Descrição de chapéu Venezuela Governo Bolsonaro

Brasil e EUA reconhecem Juan Guaidó como presidente interino da Venezuela

O deputado de 35 anos é o presidente da Assembleia Nacional e um opositor do ditador Nicolás Maduro

Iván Duque, presidente da Colômbia, Jair Bolsonaro, presidente do Brasil, e outros líderes, dão declaração sobre Bolsonaro em Davos
Da esquerda para a direita: a chanceler do Canadá (Chrystia Freeland), a vice-presidente do Peru (Mercedes Aráoz) e os presidente da Colômbia (Iván Duque) e do Brasil (Jair Bolsonaro) durante o anúncio em Davos - Luciana Coelho/Folhapress
Luciana Coelho Maria Cristina Frias Lucas Neves
Davos

O Brasil, em conjunto com 12 países da região, reconheceu nesta quarta-feira (23) Juan Guaidó como presidente interino da Venezuela pouco depois de o deputado se proclamar presidente durante manifestação que reuniu milhares de pessoas em Caracas para protestar contra o ditador Nicolás Maduro.

"O Itamaraty acabou de emitir uma nota reconhecendo Juan Guaidó como presidente da Venezuela, e o Brasil, juntamente com os demais países do Grupo de Lima, que estão reconhecendo um a um esse fato, nós daremos todo o apoio político necessário para que esse processo siga seu destino", disse o presidente Jair Bolsonaro em Davos, na Suíça.

A decisão de passar a tratar o presidente da Assembleia Nacional da Venezuela como líder interino do país em substituição a Nicolás Maduro, no poder desde a morte de Hugo Chávez (1954-2013), foi tomada em uma reunião que durou 90 minutos com os presidentes Iván Duque (Colômbia) e Lenín Moreno (Equador), a vice-presidente peruana, Mercedes Aráoz, e a ministra das Relações Exteriores do Canadá, Chrystia Freeland. 

Também participaram do encontro às margens do Fórum Econômico Mundial em Davos, onde estão Bolsonaro e Duque, acadêmicos como o venezuelano Ricardo Hausmann, que leciona em Harvard e já defendeu em artigo a derrubada do regime, e Filippo Grandi, alto comissário da ONU para refugiados.

A reunião para tratar de Venezuela já estava marcada pelo menos desde o início da semana, mas os fatos acabaram se sobrepondo ao debate.

Pouco antes do encontro, Guaidó se colocou como presidente. Enquanto Bolsonaro, Duque e os demais alinhavavam uma posição conjunta, o americano Donald Trump declarou que os EUA reconheciam em Guaidó o presidente interino da Venezuela, dando início a um efeito dominó. Equador, Costa Rica, Argentina, Chile, Paraguai e Guatemala emitiram comunicados em seguida.

Dos 14 países que compõem o Grupo de Lima, criado para buscar uma solução para a crise venezuelana, apenas Guiana, Santa Lúcia e o México de Andrés Manuel López Obrador não apoiaram Guaidó. Bolívia e Rússia reafirmaram seu apoio a Maduro.

Em nota em redes sociais emitida logo após sua declaração com Duque, Bolsonaro explicou que o Brasil dará apoio econômico e político ao processo de transição para que a democracia e a paz voltem à Venezuela.

O Grupo de Lima já havia declarado que não reconhecia o novo mandato de Maduro, iniciado no dia 10 e resultante de eleições sob suspeita de fraude em maio passado, das quais grande parte da oposição foi impedida de participar e que não teve monitoramento internacional.

Mas a solução para o dilema parecia pouco clara. Trump e membros do governo colombiano chegaram a aventar uma ação militar, descartada pelos demais países e pelos militares americanos.

A crise política, econômica e humanitária da Venezuela, agravada em 2017, já produziu um êxodo de mais de 3 milhões de pessoas que fugiram para países da região.

Com a decisão da Assembleia da Venezuela e de Guaidó, um deputado de 35 anos empossado no dia 11, de assumir interinamente o governo e convocar eleições, o roteiro da transição ficou mais claro.

​O Brasil já ensaiava declarar seu apoio, mas aguardou os protestos de rua nesta quarta na Venezuela para calibrar sua decisão. Um membro do governo Bolsonaro, em conversa com a Folha, ressaltou que Brasília se preocupava em encontrar uma saída institucional para o dilema, e que o presidente já debatera a questão com o homólogo argentino Mauricio Macri.

 

Apesar do caminho institucional escolhido, porém, a via pacífica ainda não está garantida. Diante das cenas de confronto em Caracas nesta quarta, o presidente americano, Donald Trump, declarou que usará "todo o peso do poder econômico e diplomático dos Estados Unidos para pressionar pelo restabelecimento da democracia venezuelana" e não descartou novas ações contra o regime. "Todas as opções estão na mesa", voltou a dizer.

A prevalência de Maduro depende sobretudo da posição dos militares venezuelanos, que até então vinham se mantendo como fiadores do regime mas que já começavam a dar sinais de rachaduras em suas fileiras.

Em jantar na noite desta quarta sobre o futuro da América Latina do qual Bolsonaro participou, Duque afirmou que a população protestando nas ruas mandou uma mensagem forte aos militares, que devem escutá-la.

Colaboraram Talita Fernandes e Gustavo Uribe, de Brasília

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