Com 500 mil hectares queimados na Bolívia, Evo Morales fala em 'exploração midiática' de incêndios

Fogo já dura três semanas; presidente boliviano tem feito concessões para desmatamento no país

Sylvia Colombo
La Paz

O epicentro dos incêndios que estão ocorrendo na Bolívia há três semanas fica em Santa Cruz de la Sierra, onde o fogo já consumiu 500 mil hectares de bosques e segue afetando florestas e campos de cultivo e de pasto para o gado. Indagado pela Folha, em Oruro, na última quarta (21) sobre o fogo no país, Morales disse que "está havendo muita exploração midiática, estive na região e já está sendo controlado".

O presidente Evo Morales viajou à cidade de Roboré, parte da região afetada, na última segunda-feira (19), e comandou uma entrega de comida e remédios para habitantes da zona cujas terras foram afetadas. "O que vocês necessitarem, nós vamos trazer", disse Morales. No dia seguinte, helicópteros e aviões foram deslocados para a região para ajudar no combate ao fogo.

Morales também afirmou, no mesmo dia, no departamento de Beni, onde está a maior parte do território amazônico boliviano, que "é importante controlar as queimadas, mas as famílias de pequenos produtores, se não as realizarem, não terão do que viver". 

Organismos de proteção do ambiente, a oposição boliviana e moradores da região afetada não concordam com as opiniões do presidente Morales. Rubén Costas, governador do Departamento de Santa Cruz, declarou "desastre departamental" e apontou as zonas em que a situação é grave: além de Roboré, San Ignacio de Velasco, El Trigal e Pampa Grande, na zona chamada de Chiquitania. Fotos de gado morto têm viralizado nas redes e nos noticiários de TV. 

Chiquitania é uma zona turística do país, onde há ruínas das missões jesuítas, declaradas patrimônio da Unesco. Além das queimadas realizadas pelos agricultores, há uma seca na região, que, somada aos fortes ventos, tem espalhado os incêndios.

Bolsonaro, nesta quinta (22), mostrou-se irritado com a repercussão da declaração em que acusa ONGs de provocar as queimadas. Ao parar para falar com jornalistas, depois de cumprimentar apoiadores na porta do Alvorada, ele disse que a imprensa foi irresponsável ao dizer que ele estava acusando as ONGs. Ele disse que gostaria de "converter" os jornalistas. 

"Vocês me entrevistaram ontem, vocês viram o que saiu nos jornais? Não é culpa de vocês, passa pelo filtro do editor. Em nenhum momento eu fui e falei, acusei as ONGs. [Falei de] suspeita", disse. Incomodado, ele ironizou que os jornalistas esperavam que ele dissesse que são os índios os autores das queimadas. 

O presidente disse ainda que o Brasil vai enfrentar problemas pelo que chamou de "irresponsabilidade da imprensa". "O Brasil vai chegar à situação da Venezuela. É isso que a grande parte da grande imprensa brasileira quer. E fica o tempo todo de picuinha, fazendo campanha contra o Brasil. Vocês acham, se o mundo lá fora começar a impor barreiras comerciais nossas, cai o nosso agronegócio, cai a economia", disse.

Ao falar com repórteres, mandou um recado para chefias das redações, dizendo que os editores dos jornais e donos de televisões também terão a vida complicada, como a de todos os brasileiros.

"A imprensa está cometendo um suicídio", disse. "Estamos numa nova era. Assim como acabou no passado o datilógrafo, a imprensa está acabando. Não é só por questão de poder aquisitivo do povo que não está bom. É porque não se acha verdade ali."

Evo Morales, presidente da Bolívia, visita área afetada por incêndio, ao lado de um militar
Evo Morales, presidente da Bolívia, visita área afetada por incêndio - Xinhua/ABI

Morales está em campanha para as eleições presidenciais de outubro. Se ganhar, irá para seu quarto mandato (está no poder desde 2006). Seu opositor, o ex-presidente Carlos Mesa, que está em segundo lugar nas pesquisas (Morales lidera), criticou duramente o fato de o mandatário ter demorado mais de uma semana para tomar as primeiras medidas contra os incêndios e duas semanas para visitar o local afetado. 

A Bolívia tem 46% de seu território coberto por selvas, num total de 51,4 milhões de hectares. Mas esse número tem diminuído nos últimos anos. Morales tem feito concessões para desmatamento em várias áreas, principalmente em Beni. Ali, em 2017, por exemplo, Morales deu autorização para o desmatamento de uma área equivalente ao território da Jamaica para a construção de uma estrada de 300 km que atravessou o parque Isiboro Sécure e fez com que 14 mil indígenas tivessem que deslocar suas casas.

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