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16/02/2007 - 08h00

Vilão de "Turistas" diz que polêmica é "equivocada"

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LAURA MATTOS
da Folha de S. Paulo

Chega hoje aos cinemas brasileiros o polêmico "Turistas". O filme, dos EUA, foi criticado por contar a história de um grupo de norte-americanos que, em férias no litoral brasileiro, é vítima do tráfico de órgãos.

Na internet, houve campanha para que os brasileiros boicotassem o longa, "que só visa acabar com a nossa imagem".

Divulgação
Ator Miguel Lunardi interpreta o médico Zamora no filme "Turistas", que estréia nesta sexta
Ator Miguel Lunardi interpreta o médico Zamora no filme "Turistas", que estréia nesta sexta
O responsável por arrancar a tripa dos gringos é o médico Zamora, interpretado pelo ator brasileiro Miguel Lunardi --na TV, ele é o soropositivo Gabriel, da novela "Páginas da Vida".

Em entrevista à Folha, por e-mail, Lunardi diz que achou "compreensiva, mas equivocada a reação inicial no Brasil".

"'Turistas' não é sobre o país, mas, se funcionar como se fosse, pode ser uma oportunidade para que nós possamos conhecer também as críticas que, mesmo de forma involuntária e rudimentar, possam ser feitas ao Brasil."

Para o ator, que ainda não assistiu ao filme (lançado no final de 2006 nos EUA), a campanha de boicote nacional "soa ingênua". "Nada obriga os brasileiros a vê-lo, nada pode obrigá-los a não vê-lo. Ele tem o estatuto de qualquer obra de arte: nenhuma obrigação de desfrutá-la. Da minha parte, quem for ao cinema será bem-vindo, não rejeito meu trabalho."

Na TV, o personagem de Lunardi também estreou em meio à polêmica. Especialistas condenaram o modo como Gabriel recebeu o diagnóstico de Aids --o médico não fez exame e foi duro ao lhe dar a notícia. Apesar disso, o ator diz ter um "bom retorno das pessoas".

A respeito da reclamação de atrizes, que consideram seus papéis "pobres", ele é diplomático: "Entrei há pouco, estaria doido de me sentir incomodado. Estou satisfeito até agora."

Ele diz não saber se "Páginas da Vida" (Manoel Carlos), considerada arrastada por críticos, é uma boa novela. "Não sou público assíduo de TV. Prefiro livros, discos, vídeos, internet. Mas sempre gosto de ver quando um ator ou atriz está bem no personagem. Isso compensa qualquer cansaço que o formato novelístico possa apresentar.

Abaixo, leia a íntegra da entrevista.




FOLHA - Como surgiu esse trabalho no filme "Turistas"?

MIGUEL LUNARDI - Fui chamado para os testes e peguei o roteiro para ler em casa. Estudei, gostei e achei que teria o que dizer com o personagem. Fiz o teste e fui escolhido. Ruy Brito foi o produtor de elenco e deve ter se lembrado de minha atuação em "Jenipapo", em que atuei com dois atores do mercado americano, Patrick Bauchau e Henry Czerny.

FOLHA - Você já assistiu ao filme? Qual é a sua expectativa para a estréia no Brasil?

LUNARDI - Ainda não o assisti. Não alimento expectativas. Vou ficar surpreso com qualquer reação. Não creio que seja muito importante. Achei compreensível, mas equivocada aquela reação inicial no Brasil e estou procurando me manter informado do que acontece em torno de seu lançamento por aqui.

FOLHA - Dois atores brasileiros do elenco estão reclamando do cachê e do roteiro, dizem ter sido enganados. O que acha? Você também foi?

LUNARDI - De maneira nenhuma. Essa é muito boa. Não fui vítima de nada, não. Estudei muito bem o roteiro e sempre soube o que estava fazendo e em que condição estava trabalhando. Fui contratado por uma empresa brasileira, de acordo com nossa legislação, tratado com boa educação e, pelo que pude observar, a seriedade dessa produtora brasileira foi total, operando com a maior competência em todos os níveis da produção. Uma experiente e grande equipe de profissionais brasileiros foi mobilizada, paga e muito bem coordenada. Nada tenho a reclamar. Pelo contrário, pude trabalhar com satisfação. É preciso esclarecer que não se trata de uma produção amadora rodada semi-clandestinamente neste país, mas de um filme com reconhecimento e autorização de instâncias legais brasileiras. É verdade que o roteiro continuou a ser escrito depois de iniciadas as filmagens, inclusive para que fossem feitos ajustes de meu personagem a meu tipo físico, mas acho que nada mudou tanto assim. Quanto a cachês e horários, percebo que estamos em um sistema capitalista, e o regime de trabalho em algumas produções inteiramente nacionais, que eu saiba, é o mesmo. De fato, pode "esfolar" um pouco, o capitalismo é um tanto rude, como todos sabemos.

FOLHA - Como é seu papel no filme?

