Violência policial contra negros nos EUA pode reduzir peso de bebês e encurtar gestações

Estudo na revista Science Advances aponta o aumento dos hormônios do estresse nas grávidas como causa

São Carlos (SP)

Casos de violência policial contra negros nos EUA parecem ser capazes de influenciar negativamente a saúde de bebês desse grupo racial ainda na barriga da mãe, diz um estudo epidemiológico que acaba de ser publicado na revista especializada Science Advances.

A pesquisa do sociólogo alemão Joscha Legewie, da Universidade Harvard (EUA), revelou que há uma associação significativa entre situações nas quais a polícia matou negros desarmados, de um lado, e diminuições no peso ao nascer e no tempo total de gestação de bebês negros no estado americano da Califórnia. Ambas as situações estão ligadas a piores condições de saúde ao longo da vida e a um maior risco de problemas de desenvolvimento para essas crianças.

Os manifestantes da Black Lives Matter (Vidas Negras Importam) marcharam pelas ruas de Sacramento, na Califórnia (EUA) durante uma manifestação em 30 de março de 2018. Eles marcharam exigindo justiça por Stephon Clark, que foi baleado e morto pela polícia de Sacramento em 18 de março. Uma autópsia independente encomendada pela família Clark revelou que Stephon Clark havia sido baleado 8 vezes, os tiros o atingiram nas costas
Os manifestantes da Black Lives Matter (Vidas Negras Importam) marcharam pelas ruas de Sacramento, na Califórnia (EUA) durante uma manifestação em 30 de março de 2018. Eles marcharam exigindo justiça por Stephon Clark, que foi baleado e morto pela polícia de Sacramento em 18 de março. Uma autópsia independente encomendada pela família Clark revelou que Stephon Clark havia sido baleado 8 vezes, os tiros o atingiram nas costas - Justin Sullivan/AFP

O efeito é considerável, segundo o levantamento de Legewie, quando as mortes acontecem durante o primeiro e o segundo trimestres de gestação e se dão perto dos locais onde os bebês e suas famílias vivem (a até 2 km de distância).

Em média, quanto mais cedo na gestação e mais perto da gestante o incidente ocorre, mais elevada é a associação negativa. Os bebês cuja família morava a 1 km do local das mortes, por exemplo, nasceram com até 80 g de peso a menos e “perderam”, em média, meia semana de gestação em relação aos demais.

Os dados da análise vão de 2007 a 2016, correspondendo a cerca de 200 mil nascimentos de bebês negros e 164 casos de mortes de negros desarmados, num conjunto total de quase 4 milhões de nascimentos na Califórnia nesse período.

Para analisar esses casos, Legewie tomou como ponto de partida uma área de estudos cada vez mais consolidada, que tem mostrado a importância de fatores de estresse para a saúde e o desenvolvimento desde a gestação.

Sabe-se que os hormônios do estresse afetam negativamente, por exemplo, o sistema imune, que defende o organismo de infecções —basicamente porque não faz tanto sentido que o organismo gaste energia se preparando para enfrentar uma doença quando precisa lidar com ameaças muito mais imediatas, como predadores e adversários (as fontes do estresse). No longo prazo, isso deixa o indivíduo afetado mais vulnerável a diversos problemas de saúde.

 

O aumento dos hormônios do estresse nas gestantes também tende a encurtar a gestação, levando ao nascimento de bebês com peso menor. Tais efeitos costumam ser maiores em populações de baixa renda, que sofrem discriminação e que são alvos preferenciais da repressão policial.

É exatamente esse o caso dos negros nos EUA. Membros dessa população correm quase o triplo do risco de serem mortos por policiais quando comparados aos brancos (no Brasil, cerca de três quartos das mortes causadas pela polícia são de negros). A probabilidade de baixo peso ao nascer (ou seja, peso inferior a 2,5 kg) entre negros americanos é o dobro da dos brancos, e o mesmo vale para a taxa de mortalidade até um ano de idade.

A hipótese do pesquisador de Harvard é que fatores como esses sejam especialmente agudos quando há proximidade entre gestantes negras e casos em que negros desarmados —os quais, portanto, não representavam grande ameaça aos policiais— são mortos.

Essas situações reforçariam a percepção de tratamento injusto e de discriminação nessas comunidades, atuando como um fator social de estresse e afetando o desenvolvimento dos bebês durante a gestação. É possível que mesmo efeitos relativamente sutis como os detectados pelo estudo acabem tendo impacto na saúde e no desenvolvimento escolar das crianças negras, reforçando a desigualdade que já está presente na sociedade americana.

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