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30/01/2006 - 09h36

Woody Allen fala de novo filme em entrevista exclusiva

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SÉRGIO DÁVILA
da Folha de S.Paulo

"Mr. Allen? Mr. Woody Allen?." A voz, do outro lado da linha, é inconfundível, mesmo entre os barulhos de uma Redação em pleno trabalho do lado de cá da linha, na tarde da última sexta-feira. Do lado de lá, em Londres, o nova-iorquino Woody Allen, 70, um dos mais importantes e autorais cineastas em atividade.

Em Londres? Sim, o autor de "Manhattan" (1979) e outras odes fílmicas a Nova York cansou da penúria que Hollywood o impõe e foi atrás "de onde o dinheiro está", como disse em entrevista exclusiva à Folha.

Assim, fez "Ponto Final" ("Match Point"), que concorreu a quatro Globos de Ouro, tem chances nas indicações do Oscar amanhã e estréia no Brasil na sexta; acaba de concluir "Scoop", comédia ligeira que abre no verão dos EUA; e prepara-se para o terceiro, todos na capital britânica.

"Ponto Final", seu 35º longa e um dos melhores, traz um "quadrado amoroso", como define o próprio Allen, em que os dois principais lados são interpretados pela pós-ninfeta norte-americana Scarlett Johansson, 21, e o irlandês Jonathan Rhys-Meyers, 28, respectivamente nos papéis de namoradinha-de-um-amigo-meu e tenista-em-crise.

Scarlett, nova-iorquina como Allen, caiu nas graças do diretor: está também em "Scoop" e, segundo revelou, tinha de responder a perguntas indiscretas de Allen nos intervalos da filmagem. "Ele gritava "corta", virava-se para mim e dizia: "E então, como você perdeu sua virgindade?" Era engraçado", revela ela à próxima edição da revista "Spin".

Leia os principais trechos da entrevista com Woody Allen.

Folha - A cada filme que o sr. lança, a crítica diz "É o melhor filme de Woody Allen" ou "Finalmente, Woody Allen volta à boa forma". Como o sr. reage a isso?

Woody Allen - Não pensando nisso. Faço meus filmes, se as pessoas gostam, muito bem, se não gostam, muito bem também. Mas nunca leio nada sobre mim ou os filmes, nunca tomo conhecimento, na verdade, do que estão dizendo. Só faço filmes. Sei que às vezes faço filmes bons e, às vezes, não. [Woody Allen declarara que considera "bons" três filmes seus: "A Rosa Púrpura do Cairo", de 1985, "Maridos e Esposas", de 92, e "Ponto Final".]

Folha - E por que fazer um melodrama que se passa em Londres, seu primeiro filme aí?

Allen - A razão da locação é bastante simples: foi Londres que deu o dinheiro para que o filme fosse feito (risos). Quanto à história, é uma idéia com a qual eu venho brincando faz tempo e que eu sempre achei que fosse uma boa idéia, a do "quadrado amoroso" com um tenista profissional.

Folha - "Ponto Final" é seu filme mais sexy e violento desde os anos 90. É a idade?

Allen - Não, é a idéia. Eu nunca penso nesses termos. Não em sexo ou violência, mas que tal filme é mais quente, outro, mais cerebral. Uso qualquer meio que seja necessário para que a idéia saia do papel e conte a história (risos).

Folha - Há também um clima dostoievskiano, especialmente de "Crime e Castigo", que já inspirou outro filme seu, não?

Allen - Certamente o filme tem uma discussão filosófica que pode ser encontrada no livro russo, sim. Mas eu só introduzo o tema, não chego a desenvolver tão bem quanto Dostoiévski. Nem tinha essa pretensão.

Folha - Seu próximo filme, "Scoop", também foi feito em Londres. Assim como "Ponto Final". O sr. está virando londrino, como Madonna?

Allen - Não, não (risos). É aqui é que me dão dinheiro...

Folha - Hollywood não o está tratando direito?

Allen - Até que eles me tratam bem, quando acham que eu posso trazer dinheiro para eles, o que nem sempre é o caso. Mas eu nunca fiz parte do chamado sistema hollywoodiano, eu trabalho no "sistema nova-iorquino", ou seja, independente, sozinho. Acho, porém, que é justo que eles não queiram perder dinheiro num filme e só me dêem orçamento quando pensam que eu possa dar lucro.

A indústria do cinema norte-americana sempre foi norteada por lucros, não tem nada a ver com arte ou conteúdo. Por isso que todo cineasta americano que se preze têm de sofrer.

Folha - O sr. tem mais liberdade em Londres do que nos Estados Unidos?

Allen - Não, isso não, eu sempre tive liberdade total, seja onde for, desde que comecei a filmar, 40 anos atrás. Nunca ninguém me disse o que escrever, quem escolher para o elenco, sempre tive a palavra final na edição. Se fosse de outra maneira, eu não iria mais ser cineasta. Seria dramaturgo.

Folha - O fato de seu país ter dado uma guinada conservadora sob duas administrações consecutivas do republicano George W. Bush tem algo a ver com esta sua mudança de país?

Allen - Não acho que Bush esteja fazendo um bom trabalho como presidente, mas creio que, não importa quem fosse o presidente, ainda assim eu teria dificuldades em conseguir financiamento para meus filmes nos Estados Unidos.

Folha - Seu filme mereceu quatro indicações do Globo de Ouro; as indicações ao Oscar saem na terça-feira [amanhã]. O sr. se importa com prêmios? Dessa vez, iria à cerimônia da Academia? [Allen foi indicado a 20 Oscar; ganhou três; no primeiro, não apareceu na cerimônia pois acontecia no mesmo dia em que tocava clarinete com sua banda de dixieland, em Nova York.]

Allen - Não me envolvo muito nisso, geralmente não vou a esses eventos porque eu desgosto deles. Acontecem na Califórnia, eu moro em Nova York, tenho de pegar avião, viajar milhares de quilômetros, atrapalhar minha rotina, uma chatice, prefiro ignorar.

Artisticamente, não significam nada, mas os estúdios acham que é importante para a bilheteria. Então, pode ser que eu vá, se me convencerem que aumentará a venda de ingressos...

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