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Cinema

Filme 'Colectiv' sobre incêndio em boate é política pura e fascinante

Documentário é costurado pela lembrança da tragédia romena, encarnada na figura de uma jovem gótica desfigurada

Colectiv

  • Quando Nesta sexta (25) até meia-noite.
  • Onde streaming do festival É Tudo Verdade (www.etudoverdade.com.br)
  • Produção Romênia, 2019
  • Direção Alexander Nanau

Um incêndio mata jovens num show dentro de um clube sem condições de segurança. Multidões vão à rua protestar contra os serviços do governo. Jornalistas expõem mazelas do Estado, mudanças se ensaiam, mas tudo volta ao antigo normal.

Boate Kiss? Junho de 2013? Escândalos políticos? Não, mas poderia ser, e esse é o apelo universal do impressionante documentário “Colectiv”, do romeno Alexander Nanau. Obra do ano passado, ela estará disponível online nesta sexta (25) no festival É Tudo Verdade.

O título remete ao nome de uma boate que pegou fogo em 2015, sob circunstâncias semelhantes à da tragédia brasileira ocorrida em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, dois anos antes.

Uma banda encerrou seu show com uma demonstração pirotécnica tosca num ambiente sem saídas de emergência suficientes. Resultado, 27 mortos e 180 feridos. Mas a desgraça é só um McGuffin, o artifício hitchcockiano que escamoteia o real sentido da trama.

E ela é ainda mais sombria, ainda que o impacto do vídeo do incêndio seja grande e os efeitos do incidente permeiem todo o filme.

Além das questões de fiscalização, houve 37 mortes subsequentes ao em hospitais.

A maioria, por infecção, enquanto o governo evitava mandar pacientes graves para países vizinhos, mais bem equipados, por uma questão de imagem política.

Numa nação que vive espremida entre sua herança ditatorial comunista e uma democracia capenga e corrupta, coube a um jornal de esportes disparar a revolta popular.

Liderados por Catalin Tolontan, editor-chefe da Gazeta Esportiva, de Bucareste, repórteres descobrem que os desinfetantes usados nos hospitais do país tinham diluição dez vezes acima do que deveriam por lei.

À soberba do governo emergiu uma rocambolesca trama ligando o fabricante monopolista dos desinfetantes (que aparece morto de forma suspeita), máfias locais e diretores de hospitais, com direitos a firmas offshore e tudo com que o brasileiro se acostumou nos últimos anos.

Resultado –gente nas ruas e o gabinete governista sendo substituído por um grupo de tecnocratas que segurariam a onda até a eleição no fim de 2016.

Até aqui, o filme parecia destinado a ser mais uma hagiografia de jornalistas heroicos contra o sistema, algo sempre sujeito a glamorização indevida, mas ele ganha uma adição espetacular.

O novo ministro da Saúde, um jovem que não estaria deslocado na força-tarefa da Lava Jato em termos de voluntarismo, deu acesso total a Nanau.

Assim, reuniões incrivelmente francas sobre como lidar com a crise, com a imprensa e contra o tal do sistema são vistas por dentro.

É política crua, no pior sentido, mas fascinante. Claro, o ministro Vlad Voiculescu sabia que estava sendo gravado, e isso gera suspeita sobre tal pureza de princípios. Ele tentou se lançar, sem sucesso, na política depois —e o documentário não passa por isso.

A narrativa de Nanau é uma aula de edição. Ele gastou 18 meses montando 14 meses de gravações. Não há nenhuma entrevista, nenhum texto, nenhum “off”. A história é montada cronologicamente, como se fosse um filme de ficção.

A ambição tem preço, e muitas vezes uma legenda sobre quem é quem ou com um pouco de contexto ajudaria bastante. Mas o resultado geral é funcional, ainda que monocórdico e por vezes cansativo.

A costura é pontuada pela lembrança da tragédia, encarnada na figura esquálida de Tedy Ursuleanu, uma jovem gótica horrivelmente desfigurada pelo fogo.

Ela acaba se aproximando do ministro, e uma arrepiante exposição de fotografias revelando seu corpo mutilado acaba parando dentro do gabinete de Voiculesco.

Pais de jovens mortos também surgem, culminando numa tocante cena final, que dá a dimensão humana da exposição de mazelas do Estado.

Em lados opostos, Tontolan e Voiculesco são os heróis do drama na tela. O ministro vira alvo de uma campanha de difamação pela mídia amiga do antigo regime, e a eleição por fim traz uma revoltante vitória consagradora dos governantes de outrora.

O diretor poupa o espectador de suas visões explicitamente, mas em entrevistas comentando seu trabalho já sob o impacto da pandemia, fez paralelos entre seu país e o Brasil de Jair Bolsonaro ou os Estados Unidos de Donald Trump. Com o que “Colectiv” mostra, nem precisaria.

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