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15/09/2001 - 16h45

Revista: Cenas de NY lembram incêndio no Joelma

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DÉBORA YURI
da Revista da Folha

Assistir à barbárie que vitimou os EUA na terça-feira fez o economista Mauro Jacintho, 48, respirar mais fundo. A cena que o deixou mais chocado foi a do homem que se jogou do alto de um dos prédios do World Trade Center. Sua queda livre resgatava um terror bem familiar. "Eu fechei os olhos e lembrei de todos os momentos de pânico que vivi há 27 anos", conta.

Mauro é um dos sobreviventes do Joelma, o edifício comercial que pegou fogo no centro de São Paulo, em 1974, deixando 184 mortos. "É claro que há muitas diferenças, mas o fato de ser uma tragédia inesperada, que matou gente que estava trabalhando, é igual", compara. "Estou com as imagens do desespero de todo mundo que estava nos prédios na cabeça até agora."

Mauro, então com 18 anos, lembra que a tragédia começou com um burburinho: "O prédio está pegando fogo!". De início, muita gente não levou a sério, mas 15 minutos depois ninguém mais conseguia descer; o calor aumentava, as labaredas e a fumaça subiam. "As pessoas corriam, choravam, gritavam; alguns se ajoelhavam e rezavam juntos."

Quando a primeira vítima se jogou, o pavor ganhou uma cara conhecida. "Ele era meu colega, alguém que eu via todos os dias, com quem tomava café. Parecia determinado: não falou com ninguém e caminhou em direção a uma janela lateral. Ninguém acreditou quando ele se atirou."

Os sobreviventes se concentraram no 25º andar do Joelma, que tinha saída para dois terraços. Quando botijões de gás começaram a estourar, Mauro diz que agachou-se na laje e fechou os olhos. Enxergou a morte. "Eu pensava, revoltado: 'Pôxa, só cheguei até aqui! Não estou nem no meio do caminho!'. Pensei em tudo que eu queria fazer: estudar, viajar, ver as praias, ter filhos."

A essa altura, homens e mulheres se jogavam do edifício. Para "ocupar a mente e resistir", um grupo começou a vigiar as beiradas do prédio. "Era gente segurando gente. Nós falávamos 'Fica de olho ali', tentávamos impedir as pessoas de se atirar."

A laje do terraço menor ruiu, e todos os que tinham se abrigado lá desabaram num depósito em chamas. No outro, o terraço que resistia, as pessoas temiam que acontecesse o mesmo. "Ficamos ali, num vão de dois metros, encolhidos, tentando aguentar. A pele do meu rosto chamuscava." Uma telha caiu em sua barriga, abrindo um corte fundo. Quando o terraço cedeu, todos desabaram numa laje fervente. Ele desmaiou.

Do salvamento de helicóptero Mauro não lembra direito ("disseram que eu me debatia sem parar, mas eu não sentia mais nada"), só que foi amarrado e dopado. Quando acordou, estava no hospital, com queimaduras de terceiro grau pelo corpo inteiro. Ficou 40 dias internado. Sua pele caiu, ficou desidratado, fez cirurgia de reconstituição dos tecidos.

Dos 47 colegas de departamento, 20 sobreviveram. "Quem passa por isso, seja um incêndio em SP ou um ataque terrorista em NY, fica com o emocional abalado por um bom tempo. Hoje, valorizo as coisas simples: conversar com as pessoas, ficar em casa com a família. Descobri o que tem valor de verdade", diz o economista, que se casou com uma namorada da faculdade e tem um filho de 11 anos.

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