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12/09/2004 - 08h30

200 pessoas ganham 9.095 vezes em loterias

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RUBENS VALENTE
da Folha de S.Paulo

Um grupo de 200 pessoas ganhou 9.095 vezes em loterias da CEF (Caixa Econômica Federal) entre março de 1996 e fevereiro de 2002. Cada apostador desse grupo teve em média 45 bilhetes premiados --um número praticamente impossível de ser alcançado caso os jogadores não se dispusessem a gastar com apostas sempre muito mais do que ganhariam, segundo matemáticos ouvidos pela Folha. Ao todo, o grupo ficou com R$ 64,8 milhões.

Com base num primeiro levantamento do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) do Ministério da Fazenda, com 30 nomes, divulgado em março de 2003, a Polícia Federal abriu em junho último cerca de 20 inquéritos só em São Paulo para investigar os sortudos.

Mas o relatório total de 228.794 premiações, ao qual a reportagem teve acesso, revela outros casos de número de premiações acima da média. Pelo menos dois casos são de parlamentares. Eles não são investigados a respeito.

O deputado federal Francisco Garcia Rodrigues (PP-AM) e seu filho acertaram 43 vezes em 21 jogos diferentes entre os anos de 1996 e 2000 (cinco jogos do deputado, 16 de seu filho). O deputado Fernando Lucio Giacobo (PL-PR), 30, acertou 12 vezes em oito jogos num único e reduzido espaço de tempo: de 5 a 19 de junho de 1997. Levou ao todo R$ 134 mil.

Numa série impressionante, Giacobo acertou em três concursos seguidos da Mega Sena, 65, 66 e 67, e em dois seguidos da Quina, 305 e 306. "Só tem sorte. E existe Deus, ele deu uma olhadinha lá e uma benzida", disse Giacobo.

Em São Paulo, um delegado da Polícia Civil venceu 17 vezes em concursos e tipos de jogos diferentes também num único e curto período: de 8 de agosto a 16 de novembro de 2001.

O delegado de Polícia Civil Luiz Ozilak Nunes da Silva, 50, da Decap (Delegacia de Capturas) da Capital teve prêmios com sete bilhetes da Mega Sena, três da Federal, dois da esportiva, dois da instantânea, dois da Lotomania e um da Supersena.

Como o deputado Giacobo, o delegado nunca havia vencido antes disso. E nunca mais voltou a vencer. Segundo ele, parou de jogar em seguida, muito embora tivesse recebido R$ 355 mil. "Eu não acredito na sorte. Eu não aconselho isso [jogar]. Cada um tem sua vida, cada um sabe o que faz com o seu dinheiro", disse.

Ele está sendo investigado na corregedoria da polícia a pedido do Ministério Público por supostos "indícios de crime de lavagem de dinheiro por meio de loterias".

Seqüências

O deputado Francisco Garcia Rodrigues e seu filho receberam R$ 811 mil em jogos federais. Num período de apenas 14 dias --26 de maio a 9 de junho de 1998--, seu filho firmou uma marca inesquecível. Venceu em três concursos seguidos da loteria esportiva, os de número 227 (R$ 22 mil), 228 (R$ 10,6 mil) e 229 (R$ 14,3 mil). Em outra seqüência, já havia acertado no 192 e no 193 (R$ 132 mil). Poucos dias antes, no concurso de número 185, seu pai havia recebido R$ 409 mil.

O deputado disse que jogava toda semana e hoje não joga mais, mas não se lembrou do endereço da lotérica em que fazia as apostas. Primeiro, disse que gastava "R$ 100, R$ 200" por semana. Depois, disse não lembrar corretamente. Após ter atribuído as vitórias ao seu conhecimento de futebol e ao volume de apostas, também disse que usava "um computador".

A chance de uma seqüência de prêmios ocorrer está perto do zero, segundo estatísticos consultados pela reportagem. Segundo eles, também "não existe" computador capaz de produzir uma fórmula que garanta uma aposta vitoriosa. Basta ver que 98,6% do total de 168.172 pessoas premiadas alguma vez entre 1996 e 2000, em todo o país e em todas as formas de jogo, acertou somente até quatro vezes.

A imensa maioria do grupo de apostadores sorteados relacionados pelo Coaf (cerca de 148 mil premiados) só foi premiada uma ou duas vezes (88% e 95,8%, respectivamente).

Fenômeno

No grupo dos 200, o líder em ganhar em loterias é um apostador paulistano que foi premiado 353 vezes (R$ 2,8 milhões).

No primeiro relatório do Coaf, a imprensa divulgou que o comerciante Amauri Gouveia havia sido premiado em 25 concursos. O relatório integral, contudo, mostra que Gouveia é um fenômeno muito maior. Ele acertou em 96 concursos da Quina, em 33 concursos na Mega Sena, em 25 da Loteria Federal e em 9 da loteria esportiva, além de outras modalidades. Até na raspadinha Gouveia impressiona: ele acertou nos concursos de número 60, 61, 64, 78, 88, 89, 90 e 91.

A freqüência de acertos de Gouveia na Quina (153 bilhetes premiados em 96 concursos) é inacreditável sob qualquer ponto de vista. Entre os concursos 501 e 529, ele simplesmente deixou de acertar em apenas dois. No resto, uma ou várias vezes, Gouveia sempre ia ao guichê de uma agência da Caixa Econômica Federal para receber seu prêmio. Como se fosse um salário semanal.

A história de Gouveia é ainda mais misteriosa quando se considera que seus dois irmãos, Alécio Pedro e Adilson, também estão entre os seis maiores vencedores da lista, com 332 e 297 premiações. Ao todo, os irmãos levaram para casa R$ 7 milhões.

A Folha comparou os números dos concursos dos três, e encontrou poucas coincidências, o que afasta a hipótese de os altíssimos números de acertos se tratarem de vitórias em bolões familiares.

Os três irmãos possuem um supermercado na Vila Nova Cachoeirinha, na periferia de São Paulo. Procurados nos últimos oito dias, responderam por meio do gerente-geral do supermercado, Edson Andrade: "Eles não têm nada a declarar. Esse é um assunto fiscal, cabe explicar ao fisco".

19 esportivas

Há vários outros casos que chamam a atenção pela seqüência de vitórias num único período. Um apostador, identificado nominalmente pela reportagem, mas não localizado, venceu em 19 concursos da loteria esportiva somente entre janeiro de 2000 e novembro de 2001, quase sempre com valores expressivos. No dia 8 de fevereiro de 2000, ele levou R$ 399,7 mil. Catorze dias depois, papou mais R$ 36 mil.

Em março de 2001, esse apostador faturou R$ 249,4 mil na esportiva. Menos de seis meses depois, recebeu outros R$ 260,2 mil. Os jogos lhe renderam ao todo R$ 1,85 milhão.

Colaborou Marcelo Billi, da Reportagem Local

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