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Cinema

Documentário 'Relatos do Front' ajuda a entender o Brasil de 2019

Filme de Renato Martins aborda a precariedade da segurança pública no estado do Rio

Naief Haddad

Relatos do Front

  • Quando Estreia nesta quinta (20)
  • Classificação 12 anos
  • Produção Brasil, 2018
  • Direção Renato Martins. 100 min.

Veja salas e horários de exibição

A estreia de “Relatos do Front” acontece em um momento propício. São dias em que o Congresso debate os decretos do governo federal que flexibilizam o porte e a posse de armas no país. 

O foco do documentário dirigido por Renato Martins (“Geraldinos) não é exatamente esse. Aborda a precariedade da segurança pública no estado do Rio. Mas as reflexões expostas pelo filme deixam claro que propostas dessa natureza não são assunto para ser tratado de forma leviana, como tem acontecido.
Mas os méritos da produção vão bem além desse timing. 

Cena de "Relatos do Front - Fragmentos de uma Tragédia Brasileira"
Cena do documentário 'Relatos do Front' - Divulgação

Em geral, documentários resultam enfadonhos quando acumulam muitos depoimentos. “Relatos do Front” consegue ser uma exceção.

As dezenas de comentários não tornam o filme cansativo porque quase todos os entrevistados têm contribuições valiosas sobre o tema. Além disso, existe uma variedade de perfis.

Há antropólogos, cientistas sociais, jornalistas, psicóloga. E ainda policiais, advogado, juiz, desembargador. Essa busca por diferentes referências enriquece o debate.

“A brutalidade policial não existiria se não houvesse a autorização tácita da sociedade, que se traduz em apoio a governantes que endossam essa política”, afirma o antropólogo Luiz Eduardo Soares.

Minutos depois, quem fala é Beto Chaves, inspetor da Polícia Civil. “Nós [policiais] não somos cachorros, não somos capitães do mato. Mas é o que muitas vezes parece, não é? Estamos correndo atrás dos negros fujões nos quilombos contemporâneos, que são as nossas favelas”, diz. 

Comentários assim formam uma espécie de núcleo analítico, que compõe o filme junto com um conjunto de imagens e depoimentos de forte carga emocional.

É um recurso óbvio para um documentário com esse propósito, mas não deixam de ser comoventes os lamentos das mulheres que perderam seus filhos nos conflitos nas favelas. Algumas são mães de policiais, outras mães de jovens mortos pela polícia.

Vem dessa relação de mãe e filho a imagem mais contundente. Um corpo com marcas de sangue está estendido numa viela muito estreita. O diretor evita o sensacionalismo de mostrar detalhes do cadáver, concentra-se nas reações dos que passam por ali. Entre os transeuntes, um garoto de uniforme escolar que teve os olhos vendados pela mãe.

Martins também usa imagens do cinegrafista Jadson Marques que mostram os conflitos bem de perto. Algumas são chocantes e, por isso, poderiam ter sido usadas com mais parcimônia. 

São excessos pontuais, contudo. “Relatos do Front” cumpre papel importante ao nos ajudar a entender não só o Rio, mas o Brasil de 2019. 
 

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