Apesar do potencial turístico, parques no país penam para atrair visitantes

1 em cada 5 unidades de conservação nacional ou estadual não recebe nenhuma visita, diz pesquisa

São Paulo

Bonito por natureza e privilegiado por ela, o Brasil ainda enfrenta dificuldade para tirar o melhor proveito das suas paisagens mais arrebatadoras. O país é o 2º com mais atratividade de recursos naturais, segundo o ranking de 2019 do Fórum Econômico Mundial. No mesmo relatório, o país cai para o 32º lugar quando a questão é competitividade no turismo. 

Embora os parques tenham “beleza cênica” como um critério obrigatório e sejam uma categoria de unidade de conservação voltada justamente à visitação, 20% dos parques estaduais e nacionais brasileiros não recebem nenhuma visita, segundo os gestores das unidades entrevistados em pesquisa feita no ano passado pelo Instituto Semeia, ONG que fomenta parcerias para melhorar o acesso aos parques. 

Entre os gestores dos parques que estão abertos à visitação, apenas 7% consideram que a estrutura é suficiente para receber turistas. Ainda segundo a pesquisa, 60% dos gestores consideram não ter os recursos necessários para conduzir a gestão dos parques. 

Outros dois desafios apontados pela pesquisa são a falta de plano de manejo e plano de uso público (25% dos parques não têm nenhum dos dois) e ainda a falta de regularização fundiária —apenas 34% dos parques considerados na pesquisa têm 100% da sua área regularizada.

O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, disse à Folha que “essas e outras fragilidades serão justamente supridas pelas concessionárias através de seus investimentos”. Questionado se a falta de regularização fundiária poderia atrapalhar as concessões, o ministro respondeu que “não deveria [atrapalhar], mas estamos vendo caso a caso.” 

Um dos casos estudados pelo ministério é o dos parques nacionais Aparados da Serra (RS) e Serra Geral (RS e SC).

Vizinhos e com gestão integrada, os parques são conhecidos como terra dos cânions, por causa das gigantes encostas verticais, permeadas por cachoeiras e rios. A paisagem, no entanto, pode ser interditada por gado, frequentemente flagrado pastando no meio do parque, segundo guias turísticos de três empresas ouvidos pela Folha

As invasões do gado são comuns por causa da falta de regularização fundiária, usada como oportunidade por criadores de gado que podem requerer a posse de terras públicas ocupadas há mais de cinco anos. 

Segundo dados do ICMBio, a União ainda precisa adquirir terras particulares correspondentes a 82,5% da área do parque Serra Geral e 29,7% no caso de Aparados da Serra. 

Considerada de grande potencial turístico pelo governo, a dupla de parques sulistas está na mira das concessões previstas ainda para este ano, assim como Floresta Nacional de Canela (RS), Floresta Nacional de São Francisco de Paula (RS), Parque Nacional de Jericoacoara (CE), Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses (MA) e ainda o Parque Nacional do Iguaçu (PR), cujo contrato deve passar por renovação, segundo nota do ministério. 

As concessões dos parques são voltadas aos serviços para atendimento ao público, de modo que a gestão da conservação da biodiversidade continua sob responsabilidade do ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade), órgão do governo federal. 

As principais reclamações registradas por turistas no site TripAdvisor são: falta de informação (falta de sinalização, como placas indicando rotas e quantidade de quilômetros percorridos), dificuldade de acesso nas estradas, más condições do centro de visitantes e estruturas abandonadas ou necessitadas de reforma. 

Entre os mais visitados do Brasil, mas com pouca estrutura implementada para o turismo, os parques nacionais Chapada dos Guimarães (MT) e Chapada dos Veadeiros (GO) receberam o maior número de reclamações no site. 

Uma usuária do site, Nathália G., conta ter viajado com a família desde o Rio de Janeiro até o parque nacional da Serra da Canastra (MG) sem ter conseguido acesso ao parque. “É impossível. Ficamos duas horas no carro para pegar a estrada de chão e não conseguimos chegar. Tem que ter carro 4x4 para chegar”. 

No parque nacional Alto Caparaó (MG), visitantes também reclamam de erosão provocada por trilhas alternativas abertas pela população.

O site, que reúne comentários sobre 23 dos 73 parques nacionais, também registra críticas à falta de estrutura nas cidades, como boas estradas, serviços de aluguel de veículos e mais opções de hotéis e restaurantes. 

Já Parque Nacional da Tijuca (RJ), que abriga o Cristo Redentor e é o mais visitado do Brasil, têm uma implementação consolidada de estrutura para atendimento ao visitante, através de concessões. As reclamações dos turistas sobre o parque, no entanto, são sobre manutenção de estradas e acessos, acessibilidade nos mirantes e ainda monitoramento policial em algumas áreas do parque.

Com tantas dificuldades, 43% do brasileiros entrevistados em seis regiões metropolitanas brasileiras afirmaram nunca ter visitado um parque natural, segundo pesquisa feita em 2019 pelo Instituto Semeia. 

Embora mais da metade dos entrevistados mostre ter conhecimento sobre parques no seu estado ou sobre parques famosos no país, boa parte alega alto custo e distância como principais razões para nunca terem visitado os parques. 

“Com poucas exceções que estão com sobrecarga de visitas, como Fernando de Noronha, a visitação deve ser aumentada em quase todas as unidades de conservação do Brasil. Aparados da Serra merecia ter dez vezes mais visitas”, diz Cláudio Maretti, conservacionista e ex-presidente do ICMBio.  

Entre os 57% que já fizeram visitas, as principais motivações para ir aos parques são ter contato com a natureza (32%) e mostrar a natureza para os filhos (32%). 

Para o diretor-presidente do Instituto Semeia, Fernando Pieroni, o turismo nos parques é uma atividade aliada da conservação, não só por aumentar a consciência ambiental dos visitantes, mas também por torná-los cúmplices da fiscalização nas áreas protegidas. 

“A circulação de pessoas nas trilhas coíbe atividades ilegais de caçadores e palmiteiros, por exemplo. O turista dá voz para a sociedade dentro do parque”, diz Pieroni.

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