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09/06/2010 - 18h25

Brasil deu "tiro no pé" e diminuiu chance de assento permanente na ONU, diz analista

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MARIA CAROLINA ABE
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Em sessão realizada nesta quarta-feira, o Conselho de Segurança da ONU aprovou uma quarta rodada de sanções contra o Irã devido ao seu programa nuclear.

Dos 15 membros do Conselho, 12 votaram a favor das sanções --incluindo China e Rússia, que têm fortes laços com o governo de Teerã--, o Líbano se absteve, e Brasil e Turquia foram os únicos que votaram contra a medida.

Para Heni Ozi Cukier, professor de Relações Internacionais da ESPM e especialista em resolução de conflitos internacionais, o Brasil deu um "tiro no pé" e minimizou sua chance de conseguir um assento permanente no Conselho de Segurança.

De acordo com o analista --que já trabalhou no Conselho da ONU e na OEA (Organização dos Estados Americanos)-- a postura do Brasil também unificou os membros permanentes do Conselho, incluindo China e Rússia.

No dia 17 de maio, Brasil, Turquia e Irã assinaram um entendimento pelo qual Teerã se comprometeu a enviar 1.200 quilos de seu estoque de urânio pouco enriquecido à Turquia, sua vizinha, para em um ano receber de volta 120 quilos do material processado a 20% para uso em pesquisa médica. "Agora ficou claro como esse acordo brasileiro não tinha nenhuma validade, e que o Brasil errou", opina Cukier.

Na entrevista, ele disse ainda que o Irã está "muito próximo" de construir uma bomba atômica, e está "fazendo de tudo" para que " todo mundo ache que possui uma bomba".

Leia a íntegra da entrevista que Cukier deu à Folha por telefone.

*

Folha - Na votação de hoje no Conselho de Segurança da ONU, 12 membros votaram a favor, o Líbano se absteve e Brasil e Turquia votaram contra uma nova rodada de sanções ao Irã. Como o senhor avalia essa votação?

Cukier - Acho muito estranha a posição brasileira, na contramão do que está acontecendo no mundo. Os próprios países aliados do Irã [Rússia e China] tomaram uma posição ao sentir que o assunto estava ficando banalizado. O Brasil e a Turquia entraram na discussão sem entender o que acontece. Essa discussão está acontecendo há mais de dez anos, eles não estão participando esse tempo todo e saíram a público festejando "resolvemos, acabou, está solucionado!". Como assim? O assunto que foi contemplando aí [no acordo] não faz parte das questões que estão sendo discutidas. Então, o Brasil conseguiu fazer o mais difícil: unificar os cinco [membros] permanentes. Ele facilitou que Rússia e China mudassem sua posição ao ver que o Conselho estava perdendo total credibilidade. Agora ficou claro como esse acordo brasileiro não tinha nenhuma validade e que o Brasil errou.

Folha - Houve uma certa ingenuidade por parte de Brasil e Turquia?

Cukier - Eu não consigo imaginar que seja ingenuidade, porque entre países não existe amizade, existem interesses. Acho que foi uma falha grave, uma tentativa de puxar para um lado, mas foi puxado para o outro lado com muito mais força. Quiseram liderar numa questão sem ter capacidade para fazer isso.

Folha - Essa falta de capacidade seria devido à falta de experiência no Conselho?

Cukier - Falta de experiência no Conselho ou falta de seriedade quanto ao assunto, falta de estar acompanhando o assunto. Se o Brasil vai relativizar uma norma tão clara como essa, uma norma que o Brasil cumpre --é um signatário do Tratado de Não Proliferação e permite que os inspetores venham aqui e façam o seu trabalho--, o Irã não permite que isso aconteça, e o Brasil está defendendo o Irã. Não tem nenhum cabimento, porque é uma violação muito categórica, não permite interpretações.

Folha - Como o Brasil sai dessa "novela", após ter insistido num acordo que foi refutado e após votar contra as sanções?

Cukier - Eu diria que o Brasil minimiza sua chance de conseguir um assento permanente [no Conselho de Segurança da ONU]. Os países que hoje apoiam isso são exatamente França, Inglaterra e os americanos. São exatamente os seus aliados e com os quais o Brasil compartilha valores democráticos, respeito aos direitos humanos, cumpre suas obrigações internacionais. Ou seja, o Brasil vai na contramão de tudo o que ele é por essência e do que ele está almejando politicamente, que é o assento [permanente] no Conselho.

