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Crítica - Drama

Filme encanta com gestos incompletos e errância permanente dos personagens

VEMOS OS ROSTOS TENSOS, TOMADOS DE INCOMPLETUDE, DOR OU ESPERANÇA, MAS NADA PODEMOS VER ALÉM DISSO

INÁCIO ARAUJO CRÍTICO DA FOLHA

Como em "Abismo Prateado", filme anterior de Karim Aïnouz, o acaso conduz o protagonista. No caso, Donato, salva-vidas numa praia do Ceará, perde um banhista, que se afoga e desaparece no mar.

Donato encontra Konrad, amigo do afogado, e subitamente os encontramos partilhando a mesma cama. Pouco depois, estão em Berlim.

A pergunta se impõe: Donato perdeu-se ou se encontrou? Sua identidade sexual parece ser o que menos importa. Donato parece seguir ao acaso, mais do que em busca de uma identidade sexual.

Mas por que ir a Berlim? Por que abandonar a sua terra, família e profissão? Será a Alemanha um refúgio? Mas contra o quê, exatamente?

Eis o que o filme tem de encantador: ele é cheio de gestos que parecem nunca se completar. Ou que só podem se completar anos depois.

Como no momento em que Ayrton chega a Berlim. Ele é o irmão menor de Donato, a quem tinha como herói, com quem trocava socos de brincadeira. Anos depois, não serão mais de brincadeira. Há ódio e amor: o ressentimento de Ayrton por ter sido abandonado pelo mais velho, por descobri-lo homossexual.

Gesto incompleto como a fuga de Ayrton, numa moto de Konrad. Quando é encontrado por Konrad, está prestes a transar com uma garota. Mas também é interrompido.

Pois nada parece destinado a se consolidar. Assim como em "Viajo porque Preciso, Volto porque Te Amo" (2009), existe uma errância permanente, um viajar cujo fim pode até se anunciar, mas nunca se conclui. Ou ainda como, em "Abismo Prateado", a mulher abandonada pensa em viajar atrás do marido, mas não conclui o gesto. Ou conclui? Ou terá ela se achado ao perder o marido?

O que em "Abismo" parecia busca, ressurge em "Praia" de forma mais sólida: achar, perder-se, são movimentos siameses. Observamos os rostos dos irmãos, tensos, tomados de incompletude, dor ou esperança --mas nada podemos ver além disso.

Como a neblina que parece impedir os viajantes de ver o que existe à sua frente, o futuro é algo que não se vislumbra, pois neste estranho filme mesmo o presente não se abre senão como bruma.


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