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31/05/2011 - 19h58

Veja como é o sistema de produção de alimentos orgânicos

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GUSTAVO FIORATTI
DE SÃO PAULO

De sua plantação de girassóis no alto de uma pequena colina, Luis Barrichello, 60, dono de um sítio de orgânicos em Mogi Mirim (a 151 km de São Paulo), aponta a propriedade ao lado, onde são cultivados milhos transgênicos. "Olha lá, você não vê nenhum passarinho", diz.

Não se trata de mera rivalidade entre vizinhos. Segundo o produtor, a presença de pássaros e insetos sobrevoando plantações costuma ser muito maior nos locais de cultivo orgânico do que nos que utilizam agrotóxicos.

Daigo Oliva/Folhapress
Imagem do terreno arado na fazenda orgânica Santa Madalena, que fica em Cordeirópolis, no de São Paulo
Imagem do terreno arado na fazenda orgânica Santa Madalena, que fica em Cordeirópolis, no interior de São Paulo

Além dos girassóis, usados para produzir óleo e sementes, ele cultiva em seu território, livre de agrotóxicos, arroz, milho, feijão e cogumelos.

Mas não é simples como parece. A opção de não utilizar pesticidas pode se converter num quebra-cabeça rural. Por exemplo: Luis só poderia plantar milho em seu terreno se a plantação vizinha estivese a mais de cem metros. "Não ia dar outra, o milho transgênico aqui do lado se misturaria ao meu", diz, enquanto arranca o mato que cresceu em sua plantação.

Em sítios onde se produzem orgânicos, é assim que funciona: quase todas as atividades são feitas manualmente. Enquanto o vizinho de Barrichello usa produtos químicos para afugentar as pragas, ele conta com cerca de dez funcionários para cuidar de cada pé de seu plantio.

O serviço inclui carpir em torno de cada planta, adubar o solo e espantar eventuais pragas --um dos métodos usa um preparado de pinga com pimenta. Barrichello já plantava pelo método convencional desde 1964, mas começou com os orgânicos em 2001. "Dá dez vezes mais trabalho."

Em parte, são os esforços para preservar a plantação de pestes e de intempéries climáticas as justificativas dos produtores para os preços dos orgânicos --nos supermercados, eles podem custar até três vezes mais.

É esse o principal motivo para que 42% dos brasileiros --a maioria das classes C e D-- ainda não incluam produtos orgânicos na cesta de compras, segundo uma pesquisa da GfK Custom Research Brasil, feita em 2010.

Mesmo assim, Barrichello afirma que vende "absolutamente tudo" o que planta. "Nunca sobra nada. Se pudéssemos produzir mais, é certo que continuaríamos vendendo tudo."

ESTÁ NA MODA

Embora não haja estudo sobre o crescimento da demanda por orgânicos, é evidente que quem investe nos produtos sem agrotóxicos está encontrando mais espaço nas prateleiras.

O Pão de Açúcar, um dos maiores vendedores de orgânicos do Estado, dá sinais do fenômeno. Embora esses produtos ainda representem 3% dos itens agrícolas disponíveis, as vendas no segmento crescem até 40% ao ano. Somados os dois últimos anos, o faturamento atingiu R$ 130 milhões.

Para atender à demanda, especialmente na cidade de São Paulo, a meta é crescer 30% em 2011 em relação ao ano passado, diz a gerente de orgânicos da rede, Sandra Caires Sabóia.

Segundo Vanice Schmidt, gerente da Ecocert --selo francês presente em 80 países e um dos mais atuantes no Brasil--, a procura por certificações tem crescido anualmente, com forte demanda em São Paulo. "Começamos em 2001 com três projetos. Hoje, temos 200", diz.

A conta complica quando os números que crescem são os de agrotóxicos presentes nos produtos não orgânicos. Em tese, eles não fazem mal para o organismo humano se aplicados em doses estabelecidas em lei.

Mas, em pesquisa feita em 2009, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) detectou um índice excessivo em 15% dos 1.773 itens recolhidos em supermercados do país. Foram constatadas irregularidades especialmente no pimentão: mais de 64% da amostra tinha problemas. O Brasil é hoje o maior consumidor mundial de agrotóxicos.

PIMENTA COM PINGA

Para substituir os agrotóxicos, muitos produtores de orgânicos utilizam praguicidas biológicos.

Na Santa Madalena, fazenda de 17 hectares em Cordeirópolis (a cerca de 150 km de São Paulo), por exemplo, toda semana é solto sobre as plantações um punhado de tricogramas --vespas que são predadoras naturais da broca rosa e costumam atacar plantações de tomate. Outro "jeitinho" que se tornou comum nesse tipo de cultura é a pulverização de pimenta com pinga (ou álcool).

No pomar da Santa Madalena, ainda é possível encontrar joaninhas, que atacam o pulgão.

Para adubar o solo, é utilizada principalmente farinha de osso (um preparo feito dos restos do gado que vai para o abate). O trabalho é feito com a ajuda de dez funcionários. "Antes de plantar orgânicos, só precisávamos de um empregado", conta a engenheira agrônoma Maíra Maronesi, 27, que cuida do local com os pais.

A família acorda às 6h para cultivar frutas, hortaliças e legumes, vendidos na feira de orgânicos do parque da Água Branca, na capital paulista. Eles adotam métodos de cultivo naturais há cerca de 20 anos.

Rita Maronesi, mãe de Maíra, diz que a decisão de investir nos orgânicos foi pensada a partir de um problema de saúde. Ela tinha hemorragias constantes devido a uma plaquetopenia, doença que resulta na diminuição de plaquetas no sangue. Tratou-se com medicamentos, mas garante que só encontrou a cura quando mudou seus hábitos alimentares. "Comecei a comer orgânicos que plantei só pra mim. Então resolvi mudar a cultura. Eu não queria que aquilo fizesse mal para outras pessoas", diz.