LUNARDI - Bem, fui eu mesmo, em boa parte, o designer da mente do vilão. No imaginário de "Turistas", Zamora é um médico-cirurgião que se revolta contra o tráfico de órgãos em seu país (incidentalmente o Brasil, já que o filme poderia ter sido rodado em outro país), e usa um certo poder de que dispõe para inverter a situação: ao invés de estrangeiros se beneficiarem clandestinamente dos órgãos, na virtualidade desse caso, de cidadãos brasileiros, turistas passam a ser seqüestrados e mortos para a retirada de órgãos para transplantes em brasileiros, um esquema kamikaze que se parece mais com uma denúncia radicalmente cética do mercado negro "existente". Estudando o script, ficou evidente que a loucura de Zamora só faz sentido quando se reconhecem os níveis de articulação do filme. No plano das imagens, nesse plano imediato de apelo de um filme, isso está sendo contado como uma história de sexo e drogas, de tráfico de órgãos, de aliens humanos, de despedaçamento de corpos, de beleza ilusória pela visão sedutora da natureza e dos rostos e corpos nus. Esse é o plano mais superficial, o visível, em que os atos de meu personagem chegam ao extremo da crueldade. Mas em minha mente trabalhei a narrativa também num sentido metafórico, como uma aventura, um conto de fadas para jovens adultos mesmerizados pelo desejo, que quebram a cara no interior de um país estrangeiro, longe do conforto de seus lares. Eles estão na ilusão do gozo absoluto e precisam ser tirados dessa, encontrando uma medida do que seja o real. Só sobreviverá aquele que renunciar ao gozo, que foi buscar irrefletidamente longe de casa, e começar a se virar para salvar a própria pele. No inconsciente de meu personagem, a narrativa revira na metáfora de uma iniciação espiritual em que ele, como um mestre terrível, mas amoroso, restabelece o limite, a fronteira do prazer possível. Procurei fazer de Zamora a interface para essa fantasia desenvolvida ao fundo da correnteza das imagens.

FOLHA - Você acha que os brasileiros deveriam assistir ao filme? Por quê?

LUNARDI - Não assisti ao filme, como já disse, e não tenho como considerar suas qualidades éticas e estéticas. Estou no filme, mas o filme não é meu. Lamento se não gostarem dele. Nada obriga os brasileiros a vê-lo, nada pode obrigá-los a não vê-lo. Ele tem o estatuto de qualquer obra de arte: nenhuma obrigação de desfrutá-la. Da minha parte, as pessoas que forem aos cinemas serão bem-vindas, não rejeito meu próprio trabalho. "Turistas" não é um filme sobre o Brasil, mas se vier a funcionar como se fosse, vou estar atento ao assunto. Pode ser uma oportunidade, quem sabe, para que nós brasileiros possamos conhecer também as críticas que, mesmo de forma involuntária e rudimentar, possam estar sendo feitas a nosso país. A reação mais imediata de não se querer ver o filme porque ele supostamente "denigre a imagem" do país me soa ingênua, como se não se suportasse nenhuma crítica externa sobre o que acontece aqui dentro, bem aquém dessa tal imagem. Mas questões políticas e ideológicas, embora tenham sido profundamente consideradas por mim, não são de minha responsabilidade no filme.

FOLHA - Polêmicas à parte, "Turistas" é um filme bom?

LUNARDI - Não faço a menor idéia. Depende de quem olha, do que é capaz de perceber. Às vezes mesmo numa obra menor, está a semente de algo que irá crescer. Forças ainda invisíveis podem ganhar concretude primeiro em imagens grotescas ou bizarras para depois comparecerem em sua real dimensão, em sua verdadeira beleza. Isso acontece. Estamos em um momento de transformação, de perda de parâmetros, não sei o que é bom ou ruim.

FOLHA - Como está sendo o trabalho em "Páginas da Vida"?

LUNARDI - Pelo retorno que tenho tido das pessoas, correu tudo bem até aqui. Gabriel tem existência própria, tem uma grande questão que não está muito desenvolvida na trama, que está latente, e que é esta de se viver e conviver com o HIV. Como é isso na cabeça de um homem hoje? Não é simples, é difícil de tornar simples, de descomplicar-se mentalmente, em meio aos conceitos médicos e preconceitos pessoais. Gabriel está lutando tanto para viver, quanto para se rearticular emocionalmente.

FOLHA - O que achou das reclamações de atores de que alguns personagens são pobres (Ana Paula Arósio, Renata Sorrah, Leandra Leal, Louise Cardoso e Helena Ranaldi) e de que os textos chegam muito em cima da hora? Você tem algum problema assim?

LUNARDI - Procuro me manter pronto para tudo e não esquentar a cabeça. Não tenho dificuldade com textos entregues na véspera, porque o personagem já existe e, embora esteja mais habituado com longos processos de ensaio, estranho só um pouco a linguagem da televisão e a rapidez do processo de gravação. Agora, quando uma atriz com a experiência e a grandeza de Renata Sorrah, por exemplo, fala (se é que disse isso mesmo, eu não ouvi dela), é preciso prestar atenção. É claro que o tempo é um aliado do ator, que a evolução da personagem é importante. Mas eu entrei agora há pouco, estaria doido de me sentir incomodado. Estou satisfeito até o momento... Não tenho um ideal para o Gabriel.

FOLHA - Polêmicas à parte, "Páginas da Vida" é uma novela boa?

LUNARDI - Não sei. Não sou público assíduo de televisão. Prefiro livros, discos, vídeos, internet. As novelas têm uma função a cumprir junto ao grande público. E há quem meça o quanto esse produto é bom ou não. Mas sempre gosto de ver quando algum ator ou atriz está bem em seu personagem. Isso compensa qualquer cansaço que o formato novelístico possa apresentar.

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