiu e os negativos de 35 mm foram se deteriorando.

Mas há imagens incríveis como a de Caetano Veloso totalmente performático em "A Volta da Asa Branca" (Luiz Gonzaga/Zé Dantas): ele simula cantoria de cego, emenda outras músicas, joga-se no chão e dança como que em transe. Em outra cena, ele se ajoelha aos pés de Jorge Ben (Jor), enquanto este improvisa com Gil.

Infelizmente, as câmeras não filmaram o duo de Caetano com o brega Odair José em "Eu Vou Tirar Você desse Lugar". As vaias do início viraram aplausos no fim, quando ele enfatiza um verso da música: "Não me importa o que os outros vão pensar". Está em um dos CDs.

"E ele ainda disse uma frase histórica: "Nada mais Z do que um público classe A'", conta Pittigliani, lembrando que Caetano propôs o duo, e difícil foi convencer Odair de que era verdade.

Vaias e beijos

Outra vaia --não-audível na caixa-- sofreu Elis Regina ao subir ao palco. Ela tinha cantado há pouco tempo nas Olimpíadas do Exército e sabia o que lhe esperava. Esperou as vaias diminuírem, atacou de "Cabaré" (João Bosco/ Aldir Blanc) e foi ovacionada. Está no DVD, assim como a famosa foto de Maria Bethânia e Gal Costa beijando-se na boca.

Toquinho, Vinicius, Erasmo Carlos, Raul Seixas, Sérgio Sampaio, Jair Rodrigues, Wilson Simonal, Jorge Mautner, Wanderléa, Ronnie Von... Há mais e mais diversa gente nos CDs e no DVD. Não dá para chamar de "O canto de um povo", como estava no encarte dos dois LPs originais e é o subtítulo da caixa. Mas é o canto de uma época em que se acreditava cantar em nome de um povo.

Phono 73
Artistas: Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Elis Regina e outros
Gravadora: Universal
Quanto: R$ 86 (dois CDs e um DVD)

Leia mais
  • "Deusa da fossa", Maysa ganha biografia 30 anos após sua morte

    Especial
  • Leia o que já foi publicado sobre MPB
  •  

    Publicidade

    Publicidade

    Publicidade


     

    Voltar ao topo da página