Thriller falho, 'Matem o Presidente' antecipa gestão Trump

Crédito: Jonathan Ernst/Reuters U.S. President Donald Trump, flanked by Interior Secretary Ryan Zinke, Secretary of State Rex Tillerson, and Defense Secretary James Mattis, holds a cabinet meeting at the White House in Washington, U.S., December 20, 2017. REUTERS/Jonathan Ernst ORG XMIT: WAS923
O presidente dos EUA, Donald Trump, durante reunião com seu gabinete

IGOR GIELOW
DE SÃO PAULO

MATEM O PRESIDENTE

  • Preço R$ 44,90 (406 págs.)
  • Autor Sam Bourne
  • Editora Record
  • TRADUÇÃO Clóvis Marques

O presidente norte-americano é um bufão desequilibrado, racista e misógino. Depois de uma troca de ofensas com o ditador da Coreia do Norte, resolve lançar um ataque nuclear contra o país asiático e, de quebra, inclui a China na lista de alvos.

Soa familiar? O mais incrível é que o original de "Matem o Presidente" foi entregue pelo jornalista britânico Jonathan Freedland poucos dias depois de Donald Trump assumir a Presidência e, segundo ele, o texto não foi alterado até sua publicação em junho do ano passado.

Lançado recentemente no Brasil, o thriller merece um exercício: alternar sua leitura com a do livro sobre os bastidores do governo Trump, "Fogo e Fúria" -ainda só disponível em inglês.

O resultado é fascinante. Sob o império da pós-verdade, tudo o que se apresenta em ambas as obras se mostra ao mesmo tempo espantoso e crível. Fora as dúvidas sobre alguns relatos do texto de não ficção, a impressão é de que se está diante de um único grande quadro.

Sob o pseudônimo Sam Bourne, Freedland usa sua experiência pregressa como correspondente em Washington pelo jornal de esquerda britânico "The Guardian" para destilar veneno contra as idiossincrasias da capital, suas intrigas e jequices.

É interessante notar como estamos, brasileiros, acostumados com essa descrição do poder americano, prova do sucesso do "soft power" da indústria cultural.

Anos de Hollywood, "The West Wing", "House of Cards" e afins forjaram familiaridade que não existe com o serpentário análogo que reside no Planalto Central.

O livro de Freedman/Bourne impressiona mais, contudo, pela presciência. A saúde mental do presidente é questionada de largada, seu acesso ao botão nuclear também.

Há alguma hipérbole quando surge uma "Força de Deportação" jogando latinos em ônibus e os despachando para o México, mas quando isso é lido à luz do anúncio do fim do status especial a refugiados salvadorenhos, a hipótese ganha realismo.

Assim como a descrição do entorno do presidente, sabiamente nunca nominado. Aqui o livro conversa com o seu tempo e se mostra feminista: a heroína é Maggie, uma funcionária da Casa Branca remanescente da gestão anterior. Ela descobre uma trama para assassinar o presidente, a fim de evitar que ele acabe com o mundo.

Ela duela com um exército estereotipado de homofóbicos, misóginos e racistas que assessora o líder, a começar por uma figura rasputiniana decalcada da principal fonte de "Fogo e Fúria", o hoje arrependido Steve Bannon.

Ele ocupa papel central no enredo. É um furo na propalada vidência do autor, já que o ex-estrategista de Trump caiu em desgraça rapidamente.

Diferentemente de seus adversários, Maggie não é binária. Seu senso de dever, o de impedir a morte de um presidente, é posto em conflito pela ojeriza que sente por ele.

A construção da conspiração é o centro, mas não o fim do roteiro, que peca porém por um esquematismo que faz o leitor deduzir rapidamente o próximo passo.

Erro mortal num thriller, as revelações acabam não sendo tão bombásticas e o final do livro apela a um "deus ex-machina" que soa forçado.

O livro foi criticado por sugerir morte para Trump já que, ao contrário de outro presidente alvo de atentado na ficção, o Charles de Gaulle em "O Dia do Chacal" (Frederick Forsyth, 1971), o americano está vivo e no poder.

Soa tolo, a exemplo das críticas à atriz Kathy Griffin, que segurou uma cabeça decapitada falsa de Trump em protesto contra seus comentários machistas. É possível ver mau gosto ali, como nos desenhos do pernambucano Gil Vicente matando figuras de autoridade ("Inimigos"), mas falar em apologia ao crime parece um exagero.

De todo modo, numa era de impossibilidades tornadas realidades, talvez seja bom o Serviço Secreto redobrar a atenção. Ainda mais com Freedland/Bourne exercitando seu lado Nostradamus.

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