Descrição de chapéu Governo Biden

Era mais fácil fazer imagens da fronteira com o México sob Trump, diz fotógrafo

Para burlar bloqueio federal dos EUA, John Moore entra em terrenos privados no Texas

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Migrantes deixam a Ciudad Juarez, no México, e cruzam rio Grande para chegar aos EUA

Migrantes deixam a Ciudad Juarez, no México, e cruzam rio Grande para chegar aos EUA John Moore - 16.mar.21/Getty Images

São Paulo

Para fotografar as centenas de migrantes sem documento que atravessam para os Estados Unidos pela perigosa fronteira com o México, John Moore tem usado técnicas peculiares.

Uma delas, conta o fotógrafo, é negociar com proprietários privados de terra no sul do Texas para que ele possa registrar, a partir de estradas de chão batido, famílias inteiras entrando a pé nos EUA —muitas das quais com crianças de colo— depois de terem cruzado o rio Grande.

A outra é cruzar a fronteira para Ciudad Juárez, no México, e fotografar com lentes teleobjetivas, a centenas de metros de distância, adolescentes pulando as barreiras de ferro que separam os dois países. Ou pessoas sozinhas que, com a água nas canelas, enfrentam a correnteza do rio em uma parte rasa e se entregam para agentes de fronteira em solo americano.

Fotógrafo sênior da agência Getty Images e autor da famosa imagem de uma mãe com sua filha paradas na fronteira com o México, Moore precisa recorrer a essas táticas para realizar seu trabalho em resposta à proibição imposta por Joe Biden desde que assumiu a Presidência, em janeiro.

“Se jornalistas tentam ir de maneira independente àquela área, eles são removidos por oficiais da [agência federal de controle de fronteira] U.S. Border Patrol, que dizem que eles não têm autorização para estar ali. No passado, nas administrações de [Barack] Obama e de [Donald] Trump, jornalistas podiam pedir para fazer a ronda com os oficiais de fronteira, e os pedidos eram geralmente atendidos. Mas, com a nova administração, têm sido completamente negados”, afirma.

A dificuldade imposta pela gestão democrata foi chamada de censura em um editorial recente do jornal The Washington Post e tem causado escassez de imagens de uma crise em momento de números recordes —170 mil imigrantes foram apreendidos na fronteira sudoeste dos EUA em março, a maior cifra nos últimos 15 anos, de acordo com dados do Serviço de Alfândega e Proteção das Fronteiras (CBP, na sigla em inglês), um aumento de 70% em relação a fevereiro.

A Casa Branca afirma que o acesso da imprensa tem sido restringido devido ao coronavírus, mas Moore diz achar esse pretexto “muito fraco”. Se a pandemia é a explicação oficial, o fotógrafo questiona por que um grupo com cerca de 12 congressistas de Washington pôde visitar, ao mesmo tempo, centros de detenção de imigrantes em El Paso, no Texas, enquanto só “dois ou três jornalistas” foram autorizados a fazer o mesmo —no dia 30 de março, a gestão Biden possibilitou a entrada de repórteres pela primeira vez.

“Acho que esse foi um passo muito importante na direção certa e acredito que eles estão provavelmente lidando com uma situação difícil de superlotação de refugiados. Mas seria benéfico para a população e para o governo se nós pudéssemos mostrar como o governo lida com essa situação", diz Moore, acrescentando que a Casa Branca tenta controlar a narrativa da atual crise.

O fotógrafo conta não ter sido autorizado a entrar em nenhum dos centros onde os imigrantes ficam detidos desde que Biden assumiu, algo que, segundo ele, era possível com algumas restrições no governo Trump (2017-2020) e com mais facilidade durante os anos Obama (2008-2016). Uma das limitações desse tipo de visita é não mostrar os rostos das pessoas.

Além disso, as situações ao ar livre que costuma fotografar —apreensões de pessoas próximas ao rio Grande e em terrenos fronteiriços controlados majoritariamente pelo governo dos EUA— têm risco de contaminação pelo coronavírus próximo de zero, argumenta ele.

Se a questão com a cobertura em seu próprio país é basicamente o acesso, no México Moore precisa tomar cuidado para não ter problemas com os traficantes de pessoas e de drogas —geralmente pertencentes a uma mesma organização—, responsáveis por controlar largas áreas do território fronteiriço e conhecidos “por não serem muito gentis”, diz ele.

Joga a seu favor o fato de que, caso um criminoso faça um jornalista ou um oficial americano de vítima, uma investigação será deflagrada, gerando um processo danoso aos negócios do tráfico. Mesmo com uma carreira construída fotografando guerras e zonas de conflito, Moore afirma não dar a sua segurança como certa. “Tomo muitas precauções. Não vale a pena perder o amanhã por uma foto de hoje.”

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