Descrição de chapéu humor

Paulo Gustavo adorava sapatos, dizia ser viciado e dono de 180 pares

Já bem-sucedido em 2014, humorista afirmou à Folha estar maduro pois viajava e voltava com 2 malas, e não mais com 5

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Karla Monteiro
Rio de Janeiro

Aos 35 anos, em 2014, Paulo Gustavo já acumulava sucessos na carreira: "Minha Mãe É uma Peça", "220 Volts", "Vai que Cola", entre outros.

Em maio daquele ano, o humorista conversou com a Folha e se classificou como consumista confesso. "Adoro sapatos. Sou viciado. Tenho 180 pares."

Veja abaixo a reportagem completa.

O cenário não poderia ser mais sem graça: a praça de alimentação de um shopping no Rio de Janeiro. O humorista Paulo Gustavo, porém, dispensa cenário. Faz rir mesmo quando não quer. Já passava das 20h de uma terça chuvosa quando ele surgiu de boné, bermuda, camiseta e tênis de oncinha da marca francesa Louboutin. Nem bem se sentou e já apareceu uma fã.

"Lindo, maravilhoso, eu te adoro", disse a mulher, esfuziante. E emendou o elogio com uma questão pragmática: "Você sabe onde é a Livraria da Travessa?". Entre agradecer os adjetivos e fornecer a informação, Paulo Gustavo soltou: "Depois me perguntam de onde tiro as personagens. 'Te adoro, onde é a Travessa?' O que é isso senão uma personagem?"

Colhendo tipos e destilando humor, ele se tornou um dos humoristas mais bem-sucedidos da sua geração. No cinema, estreia na próxima semana o filme "Os Homens São de Marte... E É Pra Lá que Eu Vou", em que faz o sócio da protagonista (Mônica Martelli), numa empresa de casamentos. "A Mônica me disse: 'Fique livre para inserir piadas'. Aquele é muito o meu humor."

Em junho, inicia a turnê do novo trabalho no teatro, "220 Volts", só com as personagens femininas do programa do Multishow, que estreou em 2011 e já teve quatro temporadas. É um desfile de mulheres absurdas, da "bonitinha carente" à "mulata classe C". Antes mesmo de ficar pronto, o espetáculo tem contratos fechados para os próximos dois anos.

Aos 35 anos, nascido em Niterói, no Rio de Janeiro, Paulo Gustavo acumula superlativos desde que começou a carreira. "Minha Mãe É uma Peça", um de seus primeiros trabalhos, de 2006, que escreveu, dirigiu e em que atua, já levou mais de 3 milhões de pessoas ao teatro e está em cartaz, entre idas e vindas, há nove anos. O filme homônimo levou quase 5 milhões de espectadores ao cinema, a maior bilheteria brasileira de 2013.

"Não faço mais minhas peças em teatros normais. Faço em casas de show, para plateias de 5.000, 10 mil pessoas."

Outro arrasa quarteirão é o programa "Vai que Cola", também do Multishow. A primeira temporada foi vista por 14 milhões de telespectadores, a maior audiência de um programa de humor na história da TV paga. Em novembro, ele começa a rodar "Vai que Cola" para o cinema. Entre os projetos futuros, estão também um filme com Daniel Filho e um programa de auditório.

O encontro foi marcado no shopping por conveniência —ele tinha um compromisso profissional ali—, mas Paulo Gustavo é um consumista confesso. "Adoro sapatos. Sou viciado. Tenho 180 pares", diz. "Antes, viajava e voltava com cinco malas. Agora, estou mais maduro, volto com duas. Mas só coisa boa, carésima. Sou apaixonado por Louboutin."

Segundo ele, comprar muito é uma sequela da pobreza. "Eu não tinha dinheiro para nada. Agora, compro tudo o que eu posso", confessa, revelando que seu salário no Multishow está "no nível do Tony Ramos", mas sem entrar em cifras.

A última conquista foi uma personal chef: "Emagreci sete quilos em dois meses. Tudo sem glúten, sem lactose. Eu era todo trabalhado no McDonald's".

Ele ainda mora com a mãe, Déa Lúcia, em Niterói. Diz que de lá não sai, nem amarrado. Déa criou dois filhos trabalhando como animadora cultural de escolas públicas e cantando na noite. Sobre a fama do filho, desdenha: "Famoso é Jesus Cristo. Paulo Gustavo é ralador". Segundo conta, o humorista histriônico foi um garoto tímido: "Ainda é. Mas, quando sobe no palco, se expande".

O dom de fazer rir é herança familiar: "Minha mãe é muito engraçada. E meu pai, se não fosse funcionário público, seria comediante. Tinha essa coisa de imitar os parentes nas festas de família".

A carreira de Paulo começou na Casa das Artes de Laranjeiras (CAL), onde se formou em teatro e conheceu Fábio Porchat. A dupla montou o primeiro espetáculo, em 2005, "Infraturas". "Foi uma grande estreia e a gente não era nada. Quando abriu a cortina, estavam lá Barbara Heliodora, Lilia Cabral e Diogo Vilela."

O sucesso, porém, resumiu-se à primeira noite. "Infraturas" foi um fracasso de público. "Teve uma noite em que perguntei quem eram as quatro pessoas na plateia. Quando Fábio disse que eram a namorada e uns familiares, falei: 'Gente, vamos tomar um chope, na boa, já deu'."

Com o fim do dueto, o humorista se viu sem dinheiro e sem trabalho. "A Ingrid Guimarães já era minha amiga. A gente ia jantar e eu dizia que não estava com fome", conta. "Um dia, percebi que precisava de um mínimo até para andar com essas pessoas. Foi aí que tive a ideia do monólogo inspirado na minha mãe."

Uma década depois, está em cima do salto. Não gosta de dar entrevistas e se permite recusar convites. "Tenho horror de ser convidado de programa de auditório. Sento e o cara diz: 'Conta aquela do avião'. Tenho vontade de dar na cara."

Com o público lotando teatros e cinemas para vê-lo, Paulo Gustavo se deu o direito de dizer não para a Globo algumas vezes. "Para mim, não interessa agora trabalhar num lugar onde não tenho autonomia", diz. "Não tenho mais medo de não ser chamado. Tenho 10 mil pessoas na plateia. Mas não acredito no sucesso. Se acreditar, deixo de ser essa pessoa que me fez virar o que eu sou."

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