Às sextas, os produtos da Santa Madalena são encaixotados para que, aos sábados, sejam levados para a feira da Água Branca.

Cerca de 250 caixas, com tomate, alface, beterraba, cenoura e outros produtos similares, enchem um pequeno caminhão. Os preços são flutuantes, dependem da produção. A cenoura, por exemplo, em geral custa R$ 3,50 o quilo, mas teve uma leve valorização (subiu para R$ 4) por conta de chuvas e de granizo.

Maíra afirma que tudo é comercializado. "Se a gente produzisse mais, não seria nada difícil vender."

INIMIGO MEU

Sem pesticidas, alguém precisa dar conta das pragas. Conheça o arsenal dos produtores que utilizam métodos naturais

Pimenta com pinga: a mistura da especiaria com a bebida pode afastar vários tipos de inseto

Joaninha: esse inseto é um dos principais predadores do pulgão, também conhecido como piolho-de-planta, que se alimenta da seiva de vários vegetais

Vespa: o inseto ajuda a combater a chamada broca rosa, uma larva que dá em tomates

Farinha de osso: o adubo feito de ossos de bois e porcos que foram para o abate fertiliza o solo

DELIVERY ORGÂNICO

A sãopaulo testou o serviço de empresas que entregam em casa.

A proximidade entre produtor e comprador favorece um comércio sem intermediários. Por isso, tem crescido na cidade a procura pela entrega domiciliar de orgânicos.

A sãopaulo testou A Boa Terra, Caminhos da Roça e Feiraorgânica. Todos entregaram produtos com bom aspecto e de sabores mais marcantes do que os dos convencionais.

Só há um inconveniente: é preciso ter alguém em casa para receber a compra. É possível, no máximo, especificar se a entrega deve ser feita pela manhã ou à tarde.

O processo é sempre igual: uma vez cadastrado na internet, o cliente passa a receber semanalmente a lista com os produtos (que variam de acordo com a época e com os resultados do plantio). O pedido pode ser feito on-line ou por telefone.

Há granolas, carnes, iogurtes e mel, além de frutas, legumes e hortaliças.

As três empresas passam a imagem de ecologicamente corretas e usam caixas e sacos de papelão para as entregas. Os sites também fornecem informações nutricionais e boas receitas para uma cozinha saudável.

Caminhos da Roça www.caminhosdaroca.com.br
Cesta com seis itens: R$ 28
Cesta com dez itens: R$ 39 a R$ 42,50

A Boa Terra www.aboaterra.com.br
Cesta com cinco itens: R$ 22,50
Cesta com dez itens: R$ 42,50

Feiraorgânica www.feirorganica.com.br
Cesta com seis itens: R$ 36
Cesta com dez itens: R$ 42 a R$ 51

É MAIS GOSTOSO PORQUE É MAIS FRESQUINHO?

Produtos orgânicos são mais saborosos do que os não orgânicos? Dois chefs paulistanos foram convidados pela sãopaulo para um teste. A brincadeira consistia em preparar um prato em duas versões, uma com alimentos orgânicos e outra com produtos comuns.

A especialista em orgânicos Tatá Cury ficou encarregada do preparo. Os "auditores" foram Diego Belda, que serve sanduíches e iguarias com língua e cabrito em seu restaurante, e Renato Caleffi, especializado em cozinha orgânica. Eles não sabiam a diferença entre os pratos.

Diego Belda, do Rothko - provou um prato de arroz, feijão, carne de panela, purê de mandioquinha e salada de folhas

Diego fez a prova sem venda. Reconheceu pela aparência, sobretudo, o feijão --o orgânico se destacou pela cor mais escura. Também considerou mais acentuado o sabor dos grãos. A carne e o purê tinham aparências praticamente iguais nos dois pratos. Ainda assim, Diego foi assertivo. "O purê orgânico tinha mais sabor. A carne também, além de apresentar consistência mais fibrosa." O chef só não sentiu diferença nas folhas de alface lisa e crespa. "São exatamente iguais."

Renato Callefi, do Le Manjue Bistrô - experimentou filé de peito de frango com couve, tomate-cereja e mandioquinha

Renato não conseguiu distinguir a couve orgânica. Achou a não orgânica "mais crocante". Com o filé de peito de frango orgânico, atestou de imediato: mais saboroso e mais fibroso. Resposta correta. Ao experimentar o tomate-cereja e a mandioquinha ralada e frita, também conseguiu saber quais eram os produtos orgânicos. Sem titubear.

RESULTADO: - orgânicos, para os dois chefs, têm mais sabor

A REGRA AGORA É CLARA

Desde janeiro, só podem ser vendidos como orgânicos no Brasil os produtos que estejam de acordo com a cartilha prevista pela lei nº 10.831, de 2003.

As certificadoras que já atuavam no país, muitas delas multinacionais estrangeiras, também precisaram se adaptar à nova regulamentação para poder emitir o selo do Sistema Brasileiro de Avaliação da Conformidade Orgânica, que atesta a qualidade dos produtos.

Para a engenheira agrônoma Maíra Maronesi, da fazenda Santa Madalena, a mudança traz benefícios. "Os produtores de orgânicos estavam usando normas internacionais, sendo que a nossa realidade é diferente da francesa, da japonesa. Precisávamos criar algo nosso."

Mas a lei também trouxe complicações. O produtor Luis Barrichello sente-se prejudicado porque o cogumelo orgânico não foi incluído na lista de alimentos que podem ser certificados, passando a ser vendido nas prateleiras dos não orgânicos pelo mesmo valor desses.

 

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