Folha - Hoje o premiê russo, Vladimir Putin, falou que sanções são ineficazes, mesmo a Rússia tendo votado a favor delas. Como se explica essa aparente contradição?

Cukier - Ele está certo, isso é um fato das relações internacionais: sanções econômicas não têm impacto nenhum ou dificilmente conseguem alcançar os objetivos desejados. Os americanos sabem disso, todo mundo sabe disso. O Irã está sob sanções há quanto tempo? E isso não está o impedindo de avançar com seu programa nuclear. O mesmo com a Coreia do Norte. Mas as sanções têm um efeito simbólico, é uma demonstração de que existe um consenso e de que estamos caminhando em uma direção.

Folha - Então seria mais pelo isolamento politico?

Cukier - O isolamento político e talvez uma possível outra medida mais dura futuramente.

Folha - Que tipo de medida?

Cukier - Por exemplo, o uso da força poderia ser justificado. Não se poderá dizer que não tentaram dialogar.

Folha - Tendo em vista o que já foi publicado sobre o programa nuclear iraniano, o senhor acredita que o Irã tenha condições de enriquecer urânio o suficiente para produzir uma bomba?

Cukier - Eu diria que eles estão muito próximos disso. E quanto mais próximos disso, mais próximos de uma alternativa militar ou de uso da força contra eles --por parte de Israel provavelmente. É um país que financia o terrorismo, treina dois inimigos que estão em guerra constante com Israel, vem a público e nega o Holocausto, diz que vai riscar Israel do mapa. Hoje o Irã não é mais uma teocracia, mas uma ditadura militar e um Estado policial. Essa ameaça para Israel é uma ameaça existencial.

Folha - E como interfere o fato de Israel não ser signatário do Tratado de Não Proliferação (TNP)?

Cukier - Pode ser um agravante ou não. Israel tem a bomba há muitos anos. Já teve muitas guerras e situações de defesa na qual estava perdendo, e nunca a usou. Não tem ambições de conquistar ou eliminar o Egito, ou de acabar com a Jordânia, ou de destruir a Síria. Tanto que nunca atacou as capitais.

Folha - Mas não seria coerente um movimento concomitante de pressionar Israel a aderir ao TNP?

Cukier - A lógica seria essa, mas não vai acontecer. Desde sua fundação, Israel foi atacado em várias guerras por todos os países vizinhos e a maioria não reconhece a existência do Estado. Então Israel vê isso como uma garantia de que vai sobreviver, é uma forma de dissuasão contra ataques. O Irã tinha a opção de não ter assinado [o tratado].

Folha - Pode-se esperar a deterioração das relações do Irã com Rússia e China por eles terem votado a favor das sanções?

Cukier - Pode e não pode. O Irã precisa deles. Existe pressão em cima da Rússia e da China e eles não podem ficar se abstendo o tempo todo. O Irã depende desses dois países, e precisa deles para evitar que se tome medidas mais contundentes. Inclusive, essas sanções não avançaram mais porque a China e a Rússia não deixaram.

Folha - Como as sanções poderiam avançar mais?

Cukier - Elas poderiam ser mais amplas, cortar exportações e importações. A única sanção verdadeira econômica que funcionaria no caso do Irã seria cortar as importações de gasolina. O Irã é um grande produtor de petróleo, ele exporta, mas não refina. Então, importa muita gasolina.

Folha - Essa acusação na prática ainda não comprovada contra o Irã tem semelhança a quando se acusou o Iraque de ter armas de destruição em massa, fato que depois foi provado errado?

Cukier - Eu diria que tem umas diferenças bem explícitas. A primeira delas é que quem diz que o Irã viola suas obrigações não são os EUA, mas a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), que é um braço da ONU, responsável por certificar que os países cumprem suas obrigações perante o tratado. A segunda é que ninguém está dizendo que ele tem uma bomba, mas sim que está violando as normas internacionais, porque não permite que os inspetores se certifiquem que seu programa é pacífico. Essa violação já existe. Se o Irã quer mostrar que ele desafia o mundo, que não deixa os inspetores entrarem, enquanto a cada dia é descoberta uma nova instalação nuclear clandestina e secreta, construída embaixo na terra num bunker (...), no final das contas pode estar todo mundo errado, mas o Irã está fazendo de tudo pra que todo mundo ache que tem uma bomba.

 

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