10/05/2006
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23h00
A transparência no jornalismo foi abordada por dois ângulos bem diferentes na primeira mesa do Fórum Folha de Jornalismo, aberto nesta quarta em São Paulo. O evento faz parte das comemorações dos 85 anos do jornal.
Para Ian Mayes, ombudsman do jornal britânico "The Guardian", a transparência de uma publicação está associada a duas atitudes: o compromisso de um jornal de corrigir falhas e erros, o que pode ser respaldado pela existência de um ombudsman, e a disposição de deixar claro para o seu leitor o modo como a publicação funciona, suas operações internas e as regras que estipulou para si própria.
Edward Wasserman, professor de ética jornalística na Universidade Washington e Lee, dos Estados Unidos, considera, no entanto, que tal abertura para o público leitor, embora necessária, pode se transformar tanto num instrumento de meras relações públicas como, ao contrário, em um modo de lançar suspeitas além das devidas sobre jornais e jornalistas.
A dramatização excessiva e pública dos erros cometidos --com a publicação de demissões de jornalistas que falharam ou mesmo mentiram-- pode provocar um efeito oposto ao esperado. Isto é, criar uma percepção negativa da qualidade do produto jornalístico que chega às mãos dos leitores.
O fórum, aberto pelo diretor de Redação da Folha, Otavio Frias Filho, promove quatro debates, os dois últimos hoje, para os quais as inscrições já estão esgotadas. A primeira mesa de debates foi coordenada por Marcelo Beraba, ombudsman da Folha.
Frias Filho tratou do problema da viabilidade da empresa jornalística em um ambiente de intensa mudança tecnológica e de multiplicação das fontes de oferta de informações.
Por empresa jornalística, especifica Frias Filho, entenda-se a que procura autonomia política e que investe pesados recursos materiais para produzir um jornalismo compromissado com a procura do "máximo de verdade factual e da defesa do interesse público". "Aquele jornalismo que foi sempre a arena do debate de idéias e de rumos para a sociedade", afirmou.
Tal questão, considera Frias, parece mais importante do que o debate sobre o futuro do suporte físico das publicações jornalísticas, se a tela eletrônica ou o papel.
A multiplicação de fontes de informação é simultânea à dispersão e à fragmentação de interesses do leitorado, que também se torna mais exigente, crítico em relação a erros, "quando não de distorções e da arrogância, muitas vezes", do jornalismo.
A imprensa será capaz de responder a esses desafios: os tecnológicos, os econômicos e os de seu público?
Wasserman, o mais controvertido dos três palestrantes, acredita que nos EUA a mídia persistirá e é resistente aos ataques. Mas a resposta dos jornalistas à crítica lhe parece por vezes inadequada. Para Wasserman, diante da crítica há a imediata criação de um clima de "vergonha e autoflagelação". Citou as demissões na rede de televisão CBS, em razão do noticiário equivocado sobre a carreira militar na juventude do presidente George W. Bush.
A pressão para que as punições ocorram partem em geral de grupos cujas posições não são defendidas pelo jornal ou pela emissora. "Essas coisas precisam de algum grau de privacidade", afirmou o professor de ética.
Mayes, o ombudsman do "The Guardian", esboçou um retrato algo diferente. Pesquisa recente demonstrou que 86% dos leitores acreditam que seu jornal publica informações confiáveis.
Mas não são apenas as informações que são levadas em conta na avaliação. Há o relacionamento do jornal com o leitor, as correções e o esforço para ampliar os temas da cobertura jornalística.
Para o terceiro palestrante, o colombiano Germán Rey, ex-ombudsman do jornal "El Tiempo", de Bogotá, os jornais deixaram de entender como o mundo tem evoluído. Devem reestudar sua forma de funcionamento, com atenção a problemas multidisciplinares.
Disse, por fim, temer os efeitos da lógica comercial das empresas de mídia sobre a independência e a autonomia da informação.
