Madonna eleva status de Eurovision, em edição permeada por política

Evento encampa bandeiras de multiculturalismo e atiça preconceitos

Madonna durante show em Las Vegas

Madonna durante show em Las Vegas Mario Anzuoni/Reuters

Daniela Kresch
Tel Aviv

Maior festival da canção do mundo, o Eurovision tem tanto de música quanto de política. A edição de 2019, com a grande final transmitida neste sábado (18), em Israel, não deixa a desejar no quesito polêmicas que têm pouco a ver com a —nem sempre boa— qualidade musical. 

Os escândalos envolvendo os países participantes (neste ano são 41) começaram assim que o concurso foi criado, em 1956. Afinal, ele foi estabelecido para um fim político: unir a dividida Europa do pós-Guerra. 

O Eurovision deste ano conta com uma produção grandiosa, com um palco de 250 metros quadrados em forma de diamante, com 12 telas móveis.

A supermodelo Bar Refaeli, ex de Leonardo DiCaprio, é uma das apresentadoras, e a cantora Madonna já está no país para uma performance na final, onde cantará seu mais recente single, “Future”, lançado nesta sexta (17), e o hit “Like a Prayer”.

Após algumas semanas de complicações ligadas ao rigoroso contrato exigido pela EBU, produtora do Eurovision, a diva pop chegou a ser barrada em um dos ensaios na última quinta (16), mas o entrave foi resolvido.

A presença de Madonna elevou o status de uma edição permeada por política. Os palestinos anunciaram que vão fazer um evento alternativo paralelo, com transmissão online, chamado Globalvision. A ideia é transmitir espetáculos de Londres, Dublin, em Ramallah, na Cisjordânia, e na cidade israelense de Haifa, com com participação de músicos palestinos e de outras localidades, como o cantor britânico Brian Eno. 

Enquanto o movimento BDS (Boicote, Desinvestimento e Sanções) busca azedar o evento, a ONG israelense Quebrando o Silêncio, contrária à ocupação de regiões reivindicadas por palestinos, pendurou um enorme cartaz em Tel Aviv ironizando o slogan do evento (“Ouse sonhar”): “Ouse sonhar com a liberdade”, diz o anúncio, que mostra as praias da cidade de um lado e um posto de controle israelense na Cisjordânia de outro.

A organização israelense está de olhos e ouvidos atentos, não só para atentados durante a final do concurso como para ataques cibernéticos. A transmissão online da primeira semifinal do Eurovision, no dia 14, foi hackeada. Imagens de explosões em Tel Aviv substituíram o streaming ao vivo. O regulamento preconiza que o festival não deve ser, em hipótese alguma, politizado ou instrumentalizado.

Mas a regra nem sempre é seguida. Em 2016, a canção vencedora foi “1944”, da Ucrânia, com letra relembra as deportações forçadas dos povos tártaros por Stalin naquele ano, numa alusão à recente invasão russa da Crimeia. 

Em 2009, a delegação da Geórgia causou mal-estar ao enviar uma canção com título nada sutil: “We Don’t Wanna Put In”, um trocadilho com o nome do presidente russo.

O Eurovision começou solene e tradicional, mas hoje encampa bandeiras de diversidade e também de multiculturalismo, o que atiça preconceitos. Uma das vítimas é representante da França, Bilal Hassani, 19, cabelos platinados e escorridos, filho de imigrantes marroquinos, que recebeu ameaças de morte. 

Neste ano, um apresentador de TV da Bielorrússia reclamou ao vivo de beijos gays mostrados durante a primeira semifinal, na terça-feira (14). Em 2013, a Turquia barrou a transmissão do Eurovision pelo mesmo motivo.

O festival também se tornou um instrumento de soft power, com governantes em busca de legitimidade ao promover uma imagem positiva. Em 1960, por exemplo, a Espanha do general Franco foi anfitriã de um Eurovision ultranacionalista, boicotado por alguns países. 

Em Israel, sempre que o país cai para as últimas posições na votação, surgem teorias conspiratórias de “antissemitismo” na Europa. Mas a vitória de uma israelense no ano passado, a rapper Netta Barzilai, recobrou esperanças de que basta uma boa canção para vencer.

Eurovision
A partir das 16h, no canal pago TVE

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