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Cinema fantástico

Diretor Michel Gondry adapta 'A Espuma dos Dias', clássico psicodélico de Boris Vian reeditado agora no Brasil, criando uma Paris retrô e alucinógena

SILAS MARTÍ ENVIADO ESPECIAL A PARIS

Na vida real e no filme, escavadeiras cavucam o coração de Paris, o rastro deixado pela demolição de uma galeria de lojas que vai virar praça. Enquanto isso, uma flor cresce no pulmão da frágil mocinha da história --seu destino é datilografado ao vivo em máquinas de escrever que deslizam sobre trilhos.

É nesse universo "retrofuturista", mistura de imagens atuais da capital francesa com aparatos mecânicos insuspeitos e altas doses de fantasia, que o diretor francês Michel Gondry decidiu ambientar sua adaptação de "A Espuma dos Dias", um livro clássico, para o cinema.

Escrito em 1946 por Boris Vian, "A Espuma dos Dias" conquistou um lugar no coração dos adolescentes franceses análogo a "O Apanhador no Campo de Centeio", de J.D. Salinger, entre os jovens norte-americanos. É a história de amor impossível do dândi Colin e sua amada, cândida e bela Chloé.

Impossível porque, logo depois que se casa, numa cerimônia que tem até uma limusine transparente e outros requintes, a mocinha, vivida no filme por Audrey Tautou, a eterna Amélie Poulain, descobre que um nenúfar cresce dentro de seu pulmão e deve ser extirpado para que ela não sufoque até morrer.

Romain Durys, na pele de Colin, torra toda a herança que garantia seu estilo de vida bon vivant com os médicos que tentam salvar a mulher da morte certa. E o resto está na história que estreia nesta sexta, nos cinemas do país, e chega às livrarias, reeditada em português pela Cosac Naify, nesta semana.

Não faltam no livro excessos descritivos para alimentar os exageros visuais de Gondry. Tanto que o diretor de "Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças" e de alguns dos clipes mais malucos de Björk considera esse filme uma espécie de resumo de toda a sua obra visual.

"Todo mundo que conheço já leu esse livro, e os franceses amam essa história", diz Gondry, em entrevista à Folha, num hotel de Paris. "Senti a pressão para não decepcionar o público, mas tentei me ater às impressões que ficaram da minha primeira leitura desse romance."

Talvez isso explique o turbilhão cronológico da história. "De fato, é um filme retrofuturista'", diz o diretor. "Queria criar um mundo igual ao de hoje, mas pensando que as coisas seguiram outra direção a partir dos anos 1940, um mundo paralelo."

Gondry e Vian, aliás, também têm seus paralelos.

Tanto um quanto o outro fizeram obras marcadas pelo trânsito entre a cultura europeia, de berço, e os Estados Unidos. Enquanto Gondry se rendeu a Hollywood, Vian, que morreu em 1959 e só não viajou para a América por problemas de saúde, era trompetista de jazz e fez dessa música a trilha sonora de sua escrita, quase um mantra libertário no pós-guerra.

"Essa era a música da liberdade", diz Gondry. "Mas sou muito mais crítico à cultura americana do que ele. Meu tributo a esse sonho dele de ir para a América aparece no filme no vagão de trem que eu usei para filmar a sala de jantar de Colin. É como uma lanchonete americana."

Mas fora do vagão de trem e da ambientação psicodélica dos bailes de jazz da época, Gondry caçou locações em Paris para dar um toque surreal à narrativa de Vian.

Uma delas foi a sede do Partido Comunista, projeto de Oscar Niemeyer na capital francesa, que surge no filme como a oficina em que operários escrevem o romance em linha de montagem, cenário que não está no livro, mas faz homenagem ao processo de escrita do original.

"Esse lugar tem mesmo uma pegada de ficção científica", diz Gondry. "Niemeyer foi um grande arquiteto, melhor que Le Corbusier, e tem algo delicado nesse projeto."

CONTO MODERNO

Nada delicado é o sofrimento dos personagens da trama, cada um sucumbindo a um vício ou a pressões do trabalho. Vian, em tradução visual de Gondry, parece comentar um tema bastante atual --a precarização da mão de obra num momento de colapso político e financeiro.

Isso fica explícito numa das cenas mais fortes do filme, em que Colin, já falido, vai trabalhar como operário que empresta o calor do corpo como adubo para uma plantação de metralhadoras --ele fica nu, sobre um monte de terra, para nutrir armas que brotam como flores.

"Nossa época é mais deprimente que a do livro", diz Audrey Tautou à Folha. "Há ali uma metáfora sobre o mundo do trabalho e da cadeia de produção, mas a fantasia do filme distancia isso tudo da realidade e cria uma história atemporal. É um esboço sobre a sociedade, um conto moderno acima de tudo."


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