Jornalismo é caminhar por horas na floresta para cobrir disputa por terra

Repórteres acompanharam volta da expedição de xikrins para expulsar grileiros

Fabiano Maisonnave
Terra Indígena Trincheira Bacajá (PA)

“Você não vai aguentar”, previu, sorridente, mas assertivo, o xikrin Manoel Gavião. Estávamos no início de uma caminhada pela floresta amazônica adentro. Cometi a grande burrice de tentar provar que ele estava errado.

As perspectivas naquela manhã de sexta-feira (23) eram desanimadoras. Após uma viagem que incluiu mais de dez horas sacolejando em estrada de terra e uma noite na vila Plano Dourado, descobrimos, o repórter fotográfico Lalo de Almeida e eu, que estávamos bastante atrasados. 

Dois dias antes, dezenas de guerreiros xikrins armados já haviam partido em expedição para expulsar centenas de invasores responsáveis pelo desmate criminoso de 2,4 mil hectares da terra indígena desde julho. Como alcançá-los?

O xikrin Manoel Gavião e o repórter Fabiano Maisonnave na Terra Indígena Trincheira Bacajá - Lalo de Almeida/Folhapress

O local da invasão é acessível por estrada de terra, mas o motorista se recusou a nos levar por medo dos invasores, que costumam andar armados. A alternativa era seguir o rastro dos guerreiros pela mata.

Aos 64 anos, Manoel aceitou ser o nosso guia. Calçando chinelos, com um saco de ráfia improvisado de mochila nas costas, espingarda numa mão e um frango congelado na outra, ele nos liderava com passos firmes pela trilha quase imperceptível. 

Lalo seguia logo atrás, impulsionado pelas pernas de um metro de altura cada uma. E eu os via cada vez mais de longe, pagando pelo erro primário de usar botas novas em uma caminhada longa. Nas mochilas, equipamento fotográfico, redes e mantimentos.

Tratava-se de uma aposta. Manoel não conhecia a picada recém-aberta dos invasores, que também deixaram estacas na floresta, sinalizando lotes a serem desmatados. Sabia apenas que teríamos de cruzar um rio a nado e depois andar por mais alguns quilômetros.

Depois de quatro horas, encontramos uma pequena clareira, de onde foi possível subir o drone. As imagens, a 400 metros de altura, só mostravam a imensidão verde da floresta —nenhum sinal do rio, dos guerreiros ou da invasão.

O repórter fotográfico Lalo de Almeida na Terra Indígena Trincheira Bacajá - Fabiano Maisonnave/Folhapress

O jeito foi dar meia volta com a meta de não precisarmos dormir na floresta. O problema é que eu já havia cumprido a profecia de Manoel. Além de uma ferida em carne viva no pé esquerdo, um mal-estar na perna direita transformava cada passo em dor aguda. 

A possibilidade de a noite nos alcançar na picada era cada vez maior, até que me lembrei da pomada de andiroba na mochila. O alívio foi quase milagroso e durou tempo suficiente para que terminássemos o regresso junto com os últimos raios de sol. Ao contrário de nós, exauridos, Manoel não demonstrava cansaço e continuava sorridente. 

No dia seguinte, os guerreiros saíram da floresta carregados de material confiscado dos invasores. Orgulhosos, marcharam pela aldeia e entoaram cânticos antes de se dispersarem.

Deixamos Trincheira Bacajá na manhã seguinte, em meio a ameaças de revide por parte dos grileiros. Pelo corpo, perambulavam dezenas de micuins, um minúsculo carrapato que pica por onde passa. E, em uma das malas, uma enorme aranha caranguejeira pegou carona até Altamira.

Foi só na terça-feira (27) que Lalo fotografaria a destruição na floresta dos xikrins, do alto de um avião alugado. Seis dias depois do início da viagem, a missão estava completa.

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