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Cinema

Longa sobre Milos Forman falha ao explorar pouco a vida do cineasta

Documentário dá impressão de que censura afeta mais os cineastas de hoje do que os jovens da nouvelle vague de 1960

Forman vs. Forman

  • Quando sábado (26), às 13h
  • Onde online (www.etudoverdade.com.br)
  • Produção República Tcheca, França; 2019
  • Direção Helena Trestiková e Jakub Hejna

Não é justo dizer que o personagem interessa mais que o cineasta em “Forman vs. Forman”. Afinal, não fosse Milos Forman (1932-2018) quem foi no cinema, talvez sua incrível trajetória permanecesse escondida para sempre.

E o que traça esse documentário de Helena Trestiková e Jakub Hejna é antes de tudo a trajetória de um homem que passou, por diversos motivos, por momentos cruciais da história tcheca, desde que os nazistas invadiram seu país, em 1939, e levam seus pais para campos de concentração, onde morreriam (não por serem judeus, mas por oposição aos invasores).

Segue-se a adolescência e o período de formação, sob o regime comunista. Do momento em que se torna cineasta isso lhe parece até bom: ter um inimigo em comum, dirá, isso foi a marca da geração de cineastas tchecos surgida nos anos 1960. Inimigos centrais: a falsidade dos filmes do realismo socialistas (“eu queria ver gente de verdade nas telas”) e o jogo de esconde-esconde com os censores.

Mas esse jogo, diz ele, tinha algo de divertido. E, driblando os censores, faz sucesso internacionalmente com “Os Amores de uma Loira” (1965). Mais estranho seria o destino de “O Baile dos Bombeiros” (1967).

Proibido pela censura, liberado depois da subida do comunista liberal Dubcek ao poder, impedido de passar no Festival de Cannes —cancelado por conta da revolta estudantil de Maio de 1968— o filme ficou num certo limbo, assim como Forman, já que pouco depois a URSS invadiu seu país e pôs fim à Primavera de Praga.

É então que Forman embarca para os EUA, decidido a não mais ver o seu país. Não era tão simples, mas afinal, em 1975 ele faz “Um Estranho no Ninho”. História de Ken Kesey se passava em uma instituição psiquiátrica. E o cineasta logo percebeu ali uma perfeita metáfora da Tchecoslováquia sob o Partido Comunista.

Daí seguem-se o Oscar por esse filme, outro Oscar por “Amadeus”, filmes ora mais ora menos bem recebidos, mas nunca irrelevantes. Por fim, cai o socialismo na Tchecoslováquia e sobe ao poder seu ex-colega de colégio Vlacav Havel, promovendo uma reconciliação final entre o cineasta e seu país.

Tudo muito bem. Mas quem foi Milos Forman? O documentário de Helena Trestiková e Jakub Hejna tem pouco a dizer a respeito. Com exceção do período de profunda depressão que marca seus primeiros anos nos Estados Unidos, Forman é alguém que passa pelos acontecimentos mais radicais de forma quase indiferente.

Não que tenha sido assim, mas em linhas gerais o documentário fala mais sobre a história da hoje República Tcheca (e depois Hollywood e marginalmente os EUA) pela qual passa um personagem razoavelmente ilustre do que propriamente de Milos Forman.

É para sair do filme com o sentimento de ter aprendido alguma coisa sobre o mundo, o cinema e o sentimento de liberdade (algo que percorre a vida de Forman). Mas dá também para sentir certa frustração: tanta documentação nos remete a uma série de questões (o que é ser exilado, o que é perder suas raízes, ou reencontrá-las inesperadamente?) pelas quais o filme passa relatorialmente.

Não se vislumbra ponto de vista: tudo se organiza em torno da necessidade de juntar todo o material possível numa ordem que, em linhas gerais, nos mostre o trajeto de Forman no estilo “do feto ao túmulo”. Parece que a falta de censura afeta mais os cineastas de hoje do que a censura atrapalhava os ousados jovens da nouvelle vague tcheca dos anos 1960.

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