Descrição de chapéu Artes Cênicas

Peça ilumina lado fanfarrão de são Francisco de Assis, que abalou o rigor da Igreja

Nova montagem da obra, inspirada em contos populares sobre o santo católico, o retrata como bufão

Maria Luísa Barsanelli
São Paulo

Mestre bufão, um tanto anárquico e blasfemo, o dramaturgo Dario Fo acabou encontrando um de seus melhores pares na figura de um santo católico. Não como ele foi pintado pela Igreja —afinal, o autor italiano era crítico ferrenho do clérigo—, mas justamente pelo lado irreverente e fanfarrão de são Francisco de Assis.

Em “Francesco”, um de seus últimos textos teatrais, Fo se inspirou nos contos populares sobre o santo, frade que viveu na Itália entre os séculos 12 e 13. Alguns desses escritos ficaram por anos proibidos pela igreja, que recriou parte de sua história, tentou “santificá-la” um pouco mais. Já na peça, a ideia do santo mártir dá lugar a uma figura mais humana, política e um tanto jocosa. Estão lá o episódio em que Francisco ficou nu dentro de uma igreja e seus embates com altos membros do clero. 

“Ele era contra o dinheiro, a burguesia, essa coisa toda. E claro que o Dario iria se apaixonar por isso, né?”, diz Neyde Veneziano, especialista na obra de Fo e diretora da montagem brasileira do texto, que estreia nesta semana.

Veneziano acompanhou uma dezena de sessões da montagem original peça, no início dos anos 2000, quando fazia seu pós-doutorado sobre Fo na Itália. O dramaturgo acabara de escrever sua primeira versão do texto e viajava por cidadezinhas apresentando o monólogo e conversando com a plateia sobre sua pesquisa de são Francisco.

Nascido em família abastada, o santo teve uma juventude irrequieta e um tanto conturbada até decidir se voltar à vida religiosa. Abdicou de posses e dinheiro e irritou políticos e religiosos por ir contra as Cruzadas, já que não acreditava na violência do movimento, e por disseminar o evangelho de um modo popular, simples, sem a impostação e o distanciamento que a Igreja determinava naquela época.

“Ele realmente levava o evangelho para o povo. Conseguia atingir as pessoas falando na linguagem deles”, diz o ator Paulo Goulart Filho, que interpreta o santo e outros papéis na nova montagem.

Tanto que Francisco é descrito a todo tempo como o “jogral de Deus”. Jograis eram comediantes de rua, típicos da Europa medieval, que iam de aldeia em aldeia contando causos. Enfim, um bufão, como Fo sempre gostou de retratar em sua obra, marcada pela crítica política e social e pela busca da linguagem popular, cômica e próxima do clownesco —um resgate da literatura oral e popular que lhe rendeu o Nobel de Literatura em 1997.

Não à toa é esse o tom que Goulart busca em cena. O ator transita a todo momento entre o santo e os demais personagens, criando gestos e tons de voz específicos para cada um deles. “É um baita exercício de ator, porque tem que parecer uma brincadeira, uma coisa fácil, mas é extremamente técnico”, diz ele.

Na visão de Veneziano, é um texto menos conhecido, mas “tão importante ou mais” que obras consagradas do italiano, como “Mistero Buffo”, de 1969. Esta, por sinal, ganhou elogiada montagem da diretora há sete anos, com Domingos Montagner e Fernando Sampaio, da Cia. LaMínima, no elenco.

A diretora, a princípio, planejava montar “Francesco” com Montagner, mas o ator morreu em setembro de 2016, depois de se afogar no rio São Francisco. “Morreram os dois, o ator e o projeto”, comenta ela. Um mês depois, morreria Fo, aos 90.

A montagem que se vê por aqui, retomada depois do encontro da diretora com Goulart, é a segunda versão do texto. Foi feita depois de o argentino Jorge Mario Bergoglio, o papa Francisco, assumir o papado há seis anos. 

“Ele [Fo] mudou começo, sobre a juventude do Francisco, em que ele parecia mais maluquinho, respeitou ainda mais a figura dele”, explica Veneziano, que recebeu o texto em dialeto umbro, depois traduzido ao português por Sérgio Casoy —como bem mandava a pesquisa popular de Fo, ele escreveu a peça no falar da Umbria, região onde fica Assis, a cidade natal do santo.

“E também Dario, que antigamente era chamado de ‘um cômico em revolta’, a esta altura já estava mais velho também. Estava mais da paz.”
 

Francesco

  • Quando De 8/8 a 31/8. Qui. a sáb. e seg., às 20h, dom., às 18h.
  • Onde CCBB - r. Álvares Penteado, 112
  • Preço R$ 20
  • Classificação 14 anos

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