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da Folha de S.PauloA transparência no jornalismo foi abordada por dois ângulos bem diferentes na primeira mesa do Fórum Folha de Jornalismo, aberto nesta quarta em São Paulo. O evento faz parte das comemorações dos 85 anos do jornal.
Para Ian Mayes, ombudsman do jornal britânico "The Guardian", a transparência de uma publicação está associada a duas atitudes: o compromisso de um jornal de corrigir falhas e erros, o que pode ser respaldado pela existência de um ombudsman, e a disposição de deixar claro para o seu leitor o modo como a publicação funciona, suas operações internas e as regras que estipulou para si própria.
| Moacyr Lopes Jr/Folha Imagem |
![]() |
| Germán Rey, ex-ombudsman do "El Tiempo", Edward Wasserman, professor de ética, Marcelo Beraba, da Folha, e Ian Mayes (dir) |
Edward Wasserman, professor de ética jornalística na Universidade Washington e Lee, dos Estados Unidos, considera, no entanto, que tal abertura para o público leitor, embora necessária, pode se transformar tanto num instrumento de meras relações públicas como, ao contrário, em um modo de lançar suspeitas além das devidas sobre jornais e jornalistas.
A dramatização excessiva e pública dos erros cometidos --com a publicação de demissões de jornalistas que falharam ou mesmo mentiram-- pode provocar um efeito oposto ao esperado. Isto é, criar uma percepção negativa da qualidade do produto jornalístico que chega às mãos dos leitores.
O fórum, aberto pelo diretor de Redação da Folha, Otavio Frias Filho, promove quatro debates, os dois últimos hoje, para os quais as inscrições já estão esgotadas. A primeira mesa de debates foi coordenada por Marcelo Beraba, ombudsman da Folha.
Frias Filho tratou do problema da viabilidade da empresa jornalística em um ambiente de intensa mudança tecnológica e de multiplicação das fontes de oferta de informações.
Por empresa jornalística, especifica Frias Filho, entenda-se a que procura autonomia política e que investe pesados recursos materiais para produzir um jornalismo compromissado com a procura do "máximo de verdade factual e da defesa do interesse público". "Aquele jornalismo que foi sempre a arena do debate de idéias e de rumos para a sociedade", afirmou.
Tal questão, considera Frias, parece mais importante do que o debate sobre o futuro do suporte físico das publicações jornalísticas, se a tela eletrônica ou o papel.
A multiplicação de fontes de informação é simultânea à dispersão e à fragmentação de interesses do leitorado, que também se torna mais exigente, crítico em relação a erros, "quando não de distorções e da arrogância, muitas vezes", do jornalismo.
A imprensa será capaz de responder a esses desafios: os tecnológicos, os econômicos e os de seu público?
Wasserman, o mais controvertido dos três palestrantes, acredita que nos EUA a mídia persistirá e é resistente aos ataques. Mas a resposta dos jornalistas à crítica lhe parece por vezes inadequada. Para Wasserman, diante da crítica há a imediata criação de um clima de "vergonha e autoflagelação". Citou as demissões na rede de televisão CBS, em razão do noticiário equivocado sobre a carreira militar na juventude do presidente George W. Bush.
A pressão para que as punições ocorram partem em geral de grupos cujas posições não são defendidas pelo jornal ou pela emissora. "Essas coisas precisam de algum grau de privacidade", afirmou o professor de ética.
Mayes, o ombudsman do "The Guardian", esboçou um retrato algo diferente. Pesquisa recente demonstrou que 86% dos leitores acreditam que seu jornal publica informações confiáveis.
Mas não são apenas as informações que são levadas em conta na avaliação. Há o relacionamento do jornal com o leitor, as correções e o esforço para ampliar os temas da cobertura jornalística.
Para o terceiro palestrante, o colombiano Germán Rey, ex-ombudsman do jornal "El Tiempo", de Bogotá, os jornais deixaram de entender como o mundo tem evoluído. Devem reestudar sua forma de funcionamento, com atenção a problemas multidisciplinares.
Disse, por fim, temer os efeitos da lógica comercial das empresas de mídia sobre a independência e a autonomia da informação.
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