Descrição de chapéu Crítica

Ficção sobre busca de identidade exalta cultura cabo-verdiana

'Djon África' tem elementos da vida de Miguel Moreira, ator não profissional que dá nome ao filme

Alexandre Agabiti Fernandez

Djon África

  • Quando Estreia nesta quinta (11/10)
  • Classificação 12 anos
  • Elenco Miguel Moreira, Isabel Cardoso, Patricia Soso, Bitori Nha Bibinha
  • Produção Portugal, Brasil, Cabo Verde
  • Direção Filipa Reis e João Miller Guerra

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Primeiro longa-metragem de ficção dos documentaristas portugueses Filipa Reis e João Miller Guerra, "Djon África" é uma narrativa clássica de busca de raízes, de identidade, que acaba se transformando. Apesar de ficcional, a história tem pequenos elementos da vida de Miguel Moreira, o ator não profissional que dá nome ao filme e interpreta o personagem principal.

Nascido em Portugal, de origem cabo-verdiana, Miguel Moreira (que se apresenta como Djon África) foi criado pela avó e nunca conheceu o pai, deportado para o país natal quando o filho era pequeno. O jovem de 25 anos leva uma vida apagada em um subúrbio de Lisboa cortado por viadutos. Não estuda, vive de expedientes –furto em uma loja de roupas, bico como pedreiro–, mas tem ginga, desenvoltura com as moças.

Um dia decide viajar para Cabo Verde para tentar encontrar o pai. Com as poucas informações dadas pela avó, Miguel se lança à aventura. Lá, mergulha na belíssima natureza e no mundo de cores vivas da festiva cultura cabo-verdiana, marcada pela culinária e pela música vibrante, que o filme exalta constantemente.

O hedonismo já é prefigurado durante a viagem de avião, na cena onírica em que Miguel vê bailarinas surgirem dançando no corredor, enquanto as poltronas são ocupadas apenas por mulheres, que o provocam com o olhar.

 

No avião Miguel faz outra constatação: não é considerado cabo-verdiano pelos nativos, por causa do sotaque e por não conhecer o país. Percebe com certa irritação que é sempre um estrangeiro, pois em Portugal tampouco se sentia português. Mas isso não o refreia.

Sem deixar de procurar pelo pai e de ser considerado estrangeiro, Miguel perambula pelas ilhas do arquipélago e vai conhecendo gente e paisagens diferentes –cidades, praias e montanhas–, valorizadas pela fotografia de Vasco Viana, que trabalha a luz com muita sensibilidade, distante de qualquer exotismo.

O encontro mais enriquecedor de Miguel é com uma senhora que vive sozinha nas montanhas e lhe oferece casa e comida em troca de ajuda no trabalho do campo. Falante e cheia de autenticidade, ela encarna a sabedoria antiga, a cultura africana ancestral.

O final é aberto, permite várias interpretações, enfatizando assim que o mais importante da jornada de Miguel é o processo e não o resultado. Um processo de autodescoberta e aprendizado, necessariamente complexo e arriscado, e não um resultado tranquilizador. A beleza desse processo é realçada na última cena, em que Miguel cruza com o pai no meio da multidão na cidade, mas não o vê –a busca talvez era apenas um pretexto ou talvez tenha perdido o sentido–, ao som de uma canção que diz: “Aleluia, alegria, vamos construir um futuro africano”.

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