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05/02/2006 - 10h44

"A diligência me atropelou", diz Mario Prata

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PAULO SAMPAIO
da Folha de S.Paulo

Por um momento, o escritor Mario Prata, autor da novela "Bang Bang", das 19h, se sentiu o cocô do cavalo do bandido. "A diligência passou por cima da minha cabeça, tronco e membros." Quase recuperado do massacre, ele conta como recebeu as críticas devastadoras à história, que se passa no Velho Oeste --e tem personagens com nomes em inglês, participação de Pedro 2º, uma cozinheira baiana e uma prostituta japonesa. Prata, 59, escreveu livros, novelas, peças, crônicas e roteiros. Em Florianópolis, onde mora, falou da tendinite que o impossibilita de digitar, da dificuldade de administrar os colaboradores de "Bang Bang", inclusive seu filho, Antônio, e do futuro.

Folha - Por que deixou a novela?

Prata - A Globo me pediu 24 capítulos para estrear, eu fiz. Mas a minha intenção era chegar a 30. Acontece que, depois de três dias escrevendo 16 horas em cada, fui pegar uma garrafa, ela caiu da minha mão. Não tinha força no braço. Já era a tendinite.

Folha - O que você fez?

Prata - Me convenci a duras penas de que seria como pedir demissão de um emprego, e comuniquei à Globo.

Folha - Como eles reagiram?

Prata - A única divergência foi quando disse que iria a um spa médico. Spas, para eles, eram aqueles de emagrecimento. Tiveram medo de abrir precedente.

Folha - Sentiu-se culpado?

Prata - E frustrado também. Passei um e-mail para o Ary Moreira, que substituía o Mário Lúcio Vaz [diretor-geral], na época enfartado, dizendo que estava constrangido de continuar recebendo. Ele foi elegantíssimo, disse que cumpriria o contrato até o fim e ainda me colocou médicos à disposição.

Folha - Acha que se queimou?

Prata - Nunca pensei nisso. Meu nome continua nos créditos, e eles ainda me pagam.

Folha - Qual o erro na novela?

Mario Prata - Ficou pop: muita citação, Beatles, "Yellow Submarine", nomes em inglês. O público de TV aberta é a classe D e E, que nem sempre tem informação para entender. Eu não estava acostumado a explicar a piada.

Folha - Ainda a acompanha?

Prata - Sim, a novela e o Ibope. Sou economista, lido bem com isso. Na verdade, são quatro novelas [rindo]: eu comecei com três colaboradores; saí, entraram mais dois; aí, entrou o [Carlos] Lombardi; saiu, voltaram só os colaboradores. Sempre teve em média 28 pontos de audiência. No período do Lombardi, caiu para 26, mas depois voltou.

Folha - Gosta dela atualmente?

Prata - O Lombardi, que eu admiro muito, matou 15 personagens e tirou a camisa de outros. Ele pegou uma novela escrita por outro, é difícil.

Folha - E a repercussão?

Prata - Disseram que eu tinha sido demitido por causa do meu temperamento irascível. E que a Globo não estava fazendo o que eu queria. Ninguém teve a idéia, básica em jornalismo, de perguntar o telefone do meu ortopedista.

Folha - Como recebeu as críticas?

Prata - Eu acho um sucesso ler três páginas da "Veja" falando mal. Eles amam odiar. E a minha é, pelo visto, a novela mais odiada da história. Um mérito.

Folha - Tentou se defender?

Prata - Se eu escrevesse uma carta para o Roberto [na verdade, o jornalista Ricardo Valladares, crítico de TV da "Veja"], eles iam me "carcar" mais ainda [rindo]. Agora: a "Veja" sempre foi uma revista séria, e dá informações erradas. Fala que a média de audiência das 19h é 35 pontos, quando na verdade é 30. E que a novela vai sair do ar antes do estipulado, 21 de abril. A data é essa desde o início.

Folha - Sentiu-se intelectualmente depreciado?

Prata - A diligência passou por cima da minha cabeça, tronco e membros. Fui parar em um psicanalista pela primeira vez na vida. Dez sessões.

Folha - Sabia que escrever uma novela era tão desgastante?

Prata - Não escrevia uma há 20 anos. Em "Estúpido Cupido", de 1976, escrevia sozinho; cada capítulo tinha 16 laudas. Agora, são cinco pessoas, e cada capítulo tem 42 laudas. Mais complicado.

Folha - Onde complica?

Prata - Eu não sei administrar tanto colaborador. Acordava às 8h, escrevia três laudas do que eu queria no capítulo, mandava para a Márcia [Prates, uma das colaboradoras], que escaletava [separava cena por cena]; aí ela enviava para os outros colaboradores, que faziam os diálogos. Tudo voltava para mim, eu dava o tom --com atenção para não ferir suscetibilidades. [Rindo] Aí, era meia-noite.

Folha - Você chegou a se desentender com seu filho, Antônio?

Prata - Começou a acontecer algo decorrente da minha desorganização. O Antônio me disse: "Pai, eu não escrevo mais se não houver método". Chegou em casa com seis cartolinas e colou na parede: "O capítulo de hoje começa aqui, termina ali", disse. Só que novela é uma obra aberta. Então, de repente, eu tinha uma idéia que não estava nas cartolinas dele.

Folha - Ainda estão brigados?

Prata - Tivemos uma conversa bonita, ele me disse: "Pai, a gente está brigando na vida real por personagens que não existem".

Folha - Você estabeleceu alguma restrição aos colaboradores?

Prata - Era proibido cena em que a mocinha está deitada na cama, com a música-tema dela, e o galã idem, no quarto dele.

Folha - Quem o chamou para escrever "Bang Bang"?

Prata - Essa novela começa há 20 anos. Eu estava fazendo "Helena", na Manchete, e comecei a "viajar": pelas tantas, queria colocar no ar uma picape F-100, em uma história que se passava em 1859. No embalo da piração, escrevi o começo de "Bang Bang".

Folha - Quais os seus planos?

Prata - Posso dizer com letras maiúsculas que nunca mais escrevo novela. Se a Globo topar, faço a sinopse de uma, e a equipe toca.

Folha - Pretende retomar "Bang Bang", caso se recupere?

Prata - Faria os últimos 30 capítulos, mas não sei se me recupero.

Folha - Acha que a emissora vai demorar para ousar de novo?

Prata - "Bang Bang" não é uma ousadia: só uns 10% a mais de abuso. A Globo sabe que está se repetindo. Faz uns dez anos que uma novela não é escalada pela história, mas pelo autor. O Benedito [Ruy Barbosa], que é meu amigo, tem a fórmula. Acontece que daqui a 20 anos, todos (os autores) estarão mortos, inclusive eu. Quem vai escrever?

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