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'Casamento às Cegas' e 'The Circle' abrem era dos realities que isolam participantes

Programas da Netflix desmantelam fórmula clássica do gênero para responder às dinâmicas das redes sociais

São Paulo

No início dos anos 2000, criar um reality show parecia simples. Bastava escalar uma dúzia de barraqueiros em potencial, prender todo mundo entre quatro paredes —muito bem vigiadas por microfones e câmeras, é claro — e esperar até que o tal entretenimento de qualidade surgisse na tela.

Mas, na era das redes sociais, em que cada um pode fazer de sua própria vida um reality, as regras do jogo parecem ter mudado.

Ao longo da última década, os realities incorporaram cada vez mais ferramentas próprias do mundo virtual. Do “queridômetro”, um índice de popularidade diário medido em emojis, introduzido pelo “Big Brother Brasil” há três anos, até uma edição em que metade dos participantes são influenciadores digitais, como a atual.

A Netflix parece ter ido além, no entanto. Em “Casamento às Cegas” e “The Circle”, ela vai contra o princípio mais básico dos reality shows e isola os competidores em cômodos diferentes por alguns episódios ou pela duração inteira da série —isso antes que a pandemia de coronavírus forçasse o resto da humanidade a fazer o mesmo.

Nos dois casos, a separação física dos participantes é uma reação direta às redes sociais. A premissa de “Casamento às Cegas” é que, ao privilegiarem as aparências físicas, o Tinder e aplicativos de namoro estão arruinando os relacionamentos amorosos.

A solução do programa para essa angústia contemporânea é, então, submeter os competidores a encontros às cegas em que vendas não são suficientes. Mulheres e homens são separados em alas. Por dez dias, conversam com suas possíveis almas gêmeas de cabines estofadas, à prova de som, por meio de um sistema de alto-falantes.

Acredite ou não, alguns precisam de menos tempo do que isso para se apaixonar. É só depois de noivarem, no entanto, que eles se encontram pessoalmente. A partir dali, têm 30 dias para descobrir se os papos apaixonados das salinhas sobrevivem à vida real. E decidir, na frente de familiares, amigos e muitas câmeras, dizer o “sim” decisivo.

“The Circle”, por outro lado, é radical ao abraçar as dinâmicas das redes.

Na franquia, britânica na origem e disponível na Netflix em suas versões americana e brasileira, os participantes, alocados cada um num apartamento com decoração instagramável, devem competir por popularidade numa rede social ativada por voz —apesar de, como aponta a pesquisadora e coordenadora de cursos audiovisuais da Unicuritiba, Lucina Viana, o recurso ser claramente controlado pela produção do programa.

Para vencer, vale tudo. Inclusive fingir ser uma pessoa diferente daquela da vida real. No caso da versão americana, isso se traduziu tanto em concorrentes comprometidos que mentiram sobre estar solteiros para poder flertar livremente, quanto em extremos como um homem que decidiu usar a própria namorada como avatar.

O que surpreende em “The Circle” é que os jogadores logo ficam obcecados não em alcançar a fama, mas em descobrir se seus pares são ou não são pessoas reais.

Nos episódios iniciais, um participante mais ingênuo é considerado bonzinho demais para ser confiável, e uma modelo é expulsa do jogo porque ninguém acredita que ela possa ser tão bonita quanto sua imagem de perfil mostra. Os comportamentos, aliás, se repetem nas produções americana e brasileira do reality, com elencos que repetem os mesmos estereótipos —o gay, a princesinha, o atleta, a despojada.

Segundo Paula Sibilia, autora do livro “O Show do Eu: A Intimidade como Espetáculo” e professora da pós-graduação em comunicação da Universidade Federal Fluminense, no entanto, essa paranoia dos participantes é bem previsível. “Tanto nas redes sociais como nesses programas, sabemos que tudo é meio fake. Mas há um delicado limite que não se pode extrapolar nessa encenação do próprio personagem”, diz.

Ela compara essa lógica à da publicidade, “enganosa por definição”, mas que não pode ser “enganosa demais”. “Nesse caso será punida do jeito que mais dói —o consumidor não comprará o produto exposto e colocará uma nota baixa que derrubará o ibope tão primorosamente levantado.”

Não param por aí os laços entre a publicidade, os reality shows e as redes sociais. A pesquisadora Lucina Viana afirma que parte do sucesso de “Casamento às Cegas” e “The Circle” se deve ao fato de que, como outras produções da Netflix, elas analisam dados da plataforma e das redes sociais para se tornarem mais maratonáveis.

É isso que explica porque “The Circle” parece não dar um minuto de sossego aos competidores, a televisão falante pedindo que eles interajam ao menos três vezes por dia. E porque “Casamento às Cegas” mais parece um remix de uma série de realities de namoro — suas diferentes fases remetem, nesta ordem, a “De Férias com o Ex”, “Casamento à Primeira Vista” e “O Vestido Ideal”.

Essas construções narrativas, tão frenéticas quanto viciantes, também ajudam a entender a sobrevivência do formato do reality show numa era em que qualquer um só precisa de uma câmera de celular para se expor. Só a Netflix, por exemplo, cresceu em 17% o número de programas originais do gênero que lançou entre 2018 e 2019, de 18 para 21. Este ano, já foram nove.

Resta se perguntar qual das respostas dos dois realities ao peso excessivo das redes sociais é mais bem-sucedida —afinal, adotar a lógica da internet, como faz o “The Circle” é a solução? Ou rejeitar a ideia por completo, como fazem os participantes de “Casamento às Cegas”, promete levar a uma vida mais feliz?

A depender do público, a resposta ainda não é clara. Embora seja difícil obter números concretos, já que a Netflix não publica relatórios de audiência, os dois programas têm sido bem-sucedidos. “Casamento às Cegas” chegou rapidamente aos “trending topics” do Twitter e originou memes sem fim. E o “The Circle” brasileiro ocupava, até semana passada, o quarto lugar no ranking diário nacional da plataforma.

Paula Sibilia, estudiosa do assunto, acha, porém, que mesmo “Casamento às Cegas” não consegue fugir do raciocínio das relações virtuais.

Afinal, ela afirma, mesmo que não enxerguem um ao outro, seus protagonistas estão sendo voluntariamente vistos e avaliados por muitos olhos estranhos.

E, ao contrário do personagem de Jim Carrey em “O Show de Truman”, de 1998, um dos primeiros filmes a abordar o universo dos reality shows, eles consentem com a ideia de que viraram, eles mesmos, um espetáculo.

Casamento às Cegas

  • Onde Disponível na Netflix
  • Classificação 16 anos

The Circle EUA

  • Onde Disponível na Netflix
  • Classificação 16 anos

The Circle Brasil

  • Onde Disponível na Netflix
  • Classificação 12 anos
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