Descrição de chapéu The New York Times

Sem mudança climática, desigualdade entre países seria menor, diz estudo

Disparidade de renda per capita entre países mais ricos e mais pobres é 25% maior do que seria sem aumento das temperaturas

Somini Sengupta

A mudança climática cria vencedores e perdedores.  A Noruega está entre os vencedores; a Nigéria entre os perdedores.

É essa a conclusão de um artigo revisto por pares de dois professores da Universidade Stanford que procuraram quantificar o impacto das emissões crescentes de gases estufa sobre a desigualdade mundial. O estudo foi publicado na segunda-feira (22) na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences.

FILE -- Kado Market in Abuja, Nigeria, Feb. 13, 2019. Most of the world?s poor countries are poorer than they would have been had those emissions not altered the climate. In some rich countries, it's the opposite. (Nwakalor Kenechukwu/The New York Times)
Mercado em Abuja, na Nigéria, país que seria 29% mais rico sem mudanças climática, segundo estudo - Nwakalor Kenechukwu/The New York Times

Desde o início da era industrial, a temperatura global já subiu quase 1°C. O objetivo do trabalho foi medir o efeito disso sobre as economias nacionais e a disparidade global de renda.

Foi concluído que os países pobres foram prejudicados, enquanto os ricos, em especial os que acumularam muitas emissões nos últimos 50 anos, foram beneficiados.

A desigualdade entre países, que diminuiu nas últimas décadas, teria sido reduzida em muito menos tempo se a mudança climática não estivesse presente, segundo o artigo. Os autores estimaram que a disparidade de renda per capita entre os países mais ricos e mais pobres é 25% maior do que seria se não houvesse esse fator.

O estudo é baseado em uma pesquisa anterior do economista Marshall Burke, da Universidade Stanford, em que ele constatou que, quando a temperatura estava acima da média, o crescimento econômico perdia força nos países pobres, mas acelerava nos países ricos.

Isso ocorre pois os mais ricos, em sua maioria, estão em latitudes de temperatura mais fria, enquanto os mais pobres se concentram desproporcionalmente em volta do equador —onde mesmo um aumento ligeiro de temperatura pode ter efeitos devastadores para a produção agrícola, a saúde humana e a produtividade da mão-de-obra.

Em seu estudo mais recente, Burke e o cientista climático Noah Diffenbaugh analisaram mais de 20 modelos climáticos para estimar quanto os países aqueceram desde 1960 devido à mudança climática.

Depois, estimaram qual teria sido o desempenho econômico de cada um sem a elevação de temperatura.

A maioria dos países pobres está mais pobre hoje do que estaria se o clima não tivesse sido alterado. Enquanto isso, muitos dos ricos estão mais ricos do que estariam, conclui o estudo.

Entre 1961 e 2000, a mudança climática provocou uma queda de entre 17% e 30% na renda per capita dos países mais pobres do mundo. 

Alguns dos mais atingidos são também uns dos maiores. A Índia, com a segunda maior população do mundo, seria 30% mais rica se mudanças climáticas não existissem, diz o estudo. No caso da Nigéria, país mais populoso da África, o número seria 29%.

A Noruega, grande produtora de petróleo e gás, se saiu bem: enriqueceu 34%. Os autores fizeram a ressalva de que os dados relativos aos países mais frios e mais quentes são relativamente parcos. Nações em zonas temperadas, como China e Estados Unidos, não sentiram efeito grande, segundo o estudo.

“Os realmente frios foram muito beneficiados pela mudança climática”, disse Burke. “Os realmente quentes foram fortemente prejudicados.”

As conclusões trazem implicações para a discussão sobre quem deve reduzir mais rápido as emissões de gases estufa —e quem deve pagar pelos danos, especialmente nos países mais pobres. Essa já é uma das questões mais disputadas nas negociações climáticas globais.  

The New York Times

Tradução de Clara Allain

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