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19/01/2001 - 04h49

Boris Vian, a avis rara pousa no Brasil

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CASSIANO ELEK MACHADO, da Folha de S.Paulo

Os aeroportos culturais brasileiros recebem este ano um objeto voador muito pouco identificável. Está com pouso marcado no país para o início de março o trabalho de Boris Vian, uma das figuras mais originais da intelectualidade do século recém-terminado.

Nascido em 1920, no interior da França, Vian foi romancista, poeta, dramaturgo, trompetista, cantor, compositor, ensaísta, crítico musical, ator e "et ceras" afora. Emplacou até como profeta, ao anunciar na juventude que morreria antes dos 40 anos. O coração levou Vian aos 39 anos, três meses e alguns dias de vida.

Desde então, essa "avis rara", que só tinha projeção no céu do boêmio bairro parisiense Saint-Germain-des-Prés, onde fazia pares e trios com Sartre, Camus e Simone de Beauvoir, ganhou as alturas aqui e ali pelo planeta.

O próximo vôo tem escala no Brasil. Pela primeira vez será publicado no país um livro de poesias de Vian. "Poemas e Canções", lançamento da pequena e valente editora Nankin, chega acompanhado de um CD com versões brasileiras de composições do "faz-tudo" francês.

Livro e disco serão lançados com um espetáculo itinerante da cantora mineira Letícia Coura, responsável pela adaptação de oito canções em CD da gravadora Dabliú (leia abaixo). Também está no horizonte o lançamento de um dossiê sobre Vian na revista literária "Inimigo Rumor", publicação da editora 7 Letras.

Diante do projeto em curso da prestigiada editora francesa Fayard de lançar 16 volumes de 600 páginas com a obra completa do escritor, a armada "vianense" brasileira pode parecer insignificante. A iniciativa nacional tem, no entanto, a virtude de apresentar algumas das marcas mais fortes da produção de Vian, sobretudo seu "lirismo anárquico e humorado", como assinalam o tradutor e o editor das poesias, Ruy Proença e Fábio Weintraub.

Exemplo curto: o poema "Arte Poética". "É óbvio que o poeta escreve/Sob o bordão da inspiração/ Mas em muitos as bordoadas nada surtem." Além desse, o charmoso volume "Poemas e Canções" traz 31 poemas, também em suas versões originais. Faz parte do livro ainda o conjunto bilíngue das canções adaptadas por Coura. Um boa bibliografia e retratos do artista completam a edição.

"O que mais me atrai na obra de Vian é o humor, um humor sarcástico, associado a uma melancolia que vai se acentuando", exprime Proença. Engenheiro, assim como Vian, o poeta e tradutor também chama atenção tanto para o ecletismo do escritor ("ele vai do coloquial até o erudito") quanto para seu vanguardismo. "Vian antecipa um pouco o movimento beat. Ele prenuncia, de modo geral, os movimentos da contracultura dos anos 60", completa.

Bison Ravi (anagrama de Boris Vian, literalmente "bisão extasiado"), como o escritor assina nas suas primeiras publicações, definia essa espécie de pré-contracultura como "literatura infecta".

As autoridades francesas concordavam. Ele teve um romance proibido em 49, recebeu multa de 100 mil francos em 50 por ultraje aos bons costumes e foi condenado a 15 dias de prisão em 53 pela indecência de Vernon Sullivan.

E quem seria Sullivan? Boa parte da crítica francesa da época demorou para descobrir, mas esse era outro pseudônimo de Vian. Seu alter ego norte-americano nasceu quando recebeu a recusa de publicação de um dos seus muitos manuscritos.

"Quer um best seller?", perguntou ao editor Jean d'Halluim, em 1946. "Dê-me dez dias e fabrico um." Não conseguiu cumprir o prazo. Demorou 15 dias. Nascia o romance noir "Vou Cuspir no Seu Túmulo", o primeiro dos três "escritos" por Sullivan e "traduzidos" por Boris Vian.

Com o primeiro romance de codinome americano, Vian fez o "test drive" do sucesso. Não voltaria a pegar essa carona em vida, assim como não cumpriria (agora temos certeza) a sua promessa de ganhar o Nobel de Literatura de 2000. Os bons desempenhos em livrarias só viriam com a ressurreição editorial de um romance de 1947. "Onze de cada dez estudantes franceses hoje lêem "A Espuma dos Dias'", diz Proença.

O romance virou bolha no Brasil. Lançado nos anos 80, assim como "Vou Cuspir no Seu Túmulo", pela editora Nova Fronteira, "A Espuma dos Dias" é figurinha difícil até em sebos.

Evaporou assim como seu criador, que no fim da vida gostava de ser
tratado como "sátrapa".

Esse "título", que alude ao modo como eram chamados líderes políticos na Pérsia Antiga, ele havia recebido no Colégio da Patafísica, extravagante academia inspirada na obra de Alfred "Ubu" Jarry da qual fizeram parte figuras como o comediante americano Groucho Marx e o dramaturgo romeno Eugène Ionesco.

Vian morreu dentro do cinema, assistindo à uma adaptação de "Vou Cuspir no Seu Túmulo". Não se tem notícias de cuspes em seu jazigo, em Paris.
 

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